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Apesar de avanços da medicina, benzimento ainda é considerado 'cura' para muita gente

Benzedeira é figura que tem confiança e quem tem alguém "que benze" garante que só a reza para ajudar

18 JUN 2017
Liziane Berrocal
11h30min
cidades-interna1
Victor Hugo - 28 anos

No portão da casa humilde no Nova Lima uma senhora franzina recebe as pessoas com um sorriso. Evangélica da Assembleia de Deus, dona Rosa se batizou com uma única “condição”. Não deixaria de benzer. Pelas mãos calejadas, já passaram milhares de pessoas e crianças. Filhos dos filhos dos filhos e gente que vem de fora para receber uma oração, ou benzimento, como muitos ainda acreditam.

“Acho que foi com uns oito anos que comecei. Criança ainda, era o dom. Então não parei mais. Vem gente de tudo que é lugar aqui, alguns eu vi crescerem. Vem aqui e a gente benze”, conta a senhorinha franzina que não cobra nada para abrir as portas de sua casa. “Não pode cobrar, benzimento é benção”, garante. No batente da porta, o bebê com "ventre virado" é benzida e colocada de cabeça para baixo. "Vai da fé de cada um, minha oração é para Deus. Deus cura, protege e quem cura é Ele", garante. 

Mas será que ainda hoje, com tanto avanço na medicina, ainda tem gente que acredita no ato de benzer? Fizemos a pergunta e as respostas surpreendem, já que a reza da benzedeira, ainda é para muitos, o único remédio para dieta quebrada, quebranto, “ventre virado”, cobreiro e até mesmo quem é do protestantismo, não deixa de ir “benzer” de vez em quando.

O caso até mesmo do juiz federal Odilon de Oliveira, que na enquete da internet contou sua experiência. “Já fui benzido e curado várias vezes, quando criança e adolescente morando na roça”, contou.

E histórias não faltam para contar sobre uma reza que salvou uma vida. Foi o caso de Dauvinha que acredita piamente que sua vida foi salva graças a benzedeira. “Nasci e cresci só a base de benzedeira, já que quando fui nascer, de par normal de início eu estava atravessada e saiu apenas minha mão, e a enfermeiras brincando dizendo que a mão era comprida que eu seria pianista. Nisso nasci, e logo fiquei doentinha, fiquei tao mal que dava pra ver meu intestino e veias na cabeça de tão magrinha que eu estava”, conta ela. Segundo Dalvinha, como há quase 40 anos era complexo fazer uma ultrassonografia, a mãe não tinha dinheiro para ir a São Paulo fazer o exame de coração que ela precisava e o jeito foi recorrer ao benzimento.

“Minha mãe disse que não iria, assinou o termo de responsabilidade e me levou direto pra benzedeira.  E o que tinha era quebranto e a benzedeira disse que foi na hora do parto onde as enfermeiras ficaram admirando minha mão, mas isso é só uma história”, reconhece ela que tem benzedeiro na família e cresceu passando isso para as gerações.

E o “bezimento” é aquele típico costume do interior trazido por quem vai morar na Capital. “Acredito sim, sou de família do interior, de fazenda. Onde somos três irmãs e quando bebes nossa mãe nos levou para sermos benzidas. Porém não encontra mais as "vovozinhas" que benziam com galho de arruda e oração. Tem que ter fé, e independente de religião, são senhorinhas que rezam com muita fé em Deus. Então quem somos nós para duvidar e julgar?
Para quebrante, benzimento é muito bom”, acredita Edimara Rita. Para ela, inclusive, são os próprios pais quem colocam o tal do “quebrante” nas crianças. “São os próprios pais que mais colocam quebrante? É que ficam "encantados" com a pequenina. Mas hoje, tem que ir numa cidadezinha do interior que poderá encontrar uma benzedeira”, ensina.

“Auto da Compadecida”

E tem até quem use os poderes da oração para cura de animais de estimação. Esse foi o caso de Vania Menegassi, que quando o cachorrinho da família foi desenganado pelo médico veterinário, o jeito foi apelar para a reza.

“Sempre levei meu filho quando criança. Mas a vez que fiquei muito abalada, foi quando a veterinária mandou meu cachorrinho para morrer em casa, pois não descobriam o que ele tinha. Muito doente, fui fazer minha última tentativa pois eu o amo demais. Levei em uma benzedeira”, contou.

Mas não foi tão fácil assim, já que a senhorinha não queria benzer o cachorro. “Mas eu chorei implorei a ela, até que ela aceitou.  No segundo dia meu filhote de patas já estava comendo e bebendo. A veterinária ficou incrédula pela recuperação dele. Foi muito lindo”, conta.

E atualmente, mesmo que escassa, muitas benzedeiras ainda atuam. E tem sempre alguém que conheça uma, para impor as mãos, tirar quebranto, mau olhado, espinhela caída, cobreiro ou ventre virado. O que importa mesmo é a fé. 

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