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Ana Maria do Couto, nome de residencial em Campo Grande, ‘assombra’ casarão em que vivia

Ela foi professora, vereadora e presidente de time de futebol; e morreu em 1971, aos 46 anos, em Cuiabá (MT)

15 ABR 2018
Celso Bejarano
17h20min
Casa onde Ana Maria morava, na vila Bandeirantes, em Cuiabá Foto: Alair Ribeiro/Midianews

O conjunto residencial Ana Maria do Couto, construído na década de 1980, em Campo Grande, nos altos da Avenida Júlio de Castilho, apareceu numa reportagem publicada neste fim de semana, pelo site midianews, com sede em Cuiabá, a capital de Mato Grosso.

No material não surgem histórias dos moradores nem se é boa ou ruim a infraestrutura do residencial. A reportagem trata da biografia da dona do nome do conjunto: a Ana Maria do Couto, que foi professora, vereadora e atleta. Ela morreu em 1971.

O texto narra uma peculiaridade da vida de Ana Maria que ficou conhecida nacionalmente: o imóvel onde ela morava, no bairro Bandeirantes, em Cuiabá, é tido o casarão assombrado.

Depois que ela morreu de câncer sua voz era ouvida com frequência por moradores que passavam perto do casarão. A reportagem produzida pelo repórter Jad Laranjeira, do Midianews, se sustentou em depoimentos de pessoas que trabalharam no casarão e também da astrônoma Telma Cenira Couto da Silva, sobrinha de Ana do Couto. Leia a história:

Localizado entre as ruas Diogo Domingos Ferreira e Manoel Garcia Velho, no bairro Bandeirantes, um casarão se ergue imponente em meio ao tráfego intenso da região central de Cuiabá. Sua fama já foi mais conhecida, mas ainda hoje as lendas de assombração parecem não abandonar o local.

Até no moderno Google Maps, o ponto de referência mais próximo diz "Casarão Assombrado". O que poucos sabem, porém, é a verdadeira história daquela construção e de sua mais famosa moradora, uma cuiabana que quebrou barreiras, desafiou o preconceito e fez pouco caso para os limites impostos pela sociedade. 
 
A professora Ana Maria do Couto, mais conhecida como “May”, nasceu em Cuiabá em setembro de 1925 e, desde muito jovem, dava sinais de ser uma pessoa muito à frente da época em que vivia. Demonstrou interesse por Esportes, se formou em Educação Física e depois virou atleta. Também formou-se em Direito, tornando-se mais tarde professora, depois jornalista, radialista, e até mesmo seguiu no meio político, onde foi vereadora.
 
Sua trajetória singular, porém, seria interrompida cedo: ela morreu em 1971, aos 46 anos, vítima de câncer. Na época, ela havia acabado de assumir a presidência do Clube Esportivo Dom Bosco.
 
Foi a partir daí que começaram as histórias de que o espírito de May assombrava o casarão onde ela morava com a mãe.

A professora Ana Maria (foto: álbum de família)

 

A lenda dizia que May sofrera muito com a doença e que, nos últimos dias de vida, chegava a gritar de dor. Após a sua morte, as pessoas passaram a dizer que quem passasse tarde da noite em frente ao casarão, ouviria os gritos. Outros juravam ter visto o fantasma da professora, andando pela varanda da casa.
 
A história se tornou tão popular em Mato Grosso, que ganhou repercussão em âmbito nacional. um blog definiu o casarão como um dos 40 lugares mais mal-assombrados do Brasil. Em outro, o local está entre os sete mais assustadores.

A reportagem do MidiaNews esteve na rua onde fica o casarão, e conversou o goiano João, que mora na Capital há mais de 40 anos e trabalha vendendo lanches em frente à casa há 18. Ele também já foi caseiro na residência por seis anos.
 
O vendedor conta que é fanático por histórias de terror e que, antes de vir a Cuiabá, soube do casarão e passou a pesquisar sobre a vida de Ana Maria do Couto.
 
Apesar de afirmar que nunca viu e nem ouviu nada, relatou momentos em que sentiu medo, principalmente quando dormia no local. Portas e janelas batendo, conta ele, era algo comum.
 
“Eu cuidava da manutenção eletrônica das câmeras e a dona da casa, que morava em Chapada na época, pedia pra eu ficar dando uma olhada. Eu dormi aí [no casarão] várias vezes, só que nunca entrei com esse pensamento de assombração. Se as portas batessem, eu falava pra mim que era o vento”, disse.
 
Até mesmo uma simples goteira, segundo ele, era motivo para aquele frio na espinha.
 
"Houve um problema sério de infiltração, e aquela água caía do teto, batia no chão e fazia um barulhão, com eco. Eu sempre me policiava e dizia pra mim mesmo: é só a água que tá caindo e a porta que tá batendo por causa do vento, e assim foi indo”, contou.
 
