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COLUNA

A maquiagem trouxe cor para a vida de Mari, que superou a vontade de morrer

Onda de suicídios em Aquidauana e Anastácio assusta, mas história de maquiadora é daquelas de chorar

16 ABR 2018
Giselli Figueiredo
07h20min

Desde última semana, Aquidauana e Anastácio estão sofrendo com outra onda de suicídios e inúmeras tentativas, a maioria praticados por jovens e adolescentes. As Secretarias de Saúde das duas cidades estão em alerta com psicólogos e assistentes sociais à disposição 24 horas, os sete dias da semana, para dar todo suporte para quem precisa e seus familiares. E nós da imprensa temos um papel fundamental neste momento que é mostrar para aquela pessoa que passa por esse momento doloroso de querer atentar contra a própria vida, que é possível sim superar essa tormenta pessoal e voltar a ver a vida com outros olhos.

Um exemplo que quero hoje dividir com vocês é a história da Marieni Lara de Godoi, 34 anos, que mora em Anastácio. O relato dela foi de arrepiar, até chorei ao ler tudo que ela me enviou via WhatsApp. Se eu for detalhar aqui, dá até um livro. Mari, graças a Deus, conseguiu superar devido a paixão pela maquiagem. Eu sei que todo mundo passa perrengue. Todo mundo. Por mais que a gente pense que a vida dos outros é perfeita ou mais legal que a nossa, eu tenho certeza que todo mundo tem problemas. Por isso vou contar essa história, é um meio da gente se identificar, se acalentar. Da gente se sentir acolhida, ouvida e o mais importante, uma esperança para outras pessoas saírem desse momento de escuridão pessoal.

Quando você entra no perfil da Mari Godoi no Facebook, se depara com uma mulher linda, bem arrumada, sempre muito bem maquiada. E as fotos das clientes? Uma mais inspiradora que a outra. Nunca! Nunca imaginei que por trás de todas essas postagens tivesse uma história de dor e sofrimento e o desejo de tirar a própria vida. Uma outra amiga maquiadora me contou sobre a Mari e ela super topou dividir com vocês sua superação.

A maquiadora conta que muitas coisas contribuiram. Com quatro filhos, os pais foram morar em Anastácio, na casa da avó que era alcoólatra. O pai morreu em um acidente de carro quando ela ainda era criança. A mãe não suportou ficar na casa da avó por conta do vício e foi morar de aluguel com a Mari que é a mais velha, o irmão e as irmãs gêmeas. Marienni conta que sua mãe se casou novamente com um homem que também era dependente de álcool, o que a levou a 15 anos de sofrimento. Foram morar em um barraco de 3 peças super pequenas de madeira, tijolo com barro e eternite, em uma região muito insalubre, rodeado de esgoto a céu aberto, numa vizinhança onde a droga batia a porta, mas segundo a jovem, nem ela e nem os irmãos se envolveram com coisa errada.

Ela conta que nesse período passou por muita coisa ruim. "Minha mãe adoeceu de uma das pernas onde ficou 1 ano e 6 meses acamada com ferida aberta, entre ida e vindas ao Pronto Socorro, sem resultado ou melhoras". Vários fatos sobrecarregaram a então menina. Foi aí que Marienni não suportou o sofrimento que estava passando e veio a vontade de cometer suicídio pela primeira vez. "Ele me batia, ela me batia. Aos 13 anos tomei veneno mas não resolveu, só vomitei muito por vários dias. Mas não queria aquela vida mais".

Cinco anos após esse episódio, já com 14 anos de idade, Mari recebeu a notícia que o irmão de 9 anos sofreu um  acidente e faleceu. Primeiro o pai e depois o irmão se foi. Sua mãe ficou muito abalada, o que a deixou bem vulnerável emocionalmente. "Não foram momentos bons para mim, ela era muito nervosa, eu apanhava muito se nao lavasse os pratos, se eu saísse na rua, se eu namorasse, se eu saísse com o namorado, se eu chegasse tarde depois da meia-noite, ela me tocava de casa todos os dias. Comecei cedo a trabalhar comprava minhas coisas sustentava a casa e pagava as despesas que eu podia e meu padrasto sempre na mesma", relatou.

