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Aos 80 anos, Delinha continua a fazer shows e leva rotina tranquila na casa onde cresceu

A dama do rasqueado, que fez história sozinha e ao lado de Délio, conta como passa seus dias em Campo Grande e relembra histórias

28 NOV 2016
Amanda Amaral
16h32min
Foto: André de Abreu

Em dia quente de novembro, Delinha nos recebe com um largo sorriso, vestida como tem costume, colorida com a saia de dançar um bom rasqueado. Com 80 anos, demonstra a receptividade e disposição de sempre, oferece água, torta e guaraná. A cantora começou no coral da igreja e, com o tempo, incentivada pelos pais, fazia pequenas apresentações com o então noivo Délio e, depois de se casar, começou a formar carreira junto a ele. Hoje, Délio - falecido em 2010 - e Delinha são parte consolidada na história da música sertaneja.

Conversamos na sombra da varanda para pegar o vento frescona casinha de madeira que vive desde criança no bairro Amambaí. Há sete décadas, aquele lugar é parte da história da cantora, considerada patrimônio vivo de Mato Grosso do Sul. Com o único filho, João Paulo, que lhe deu um neto de quase sete anos, Delinha vive tranquila entre os shows que realiza, principalmente no interior do Estado. Confira a entrevista concedida ao TopMídiaNews, abaixo:  

Como tem sido sua rotina em Campo Grande?

Sempre aqui, só que eu moro nessa velha casinha tem 71 anos. Vim pra cá com oito, a minha rotina é essa que você está vendo, quando eu não tenho show eu estou aqui trabalhando, levantando de madrugada. Só eu e ele (João Paulo), Deus, o cachorro e gato. Difícil eu sair de casa, só saio quando tem show, vou vivendo.

Eu acordo muito cedo, toda vida levantei de madrugada. Sou única filha, papai me chamava às quatro horas pra tomar mate, tudo escuro ainda. Eu sofria bronquite e ele me fazia comer chá de gengibre com farinha de milho, não sarou nada até hoje! Deito oito horas, oito e meia, leio muito antes. Gosto muito.

Qual a história dessa casa?

Era de papai, ele e meu padrinho fizeram, as tábuas tão do mesmo jeito. Sou de Vista Alegre, vim de lá com quatro anos, papai fez essa casa lá no entroncamento do Imbirussu, um bolicho com um areião de meu Deus. Depois, papai comprou e fez um barracão aqui, com a mesma madeira, a pobreza era muita e não dava pra comprar mais. Aqui fiz oito anos.

Adoro Campo Grande, mas Maracaju, Vista Alegre, não fui criada lá. Gente muito boa, muitos parentes, mas eu gosto mais daqui.

E o que mudou de lá pra cá por aqui?

Menina, o calor! Tinha uma época que você não sentia do jeito que é agora. Acho que mudou o clima demais da conta, mudou o mundo. Aqui não tinha luz elétrica, ventilador, água gelada. Bebia água do poço e tá muito bom! Eu fico só aqui, não saio quase nada. Quando vou viajar, uma pessoa fica cuidando.

Com que frequência você se apresenta hoje?

Aparecendo, tem que fazer né. Topo todo convite de show, mas não mais de moagem, essas coisas, já fiz muito, chega (risos). Sou mais caseira, calma. Bebo só quando tem show, mas as vezes tem show toda a semana (risos)! Tenho preguiça de sair, passear. Tenho 80 anos, fiz no dia sete de setembro, dia da independência, claro!

E você mantém a mesma empolgação, alegria de estar no palco?

Você cantar sem vontade, sem emoção no que você tá cantando, não fica bom, tem que fazer sentindo aquela música. As vezes não começo animada, mas depois de um golinho, a coisa vai embora!

Mas a sua carreira anda movimentada nos últimos anos, a gravação do DVD e o documentário sobre a sua vida, ‘A Dama do Rasqueado’. Como tem sido?

