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Após ver a morte de perto, Bruna deu a volta por cima e hoje se ama mais

Ela ficou refém do relacionamento abusivo por sete anos e tomou coragem para recomeçar a vida

9 ABR 2018
Dany Nascimento
15h38min
Foto: André de Abreu

A esperança de viver dias melhores ao lado do marido, submeteu Bruna Oliveira dos Santos, 28 anos, a viver por sete anos um relacionamento abusivo. A jovem relembra que foi vítima de violência física e principalmente, violência psicológica, já que era diminuída diariamente pelo ex-marido.

Após colocar um fim no relacionamento que gerava sofrimentos, Bruna viu a morte de perto, após ser espancada com um pé de cabra por Gustavo Portilho Soares. “Ele me batia, ele me diminuía, ele fazia eu criar dependência emocional muito grande dele, é como se eu dependesse dele para tudo, para viver, para comer, mas eu sempre trabalhei direito, ele que tinha falhas de trabalho. Ele tinha problemas de agressividade desde antes, ele tinha problema de relacionamento, era agressivo na vida. Ele era agressivo família, trabalho, comigo. Quem convive muito como nós convivíamos, eu era a maior vítima dele”.

Após sofrer diversas fraturas e passar quatro dias internada após as agressões, Bruna resolveu dar a volta por cima e buscou ajuda de profissionais. “Minha vida deu um 360, muitas coisas boas aconteceram, quando eu comecei a fazer terapia eu estava bem resistente, parecia que eu não entendia o que estava acontecendo. Hoje, depois de várias sessões, minha mente deu um reset”.

Gustavo foi preso e hoje, a vítima acompanha diariamente o andamento do processo do agressor.

Confira a entrevista completa:

TopMídiaNews: durante o casamento, de que forma você era coagida?

Bruna Oliveira: foram sete anos de relacionamento abusivo, não foi só violência física que eu sofri, sofria principalmente violência psicológica, eu era refém desse relacionamento. Eu vivia em função dele e esqueci de mim. Eu vivia para isso. Ele me batia, ele me diminuía, ele fazia eu criar dependência emocional muito grande dele, é como se eu dependesse dele para tudo, para viver, para comer, mas eu sempre trabalhei direito, ele que tinha falhas de trabalho. Ele tinha problemas de agressividade desde antes, ele tinha problema de relacionamento, era agressivo na vida. Ele era agressivo família, trabalho, comigo. Quem convive muito como nós convivíamos, eu era a maior vítima dele.

TopMídiaNews: sua família tinha conhecimento do que você passava?

Bruna Oliveira: minha família não sabia desse comportamento dele, eu sempre escondi isso deles, mas não só escondia, eu mentia para a minha família, falava que ele era pessoa boa, que me apoiava, que estávamos construindo nossa vida, mas na verdade ele estava me destruindo. Eu podia até estar bem, mas nunca podia estar melhor que ele.

TopMídiaNews: quando resolveu contar para os familiares?

Bruna Oliveira: em fevereiro de 2017, foi primeira vez que separei dele, porque tinha agressividade recorrente. Discutimos na nossa casa antiga, eu tinha separado dele. Fui até a casa, ele me agrediu na frente da namorada nova dele, eu tentei me divorciar. Ele voltou a me procurar e eu voltei para a casa. Foi junho, julho. Nesse meio tempo, eu contei para a minha família, eu não contei tudo, eu resumi. Então minha família ficou contra ele, eles me apoiavam para sair, quando eu falei que ia voltar, todo mundo ficou muito preocupado, mas mesmo assim eu voltei. Foram meses maravilhosos, de lua de mel, era tudo diferente e ele me levava a acreditar que seria diferente. Em agosto, ele mudou novamente, agressividade voltou, ciúmes muito além do que já era, ofensas voltaram maiores e ele me agrediu de novo em setembro, tentou me enforcar. Daí falei que não dava mais.

TopMídiaNews: na separação definitiva, você ainda mantinha contato com ele?

