(67) 99826-0686
AGEREG TARIFA MÍNIMA

De perseguição política a revólver na mesa, diretor de escola resgata histórias de anos de profissão

Valson já andou sob escolta policial após ser ameaçado por alunos, mas no final, conquistou o respeito da garotada

8 JAN 2018
Dany Nascimento
10h16min
Foto: Dany Nascimento

Ele nasceu em Aquidauana, mas foi em Campo Grande que fez história e ajudou a reconstruir um ambiente de harmonia entre os estudantes da escola Professora Ada Teixeira dos Santos Pereira, no bairro Campo Belo. Após ganhar a oportunidade de ministrar aulas no local, Valson Campos dos Anjos, 49 anos, passou em um concurso público e assumiu a diretoria da escola.

Ao perceber que os alunos não tinham muito interesse pelo ambiente escolar, que também não tinha a participação dos pais, Valson convocou a população para um mutirão e, com a ajuda dos pais, reformou o local. “Nós conseguimos colocar piso porque antes era no contrapiso as salsas, conseguimos construir uma sala que seria prestado serviço de odontologia, mas não conseguimos a ajuda do poder público. Mas tudo mudou, começamos a deixar os alunos elaborarem as regras da escola, destacávamos o que eles achavam que não era certo”.

Porém, a luta de Valson foi intensa para ganhar o respeito dos alunos, já que o diretor passou a ser ameaçado de morte ao tentar defender o ambiente escolar e passou a andar com escola policial. “Uma vez um menino deu um tiro durante uma festa que estávamos realizando com crianças, eu fiquei muito nervoso, peguei o microfone e falei que tinha tantas pessoas ali e ninguém enfrentava aquele moleque. Ele passou a me perseguir, eu andava sob escolta, mas um dia fugi da escolta e fui até a casa dele”.

Confira a entrevista completa:

TopMídiaNews: Como começou sua carreira no ambiente escolar?

Valson Campos: Aos 17 eu comecei como convocado, terminei magistério e fiz o concurso e passei. Foi em Pitaputanga, lá era indicação e o prefeito me indicou para ser diretor de escola Antônio Santos Ribeiro. Eu não tinha nenhuma experiência, era um ambiente muito bom. Em 1992, teve eleições e, por perseguição política, me transferiram para uma aldeia e pedi exoneração. Pedi exoneração do cargo, deixei tudo para trás e resolvi mudar para Campo Grande.

TopMídiaNews: Como foram os primeiros dias na Capital?

Valson Campos: Cheguei em Campo Grande para morar com meu irmão no bairro Campo Belo. Meu irmão tinha uma amiga que era funcionária da limpeza de uma escola no bairro. Ela era muito religiosa, fazia parte da comunidade do Campo Belo, era uma liderança e me levou até a Alcir, que era diretora da escola Ada Teixeira dos Santos Pereira em 1993. A Alcir falou que não tinha mais vaga, que tinha processo de seleção para se inscrever e eu não tinha feito. Eu pedi que ela me levasse para falar com a chefe, falei 'faça isso por mim, eu preciso trabalhar, estou aqui por perseguição política'. Ela me levou no núcleo educacional, falei com professora Lindinalva, contei que fui perseguido, que precisava de oportunidade, mesmo que eu não tinha feito inscrição. Olhei nos olhos dela e pedi, ela mandou abrir uma sala e me deu oportunidade.

TopMídiaNews: Quais foram os primeiros trabalhos realizados na escola Ada Teixeira?

Valson Campos: Eu tinha 23 anos, assumi uma turma de 1° ano, eu não tinha habilidade. Eu pensava que não sabia cantar, sei que com criança tem que ter trabalho diferenciado, o lúdico, procurei de novo ela. Pedi que ela deixasse eu assumir pelo menos o 4º ano. Aí ela me deu a oportunidade. A coisa mais impressionante, quando eu pedi essa vaga, eu falei 'professora, nessa oportunidade eu serei o novo diretor quando você não quiser mais'. Ela riu e falou que tinha concurso, que não era assim, não tinha previsão de concurso. Três meses depois abriu concurso e eu passei entre os dez primeiros colocados. Nessa transição, a diretora saiu, entrou outra e ficou seis meses, adoeceu e pediu para sair também. Quando ela saiu, a Lindinalva falou que a vaga teria que ser oferecida para mim. E assim se profetizou.

TopMídiaNews: Como foram os primeiros dias como diretor?

Valson Campos: Foi muito difícil, as reuniões eram com 40 pais, aquela coisa sem graça, a escola tinha 900 alunos. Senti vontade de fazer algo diferenciado, chamei a comunidade, todos muito tímidos, pedi a construção de uma escola diferente, era uma escola que só saía nas páginas policiais, era a mais violenta da Capital, daí propus um mutirão, a escola não tinha piso, era contrapiso, muro caiu na época. Propus um mutirão, eu estava ciente que seria muito difícil trazer a comunidade para esse mutirão, eles eram muito carentes. Eles gostaram tanto de mim, consegui 12 pessoas e começamos.

Trocamos mais de 600 metros de piso, construímos uma biblioteca, construímos gabinete odontológico, que era para funcionar, secretário na época esteve lá, prometeu que ia funcionar, mas não cumpriu. A comunidade dava moeda para ajudar, a sala virou multimeios, uma sala de recursos. A biblioteca funcionou até 2014. O mais interessante foi que, quando a comunidade percebeu para que eu estava ali, até então eu brigava muito com alunos, a escola tinha fluxo grande, tinha briga, eu fazia festa para arrecadar dinheiro para ajudar na evolução. Fizemos isso, convoquei pais depois da inauguração, eu me realizei profissionalmente naquele ano. Eu subi em uma mesa para ver toda comunidade. Mas até chegar nesse ponto, fui ameaçado por aluno.

