(67) 99826-0686
ALMS Dezembro

Prestes a comemorarem centenário, moradores da Tia Eva ainda sonham com valorização da comunidade

História da região remanescente de quilombos em Campo Grande é ‘celebrada’ até mesmo com investigação sobre condições de patrimônio

6 DEZ 2018
Amanda Amaral
19h00min
'Bolinho' preside a Associação dos Descendentes de Tia Eva Foto: Amanda Amaral

Em maio de 2019, a Comunidade Quilombola Tia Eva completa 100 anos da tradicional Festa de São Benedito em Campo Grande. União, crença e cultura tentam se mantém erguidas entre os moradores, mas não há tanto assim o que ser comemorado na região com aspectos marginalizados e esquecidos pelo poder público.

A igreja que leva o nome do santo e da fé das cerca de 110 famílias que ali vivem está caindo aos pedaços. Pelo motivo, virou objeto de investigação do Ministério Público Estadual, já que, mesmo sendo patrimônio histórico de Mato Grosso do Sul, apresenta risco de desabar a qualquer momento.

Presidente da Associação de Descendentes de Tia Eva e seu tataraneto, Eurides Antônio da Silva, o Bolinho, diz alertar há anos sobre a condição de abandono da região. “Essa história, esse lugar e a memória da Tia Eva merecem um olhar diferente. Nosso sonho era transformar a comunidade em ponto de referência da cultura afro, como um Pelourinho é na Bahia. Senão a história é apagada, sem que nem gente da própria cidade conheça”, lamenta. 

Interior da igreja. (Foto: Wesley Ortiz/Arquivo)

Conforme Bolinho, um estudo já foi realizado pela Sectur (Secretaria de Cultura e Turismo) sobre a valorização do local, mas falta interesse para o investimento. A ideia de uma grande festa no próximo ano, em sua cabeça, já está toda planejada.

“Seria muito bonito demonstrar o valor da comunidade, com comidas típicas, vestes africanas, um portal de entrada bem bonito. Com artistas daqui e, por que não, de renome nacional, como um sambista famoso? Para isso precisamos de apoio, emendas… Para mostrar o quando aqui é importante para nós, mas poderia ser para toda a cidade”, diz.

No próximo ano, a intenção também é retomar a corrida de São Benedito, que estreou em 2018. O evento homenageia a tataravó, em agradecimento à cura de um problema em uma das pernas.

Nos sonhos dos moradores, também estão a delimitação de terras centenárias a que a comunidade teria direito, além da criação de área de lazer e esporte, principalmente por conta das crianças e idosos. “Ainda assim, fazemos tudo com algum apoio, improvisamos do melhor jeito que podemos. Não queremos desentendimentos com prefeito, governador, mas é um potencial que se esvai”, finaliza.

Descendentes em frente ao patrimônio. (Foto: Arquivo FCMS)

História

A comunidade negra Tia Eva é definida como uma comunidade urbana remanescente de quilombo desde 1905 e reconhecida pela Fundação Cultural Palmares. Tia Eva foi uma escrava antes de chegar a Mato Grosso, e trabalhou como lavadeira, parteira, cozinheira, curandeira e benzedeira.

Procurada por inúmeras pessoas, tornou-se referência na comunidade. Devota de São Benedito, fez uma promessa ao padroeiro para que curasse uma ferida que havia há anos em sua perna, que após muito tempo e, conforme sua crença, milagrosamente, foi curada. Para pagar a dádiva ao santo, construiu em 1912 a igreja em sua homenagem. Desde 1919, a Festa de São Benedito acontece anualmente.

Veja também