Aos 23 anos a maquiadora arrumou um namorado, casou e com esse novo capítulo de sua vida, achou que ia deixar para  trás todo sofrimento que passou. Juntos adquiriram uma casa própria e segundo Mari, foram anos de paz e liberdade. Com 3 anos de casada, engravidou e veio ao mundo a pequena Jullya. Mesmo uma gravidez tranquila e cheia de amor, a pequena nasceu com um problema de saúde, onde ela não respirava direito e ficava roxa ao chorar. Jullya nasceu com uma má formação na traquéia chamada Laringotraqueomalacia.

No quinto dia de nascida, após exames e consultas, Mari pôde levar a menina para a casa. Aquela alegria, pessoas visitando, casa cheia. Quando as visitas deram uma pausa, chegaram duas amigas. "Sentamos na cama e começamos a conversar e uma delas pegou Jullya no colo. Enquanto eu falava, eu olhava para ela dormindo tranquila no colo da minha amiga. Mas eu vi minha filha trocando de cor ficando roxa esverdeada. E ela se foi aos meus olhos e eu não pude fazer nada. Ela teve parada respiratória devido ao problema. No dia 9 de maio, domingo dia das mães, eu perdi minha filha tão esperada".

O mundo da jovem mãe desabou novamente e Mari só não caiu de vez porque iniciou uma busca deseperadora por engravidar de novo. Período de choro, tristeza, mas seis meses após a ida de Jullya, veio uma nova gravidez, a Ana Julia que hoje tem 6 anos. Mas o casamento não suportou os alto e baixos. Como o ex-marido se recusava a sair da casa, Mari e Ana Julia foram morar numa Kitinet. "Passamos muitas dificuldades, me individei e a depressão veio com tudo, chorava de manhã, de tarde e de noite. Não comia, não bebia, a única coisa que eu queria era me matar".

"Planejei me enforcar em uma época que todos estavam se matando. Eu perdi 8 quilos, parecia doente, chorava muito no emprego, não via solução em nada. Me mudei para outra casa onde tinha mais conforto. Mas ainda assim estava sofrendo, cheguei a pendurar um lençol no pé de caju bem alto e quando eu estava para finalizar, chegou uma outra pessoa que viu aquilo e se assombrou. Me indicou ajuda e eu fui atrás", contou.

Mari estava depressiva em estado avançado e a psicóloga chegou a conclusão que ela acumulou muitas coisas, segurou muita barra e quando precisou ser forte, não tinha mais forças. E foi na terapia que Mari descobriu que amava maquiagem. "Na verdade eu sempre gostei, mas não tinha estímulo. Aí minha psicóloga disse que eu precisava ocupar minha cabeça com algo que eu gostasse muito mas eu nao sabia com o que, ela me vendo sempre maquiada, me incentivou a maquiar minhas amigas também".

As cores da maquiagem começaram a colorir a vida de Mari

O incentivo das amigas foi um "start" para Marienni se tornar a profissional que é hoje. "Elas me chamavam para maquia-las, ficavam horríveis as makes, porque eu não tinha nada para começar, nada! Comecei na  cozinha com uma cadeira branca encostada na mesa e um travesseiro pra apoiarem a cabeça. Cobrava R$ 20 reais e usava em todo mundo somente uma base que era da minha cor. Umas saiam brancas, outras vermelhas outras escuras, sem cílios, sem nada de experiência. Mas aí aprimorei e comecei a tomar gosto pela maquiagem profissional e claro que foi aí que percebi que tinha amigas", disse aos risos.

Mari disse que a melhora veio com o gosto pela maquiagem. "Ocupei minha cabeça, estudei, vi muitos vídeos, lives de maquiadores ensinando, comprei uma cadeira profissional usada, mas que dava pra atender, montei minha sala pra atender. Hoje tenho meu espaço, com produtos de muita qualidade, iluminação e ar condicionado e muitas clientes, porque aprimorei muito. Hoje a depressão não tem espaço para entrar na minha vida".

Marienni se casou novamente, está grávida de gêmeos e além da maquiagem, trabalha em uma concessionária de carros em Anastácio. "Atendo nos intervalos de almoço, às vezes de madrugada, antes de sair para o trabalho, atendo após meu expediente e aos finais de semanas e feriados. Jornada dupla, cuido do marido, da casa, não dá tempo de entristecer mais. A maquiagem me salvou, isso posso dizer com todas as letras, meu dom me salvou da morte", relatou.

Que dó de quem acha que maquiagem uma coisa fútil. Sabe de nada, inocente. Ela pode ser transformadora na vida das pessoas, igual foi na vida da Mari e pode ser na vida de muitas mulheres! Seja maquiando, seja sendo maquiada.


 

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