TopMídiaNews: Como era lidar com aqueles que invadiam a escola para praticar vandalismo?

Valson Campos: As pessoas entravam na escola como se não tivesse dono. Eles passavam para quadra. Um dia fui na quadra, peguei a bola e falei vocês esquecem que agora tem um diretor aqui. Vieram para cima de mim, colocaram dedo na minha cara, teve um que era o chefe, falou 'deixa esse babaca aí, vamos derrubar essa escola depois'. Fui atrás, falei 'derruba agora'. Afrontei eles e conquistei o respeito deles. Eles voltaram depois, viram que eu estava cuidando da escola.

Os pais não participavam antes, não tinha nada, eu tentei buscar ajuda da segurança pública para pedir apoio para a coisa funcionar. Tivemos trajetória até 2005 naquela violência. Maloqueiro que atirava dentro da escola, sofríamos muito com isso.

Um dia fui ameaçado, sujeito entrou, atirou na festa onde crianças brincavam. Eu peguei o microfone e falei um monte de homem aqui e ninguém tem coragem de enfrentar um moleque desse. Ele começou me perseguir, me mandava recado, e eu andei de escolta.

Um dia fugi da escolta e fui na casa dele, a mãe dele era minha amiga. Mas ele era meio revoltado, cheguei lá, a mãe dele ficou nervosa. Eu perguntei para ela, falou que ele ficou nervoso porque me ouviu falando. Ela pegou neném dele no colo, falou que ele ia tirar isso da cabeça, falei que eu ia tirar da cabeça dele isso. Queria ele na escola para estudar, não queremos baderna, violência.

TopMídiaNews: Como se sentiu quando um aluno entrou e colocou um revólver na sua mesa?

Valson Campos: Eu dei uma estremecida. Ele tinha atirado no portão, eu peguei carro e fui atrás. Ele entrou no mato, mandei ele sair do mato, eu era tão apaixonado, acreditava tanto que a educação ia mudar. Passou dois dias, ele entrou na minha sala, colocou o revólver em cima da mesa, essa cena me marcou muito. Ele falou diretor, eu vim aqui dizer que não sou 'cagão', mas o senhor ganhou meu respeito. Falou aqui 'o senhor não vai me ver mais, só se for para estudar'. Estremeci, mas era isso.

TopMídiaNews: Após o assassinato de um aluno na porta de escola, como se sentia?

Valson Campos: Em 2005, assassinaram o aluno por engano na porta da escola. Parei a escola, procurei secretaria de educação, o secretário da época não me atendeu e convoquei imprensa. Falei que só abriria a escola quando tivesse garantia de policiamento. Eu fui no comando da polícia, era o coronel Ivan, falei que mataram um aluno. Ele falou 'aluga uma casa que vou colocar policiamento'. Paguei 1 ano e 8 meses de aluguel, ele colocou policiais ali nesse tempo. As pessoas do bairro depois assumiram o aluguel.

O pai tinha boletim de participação, tinha o projeto disciplina premiada onde o aluno construía as regras de comportamento dentro da escola, eles avaliavam o que era certo e o que era errado. Quando eu vi, eles começaram a ter orgulho da escola, tinham orgulho porque eu consegui tirar das páginas policiais, como posto, zerou isso. Virou escola conhecida nacionalmente, ganhamos prêmio de gestão, fui para os Estados Unidos, virou uma escola referência com 1.300 alunos.

TopMídiaNews: Como foi deixar a escola depois de 24 anos?

Valson Campos: Eu perdi minha mãe, depois o pai, adoeci, entrei em depressão e teve uma prova. Não consegui alcançar a média, mas não me importei, eu estava sem rumo. A inspiração era minha mãe, eu acredito na família. O filho que fala 'eu sou um bom funcionário', mas não é um bom filho, eu não acredito. Como vou distratar um aluno, sendo que sou filho. Essa foi uma luta constante e conseguimos deixar a escola em um patamar alto. Visito a escola às vezes. Eu não quis intervir na nova gestão, fizeram abaixo-assinado, mas falei que não passei na prova, tinha que deixar para que o diretor veio. Hoje a escola está lá funcionando.

TopMídiaNews: Hoje, qual trabalho realiza através da Sejusp?

Valson Campos: Cheguei aqui na Sejusp em outubro de 2016, falei para o secretário que estava com pai muito doente, em um total de dez filhos, eu fiquei com meu pai. Sempre falei tanto de família, preguei esse amor pela família, levei meu pai para ficar comigo. Deus não deixa um filho padecer, dois anos ele ficou comigo e veio falecer em novembro de 2016. Falei que queria voltar em fevereiro as atividades, cheguei sem estímulo, pensava na escola, lembrava do papai, da mamãe. A chefe de gabinete falou que tinha um desafio que eu ia gostar, aí falou do projeto de segurança para as escolas. Fiquei empolgado por lidar com escola, com segurança nas escolas, que é o pior sofrimento do diretor.  É uma impotência grande, nos sentimos abandonados. Vivenciei isso por décadas, escrevi o projeto, que hoje atua com seis viaturas MOB, distribuídas em cinco batalhões através do trabalho de 20 policiais. Foi uma história de vida, de trabalho, de superação e de sucesso para a comunidade.

Veja também