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Alberto perdeu a visão na adolescência e hoje é exemplo de superação de obstáculos

Ao lado do Terry, o cão-guia, o vice-presidente da Organização Nacional dos Cegos viaja realizando palestras em todo o Brasil

19 DEZ 2016
Kerolyn Araújo
08h09min
Foto: André de Abreu

Vice-presidente da Organização Nacional dos Cegos do Brasil e representante do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Conade), Alberto Pereira esteve em Campo Grande na semana passada para participar como palestrante do 1º Fórum das Pessoas com Deficiência Visual de Mato Grosso do Sul.

Alberto é deficiente visual e, há 10 anos, é guiado por um cão-guia. Ao TopMídiaNews, Alberto contou sobre a fase de adaptação após perder a visão e como é conviver com a deficiência. Confira: 

TopMídiaNews: Você já nasceu sem a visão ou perdeu com o tempo?

Alberto Pereira: Nasci com baixíssima visão, mas por volta dos 12 anos eu tive a perda completa.

TopMídiaNews:  Como foi essa fase de mudança?

Toda a fase da adolescência é complexa. A adolescência tem por si só, geralmente, uma complexidade. Quando você junta essa complexidade com uma perda visual, de início há um espanto, que no meu caso foi rapidamente superado. Foram poucos meses e tive muito apoio da minha família, dos meus professores e de pessoas que estavam próximas e me deram o apoio psicológico, o carinho e acolhimento que a gente necessita em todas as situações, sobretudo em uma situação como essa.

(Terry está com Alberto há dois anos. Foto: André de Abreu)

TopMídiaNews:  Como é conviver com a cegueira?

Alberto Pereira: Quando me fazem essa pergunta, o que eu respondo sempre é que eu só me lembro que sou cego quando a sociedade me faz lembrar. Eu não acordo lembrando que eu sou cego e nem vou dormir pensando nisso. Então, quando alguém age com preconceito, aí eu vou lembrar que sou uma pessoa com deficiência. Quando uma calçada está com muitos obstáculos e não permite minha autonomia e acessibilidade, mesmo estando com meu cão-guia, aí vou me lembrar que sou cego. Quando eu quero ter direito a comprar ou ler um livro em formato acessível e esse livro não está disponível, aí eu me lembro que sou cego. A questão não é conviver com a cegueira, mas sim o que a sociedade faz para tornar as coisas, a cidade, transporte, educação, a cultura acessível.

TopMídiaNews:  Você é um dos poucos que usa o cão-guia. Por que você acha que poucas pessoas ainda utilizam desse meio?

Alberto Pereira: O cão-guia é uma alternativa ao uso da bengala, não é melhor e nem pior. Pra mim, o cão-guia traz maior autonomia, maior velocidade e independência ao caminhar. É algo que hoje é indispensável na minha vida. No Brasil existem aproximadamente 100 cães-guias em trabalho. Formar um cão-guia não é uma coisa simples, é algo muito complexo, leva um ano e meio e um investimento de cerca de 10 a 15 mil dólares. A maioria dos cães-guias vem dos Estados Unidos, então existem essas questões que acabam sendo barreiras. Por isso é tão baixo o número de cães-guias trabalhando no Brasil. O Terry é o meu segundo cão. Por oito anos fui guiado pelo Saymon, que aos 10 anos de idade se aposentou.

TopMídiaNews: Sobre o evento em Campo Grande. Qual a importância?

Alberto Pereira: Esse evento de Campo Grande vem falar sobre o acesso à leitura que a pessoa com deficiência visual requer e tem direito. Sempre existiu a barreira que separa a pessoa que enxerga teve e tem ao livro e a pessoa cega. Nesse evento, viemos celebrar o Tratato de Marrakesh, que é um tratado que amplia o direito à leitura. Ele permite que as entidades autorizadas pelo governo reproduzam livros em formatos acessíveis para a pessoa com deficiência, sem a necessidade do direito autoral. Viemos ao evento celebrar a importância do Tratado, que amplia o acesso à leitura da pessoa com deficiência visual.

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