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Enredo da Imperatriz Leopoldinense causa polêmica entre produtores rurais em MS

Canção inspirada na luta dos povos indígenas contra o desmatamento e a perda de terras desagradou representantes do agronegócio

11 JAN 2017
Diana Christie
15h10min
Foto: Reprodução

“O belo monstro roubas as terras dos seus filhos, devora as matas e seca os rios. Tanta riqueza que a cobiça destruiu. Sou o filho esquecido do mundo, minha cor é vermelho de dor, o meu canto é bravo e forte, mas, é hino de paz e amor. Sou guerreiro imortal derradeiro, deste chão o senhor verdadeiro. Semente eu sou a primeira, da pura alma brasileira!”. Assim diz trecho do enredo da escola de samba da Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval deste ano.

Inspirada na luta dos povos indígenas contra o desmatamento e a perda de terras, a canção vem causando polêmica entre os produtores rurais de todo o país. Para o agronegócio, a escola de samba destorce os fatos e ignora o crescimento sustentável do setor. Já os defensores dos índios acreditam que a reação é só mais uma prova da privação de direitos desses povos.

Em Mato Grosso do Sul, a Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul) emitiu uma nota de repúdio contra a Imperatriz. Segundo o órgão, a escola de samba “manifesta em sua composição uma versão odiosa, repugnante e preconceituosa, totalmente distorcida do setor agropecuário brasileiro, repassando uma imagem de destruidor de florestas e da natureza, invasor e monstro, num evento cultural de conotação internacional”.

Para o presidente da Acrissul, Jonatan Pereira Barbosa, a letra dissemina ignorância e ódio entre as camadas sociais. Também ignora as conquistas do setor agropecuário brasileiro, que exporta carne aos consumidores mais exigentes, inclusive para os Estados Unidos, com o selo verde da sustentabilidade e do respeito ao homem e à natureza.

“Impingir tais difamações ao agronegócio é ignorar a realidade social, econômica e estatística brasileira, em cujos números repousam o fato inconteste de que graças ao setor agropecuário o País vem, desde 1994, com o Plano Real, servindo de âncora verde para a economia nacional, sustentando a balança comercial e o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), com significativa representatividade na criação e manutenção de empregos”, afirma.

Por outro lado, os defensores dos povos indígenas acreditam que a escola de samba está prestando um serviço para a comunidade denunciando internacionalmente o genocídio que ocorre em várias partes do país. É o que pensa o diretor de comunicação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Marçal de Souza, Paulo Ângelo De Souza.

“Acho que não há ofensa nenhuma. Acho que há um alerta a sociedade do genocídio silencioso que ocorre aos povos indígenas em todo o país. Houve a reação da classe na defesa do lucro, o que só confirma que há realmente violação dos direitos sociais dos povos indígenas. A instituição resolveu denunciar ao mundo o genocídio silencioso”, declarou.

Segundo ele, não se trata apenas de uma discussão de classes. “É uma situação muito dramática. O Brasil não vai resolver essa situação enquanto não encarar o problema de frente e devolver a terra aos povos tradicionais indígenas. Os casos de boa fé tem que indenizar os proprietários dessas terras porque foi um erro do governo na hora de titular terra, queria colonizar o país e emitiu os títulos”.

Paulo também destaca que falta vontade política para resolver os conflitos por terra. “O governo brasileiro precisa resolver logo, mas há uma má vontade da classe politica que quer promover um retrocesso e passar para o Congresso Nacional o direito de decidir o que é terra indígena ou não. Vai virar um balcão de negócios para os políticos que vão defender os interesses dos produtores rurais. Eles têm até uma bancada”, enfatiza.

Confira abaixo a canção ‘Xingu, o Clamor que Vem da Floresta’, composta por Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna:

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