Bruna Oliveira: ele ia em casa de madrugada, de manhã, só ia embora quando eu estava próximo de sair do trabalho, que eu trabalhava a tarde. Eu não dormia, ele me importunava e mesmo assim eu não encerrava essa situação. Ele sempre estava no controle, mesmo eu não querendo. Ele tinha outro relacionamento já, mas mesmo assim ele continuava forçando a situação.

TopMídiaNews: quando aconteceu e agressão com pé de cabra?

Bruna Oliveira: no dia 4 de novembro, eu trabalhei normalmente, saio tarde do trabalho, chegava tarde. Cheguei nesse dia, dormi. Quando era entre 3 e 4 horas, ele invadiu a minha casa. Ele entrou na minha casa e começou a me agredir enquanto eu estava dormindo. Me atropelou, me perseguiu. Pegou um pé de cabra e me agrediu muito. No mesmo dia, a delegada foi no hospital e fui ouvida lá, eu estava com dois braços imobilizados, cabeça enfaixada, olho enfaixado. Minha mãe que assinou documentos e boletim de ocorrência, fui ouvida no hospital e veio a medida provisória.  Sai do hospital, fiz a perícia no IML, depois que fiquei um pouco melhor, tirei a tala depois de 20 dias, tirei a tala do braço esquerdo que foi contusão.

TopMídiaNews: quando começou a fazer tratamento no Ceam (Centro Especializado em Atendimento à Mulher)?

Bruna Oliveira: eu fui na Deam, eles me falaram do Ceam, que tinha acompanhamento psicológico. Na época eu tinha impressão que estava bem, eu minimizava o que tinha acontecido, mas ele realmente tentou me matar. Depois que eu optei por procurar ajuda, eu fui muito bem acolhida aqui no Ceam, eu tive a base para recomeçar. Parece que eu comecei a viver de novo. No início eu não acreditava muito, sempre tive muito receio das terapias, mas desde o início, desde que eu tomei a decisão de procurar a Casa da Mulher, a Deam. No dia que cheguei, passei pela assistente social, me abri. Nas primeiras sessões eu não tinha noção. Hoje eu vejo tudo diferente, depois das sessões eu tive mais vontade de lutar, de ir atrás, de buscar o processo, de saber melhor sobre isso. Sobre o potencial que eu posso ter. Eu fui descobrindo isso depois da terapia, isso me dá forças para ajudar outras pessoas também.

TopMídiaNews: o que aconteceu com o agressor?

Bruna Oliveira: ele foi preso no mesmo dia, praticamente em flagrante, questão de horas depois. Ele continua preso, eu acompanho o processo de perto, sempre vou na defensoria da mulher, é um apoio enorme.

TopMídiaNews: você tem medo dele?

Bruna Oliveira: hoje eu escolhi não viver com medo dele porque eu acho que o medo me levou nesse lugar que eu cheguei, dele quase me matar, eu não acreditava que ele pudesse fazer o que fez. Hoje eu escolhi não viver com ele, ele não me atinge mais, não faz parte da minha vida. O que importa hoje é a justiça, quero que seja feita, que ele pague pelo crime que cometeu. O que ele pode fazer, eu procuro abstrair.


TopMídiaNews: como você define a Bruna de hoje?

Bruna Oliveira: eu renasci, tenho mais ânimo para fazer as coisas, consigo refletir muito sobre tudo. Somos capazes sempre, devo muito isso as sessões de terapia porque eu aprendi a ver o mundo de uma forma diferente. Eu achava que estava normal, mas depois comecei a entender. Você achar que aquilo é normal, a situação do relacionamento abusivo não é normal, isso entrou na minha cabeça.

TopMídiaNews: que recado você daria para quem passa pelo mesmo problema que você, mas tem medo de denunciar?

Bruna Oliveira: eu entendo o medo, mas é uma decisão que precisamos tomar por nós mesmo, temos que pensar, dar um passo para trás e observar, será que não posso ter vida diferente, será que essa situação é correta. Você precisa olhar e pensar se merece isso, eu acho que nem a pessoa boa, nem a pessoa ruim merece passar por isso. Tem que tomar coragem, procurar saber, se está com medo, pensa e procura ajuda para saber o que pode fazer. Eu acho que o problema maior é quando não tem apoio

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