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Jornalistar

por Liziane Berrocal

Feminismo sim: porque cantada agressiva é nojento e quem decide o limite somos nós

Neste mês faz 12 anos que sofri violência sexual, nunca esqueci, então quem é alguém para julgar a dor de uma mulher?

11 JAN 2018
15h01min

Vamos falar de estupro, crimes sexuais, assédio e galanteio?
Sim, mulheres sabem diferenciar uma coisa da outra. E não, nem você que é mulher tem sequer o mínimo direito de interferir na liberdade que uma mulher tem de se sentir importunada. Se a mulher lá, a francesa, a Catherine Deneuve, acha Ok ser assediada, passarem a mão nela, chamarem de gostosa e dizer que 'vai pegar ela de quatro', beleza. 
Mas tirar o direito de uma mulher reclamar do machismo? De uma cantada grosseira? De um assédio agressivo? Ou de denunciar ou desabafar uma agressão sexual sofrida, mesmo que há anos atrás?
Eu como sempre vou falar por mim. Sofri violência sexual há doze anos, aliás, faz doze anos exatos neste mês.  Lembro até hoje o nojo e o ódio daquele dia. E lembro até hoje o alívio que senti quando meu agressor morreu. 

Então, não imponha a uma mulher calar-se para que os machistas possam ter a liberdade de importuná-las. 

O machismo, ele existe sim, aceitem ou não, e ele mata, mata todos os dias. Quando não mata fisicamente, o faz profissionalmente ou emocionalmente. 

Nesta semana mesmo, tinha uma reunião importante com homens importantes. Ia colocar um vestido e mudei de ideia. Quando a Viviane, moça que me auxilia em casa me perguntou sobre o motivo de mudar a escolha da roupa respondi de pronto: 

- Eles nos respeitam mais quando chegamos vestidas de terninho ou de calça. 

E não, não é mentira. É cultural, é patriarcado na veia. É vivência e isso precisa sim ser debatido. Isso precisa ser exposto e ser discutido até o momento em que as diferenças entre homens e mulheres fiquem apenas em ter um pinto ou uma pepeka. E não quem ganha mais ou pode transar no primeiro encontro. 

E aposto, que vai  ter gente criticando inclusive meu linguajar, afinal isso não é coisa de mulher. Mas sim, é assim que podemos falar se quisermos. E confesso que eu gosto muito de receber elogios, de ser galanteada, de ter um homem abrindo a porta do carro para mim bem como me levando para tomar um café. 

Mas também acho muito justo que esses mesmos homens debatam comigo em tom de igualdade, sem subestimar minha inteligência, sem olhar apenas um par de seios ou uma possível transa. Bem como acho mais justo ainda que respeitem o direito de cada mulher em dizer não. 

Porque não, não é nada legal ser vista como um pedaço de carne em exposição. Nem estar na balada e um cara puxar o cabelo, muito menos sentir pavor de estar andando sozinha em uma rua, mesmo de dia e ser alvo desse tipo de “comportamento”. 

Também não é legal ninguém falar coisas íntimas em seu ouvido, a não ser que você queira. Nem um homem tocar o seu corpo sem o seu consentimento, quiçá enviar mensagens de conotação sexual sem reciprocidade. Pelo amor de Deus, quem acha isso normal?

Então, se a Catherine Deneuve acha lindo que os homens que paqueram de forma insistente não é um delito, que ruim para ela, que acha normal ser um mero objeto sexual, mesmo aos 74 anos. Direito dela, mas ela que não venha tirar os nossos direitos conquistados com tantas mulheres diariamente mortas e violentadas por gente que tem esse mesmo pensamento. 

E se você homem, acha tudo isso normal, eu sugiro um exercício: e se fosse um homem fazendo isso com a sua mulher? Ou sua filha? Seria um comportamento normal? Se você sentir um pontinho de ódio ou rechaçar esse pensamento, acredite, você concorda com esse artigo. 

E quem escolhe o limite é a mulher. E fim de papo! 

 

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