Ele lembra ainda que outra fonte de comentários era o costume de uma antiga proprietária de sair à varanda vestindo uma camisola. De longe, muita gente imaginava que era o fantasma de May.
 
“O pessoal via e falava que era assombração. A gurizada que estuda nos colégios aqui da região saía correndo e morrendo de medo. Isso não é mentira, aconteceu mesmo”, lembrou.
 
João conta que desde que se instalou no local para vender salgados, ouve histórias sobre o casarão, mas sempre que perguntam para ele se é verdade, é enfático ao dizer que não.

A verdadeira história
 
Toda lenda tem uma origem. E foi a sobrinha de May do Couto, a astrônoma Telma Cenira Couto da Silva, quem contou ao MidiaNews sobre como foi criada a fama do casarão. Antes, porém, falou da admiração pela figura real, uma mulher que definiu como "extremamente amorosa e alegre".
 
“Eu tinha uma idolatria pela minha tia, eu saía da aula e ia direto para o hospital para visitá-la, sempre que eu podia. Lembro que uma vez, uma enfermeira me falou: ‘sua tia tá muito mal, você tem que estar preparada, porque ela vai morrer logo’. Aí eu perguntei: ‘Como a senhora sabe? ’ e ela respondeu: ‘a gente conhece as feições da morte’”.

Em razão deste aviso, Telma conta que acabou sendo a última pessoa tocada por May do Couto.
 
“Fui pra casa deitar, e pedi que o meu pai me acordasse muito cedo, porque eu queria ir ao hospital. E eu me lembro também que ele não me chamou e eu acordei com o sino da igreja Bom Despacho tocando, chamando para a missa. Então eu corri ,me troquei rapidamente e corri pra lá [hospital]", relembra.
 
Quando chegou ao local, encontrou parte da família chorandO. "Fui lá na cama segurei a mão dela e apertei. Eu acho que não deu dois minutos e ela morreu. Parecia que ela estava esperando que eu chegasse pra ela partir. Isso é uma coisa que eu nunca esqueço.  Aí eu vi que todo mundo começou a chorar muito forte, e eu perguntei: tia May morreu?”, contou.
 
A astrônoma afirma que a lenda sobre o fantasma de sua tia no casarão surgiu a partir do forte sentimento de luto de sua avó e mãe de May, a dona “Chiquita”. 
 
“No começo não contaram para a minha vó que a minha tia May estava com câncer. Inventavam as doenças, falaram que era ‘bico de papagaio’, úlcera, enfim, optaram por não falar, então quando ela morreu, a minha vó não estava preparada e ficou extremamente abalada”.
 
“E morando num casarão daquele, ela dizia assim: ‘quem construiu não aproveitou’. Então após a morte da minha tia, ela não permitia que ligassem as luzes da casa durante à noite, era ligada a luz  somente da cozinha para jantar, e não podia ligar a TV, nem rádio, ninguém fazia nada alegre na casa. A minha tia morreu, então ela falava: ‘vou morrer em vida. Eu estou viva e não quero alegria, essa casa não é pra ser alegre’. Então a casa ficava no escuro e com uma ou outra luz ligada”.
 
 Segundo Telma, a decisão deixava casa com um ar “sombrio”, o que só piorou quando a Mãe de May resolveu colocar fitas com a voz da professora discursando para ouvir durante a noite.
 
“Antigamente, a tia May fazia muitos discursos. Minha avó tinha um último discurso dela gravado naqueles rolos grandões, um que ela fez para o Pedro Pedrossian [ex-governador de MT]. Aí, à noite, com a luz desligada, ela ficava ouvindo o discurso de tia May. Então quem passava pela rua, ouvia a voz dela lá dentro. Aí você imagine: você passa numa casa toda escura e com a voz de um morto lá dentro, o que você faria? Você correria, né?”, contou, aos risos.
 
Telma afirma que todos da família concordam em atribuir a origem das histórias sobre a assombração às fitas que sua avó ouvia.
 
“Na época em que minha tia morreu, você não tinha muito o que fazer em Cuiabá. A TV ainda estava chegando. Então a fofoca era grande. Tinha gente que falava que minha tia tinha muitas joias, e que ela havia sido enterrada com todas as joias dela. A gente até começou a ficar com medo de que fossem desenterrar a tia para roubar”, disse.
Lendas à parte, a verdade é que Ana Maria do Couto marcou época em Mato Grosso. Hoje, em frente do casarão onde morou, existe uma estátua com o seu rosto.
 
Além disso, seu nome também pode ser notado em homenagens expostas em prédios públicos, praças e escolas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
 
Um dos mais conhecidos é o presídio feminino Ana Maria do Couto May. Há também uma escola no Bairro CPA 2.
 
O prédio da Promotoria de Justiça de Barra do Bugres também recebeu o nome da vereadora. Já em Campo Grande (MS), um conjunto habitacional rende homenagens à essa inquieta cuiabana.

 

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