O documentário foi um sufoco, a Marinete (Pinheiro, diretora do documentário) atrás de mim com aquele negócio filmando (risos). Ficou bom, ela é um amor de gente. O DVD já faz mais tempo, vamos indo, seja como Deus quiser. E menina, já tem 19 LPs, dois compactos, 14 de outra rotação, depois mais coisas, no total mais de trinta lançamentos. É uma carreira cheia, mesmo.

Você tem hábito de ficar lembrando? Tem muitos registros, fotos?

Muita coisa ce vai perdendo, guarda mas depois não sabe mais onde. Eu mesma já não tenho mais essa vontade de ficar vendo, já passou, né? A lembrança fica na cabeça. Gosto de guardar pra mostrar pro meu neto como era, que a avó dele foi jovem, bonita. Tenho uma história muito bonita, mesmo. Meu filho que sempre coloca as coisas no computador.

Às vezes fico muito sozinha, lembrando do tempo que eu era menina. Sempre falo que a saudade é uma palavra tão bonita, só dá pra ter das coisas boas. Gosto muito dessa palavra, sempre escrevo ela. Mas evito ver fotos, não fico deprimida. Ao invés disso leio muito romances, mas não meloso, um conto, uma família. Nunca gostei dessa coisa melosa.

Apesar disso, você sempre cantou histórias ‘derramadas’ de amor, né?

Ah, aí tem que ser meloso mesmo, sertanejo se não for assim não presta (risos)! O universitário mesmo não tem aquele ‘tchan’, tem que ser apaixonado. Tem algumas coisas que gosto, como Luan Santana, tenho muitos colegas dessa nova geração, mas é diferente. Tenho saudades de ouvir essas músicas mais antigas, mas não ouço as minhas próprias. Gosto de ver alguém tocar, mas eu sozinha, to fora!

O que mais de orgulha na sua trajetória?

Muita coisa na minha carreira com o Délio. Viemos lá de baixo, sem dinheiro, sem nada, conseguimos ter um nome. Toda vida lutando. Era só quase o Délio que escrevia, eu ajudava, dava palpites. Aí separamos e eu fiz ‘O Sol e a Lua’, ‘Por Onde Andei’, uma porção de músicas, que não podem faltar nos shows e são só minhas.

Não gosto muito de cantar sozinha, uma segunda voz me deixa mais à vontade. Acho bom que ainda me apresente, temos três shows marcados pra frente. É puxado viajar, a saúde não é a mesma, mas gosto.

Você aparenta bastante saúde, tem que ter cuidados especiais pra aguentar esses dias mais puxados?

Eu estou bem. Bebo quando vou cantar, esses tempos fui cantar pros médicos que me atenderam, me deram um conhaque de presente (risos)! Mas é raro, fica tudo guardado. Não me incomoda que pensem que eu beba, nada do que o povo fala me incomoda. Eu vivo bem, não tenho inimigos, brigas.

Por ter vivido tantos anos em um universo, predominantemente masculino, você se considera uma ‘desbravadora’?

Eu não sei se naquela época eu percebia. Tinha preconceito demais da conta, mas eu estava casada, acompanhada do meu marido. As Irmãs Galvão começaram também na época, eram acompanhadas com os pais. Naquele tempo, mulher grávida não podia entrar no palco, era feio, tudo era feio. No frio, era feio entrar de casaco. Eu não discutia muito, fui criada assim, o marido mandando.

Te incomodava?

Muito, mas naquela época não podia falar nada, eu obedecia o marido, pai, mãe. Eu sentia aquilo, mas não adianta. Hoje tem muita diferença, às vezes penso que tá errado o de agora, mas eu sou uma burra, não adianta eu achar que está errado.

Como quer ser lembrada, para as gerações que não conheceram a época do sertanejo de raiz?

Espero, primeiro, que lembrem de mim com carinho. Que ouçam, valorizem o que tem em Mato Grosso do Sul. Que minha família goste de saber o que fiz. Só isso, pra mim, está bom.

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