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Antes asfalto, hoje terra: pavimentação de ruas se desfaz junto com dinheiro público

Moradores do Nova Lima sofrem e questionam: cadê o asfalto que estava aqui?

27 NOV 2016
Thiago de Souza
07h00min
''Cade o asfalto que estava aqui?'', questionam moradores Foto: André de Abreu

''Onde foi parar o asfalto que estava aqui?''. Esse questionamento é feito por diversos moradores da Capital, em especial no Nova Lima. Na Rua Jerônimo de Albuquerque, uma das principais do bairro, o cenário é de muita poeira, já que há dez meses o asfalto foi levado pela chuva e até agora o poder público só deixou ali o descaso e o imposto alto. 

O trecho que está sem pavimento na Jerônimo de Albuquerque é de 80 metros. Parece pouco, mas é o suficiente para causar transtorno e incômodo a muita gente no Bairro. Alcicleia Barbosa, 42, é locatária de um pequeno salão de beleza na avenida e está no bairro há 15 anos. "Faz tempo que eu ouço que vai ter asfalto aqui, mas até agora nada'', relatou. Ela contou ainda que quando havia o asfalto, os carros andavam devagar por conta dos buracos. ''Agora que está patrolado e na terra, eles passam rápido e levantam uma cortina de poeira'', completou a moradora. 

(Onde era asfalto hoje é terra. Moradores da Rua Jerônimo de Albuquerque sofrem com o poeirão e imposto alto)

No meio da rua, há um buraco, que os moradores deram um jeito de cobrir com galhos de árvores e evitar acidentes. Impossível ali, segundo os vizinhos, é vender produtos alimentícios, já que eles falam que ''a poeira come o salgado''.

Grande como os problemas, é o valor do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), da via. Mas pior que isso é ter pagado, além do imposto, o carnê do asfalto que hoje não existe, que custou 24 prestações de R$ 28,00. "Meu IPTU foi para R$ 460,00, por causa do shopping e da rua asfaltada, mas não tem asfalto", reclama Barbosa.

Segundo informado pela Prefeitura, a licitação para a pavimentação da maioria das ruas do bairro foi lançada em março deste ano e, em agosto, a empreiteira Equipe Engenharia venceu o processo. Serão destinados R$ 20.979.261,90 milhões para as obras, que incluem implantação de infraestrutura urbana, manejo de águas pluviais, pavimentação asfáltica, mobilidade e acessibilidade, sinalização viária para a Etapa 'A' do Nova Lima. O montante é dinheiro do PAC II (Programa de Aceleração do Crescimento), disponibilizado pelo Ministério das Cidades, com recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). 

 

(empresa jogou piche por conta própria para amenizar os problemas no Nova Lima)

Não muito distante da 'problemática' Rua Jerônimo de Albuquerque, a Rua Marquês de Herval também revela surpresas desagradáveis ao contribuinte. À espera de pavimentação, uma construtora, que fica na avenida, tapou um trecho esburacado com uma camada grossa de piche para que seu maquinário pudesse passar, mas o resultado foi desastroso. Cerca de 15 metros da rua ficaram com desnível, sem sinalização e mesmo assim com buracos. 

A comerciante Juscilene dos Santos, 30, está há 14 anos no Nova Lima e é vítima da poeira causada pela ausência de pavimentação na rua. ''Vamos esperar o novo prefeito, diz que o dinheiro está liberado'', refletiu. Ela diz não saber mais se acredita ou não na chegada do asfalto, pois tudo fica na base da promessa. Sobre o IPTU, a moradora diz que o marido é que paga, mas ela ouve reclamação de que ''está aumentando cada vez mais''.

Na saída do Nova Lima, na Avenida Cônsul Assaf Trad, quase em frente ao Shopping Bosque dos Ipês, quem passa por ali está habilitado a fazer novamente a pergunta: cadê o asfalto que estava aqui? A via, no sentido shopping-centro, está tomada por buracos, que não são poucos, e pelo desgaste do asfalto, que perdeu há tempos a camada superficial, chegando ao nível da pedra brita. Soma-se a essa triste realidade a presença de erosões próximas à faixa da esquerda e o perigo é iminente, já que um buraco de 1,5 metros está comendo a avenida por baixo. O tráfego no local é intenso e muitos caminhões pesados, que costumam andar em alta velocidade, passam por lá. Cenário propício para uma tragédia. 

(asfalto desgastado e buracos na Cônsul Assaf Trad provocam insegurança a motoristas)

O problema de buracos e asfalto desgastado na Consul Assaf Trad compreende quase toda a extensão da via. Dali em diante, o problema continua, só que agora na Avenida Mascarenhas de Moraes. Os buracos não são tão grandes, mas são muitos e causam trepidação constante nos veículos, causando prejuízo, já que atingem diretamente a suspensão do carro.

O prefeito Alcides Bernal (PP) criticou gestões anteriores pela má qualidade do pavimento implantado na Rua Jerônimo de Albuquerque, e disse que o asfalto ali era 'fino demais'. Ele esteve no bairro para acompanhar o fechamento de uma cratera de cinco metros de comprimento que surgiu na via devido às fortes chuvas na região. Questionado diversas vezes pela imprensa sobre problemas no asfalto da cidade, Bernal chegou a declarar que motoristas deveriam usar as aulas de direção defensiva para se safar dos buracos das ruas.

O MPE (Ministério Público Estadual), por meio da 29ª Promotoria de Justiça, acolheu as reclamações da população sobre o péssimo estado de conservação do asfalto e, em junho deste ano, chegou a determinar que a Prefeitura de Campo Grande entregasse ao órgão, fotos e vídeos das ações de conservação e manutenção das vias, bem como as licitações, contratos, ordens de pagamentos e planilhas de execuções dos trabalhos.   

(terra e buracos cobrem pavimentação, e sensação é que não há asfalto na Rua Voluntários da Pátria) 

O descaso da prefeitura é democrático e não escolhe região. Da parte Norte até a Sul, na Vila Nhá-Nhá, um buraco fundo em uma rua asfaltada espera há um mês para ser tapado. Os moradores da Rua Aquário tiveram que colocar pedaços de madeira, como se fosse uma cruz, para que veículos e pedestres não caiam ali. Aproveitaram o alto índice de acidentes no cruzamento com a Rua Antônio Bitencourt Filho e pintaram, por mãos próprias, o sinal de ''Pare'' na via.

O asfalto também está se desfazendo na Rua Voluntários da Pátria, altura do número 120. Três buracos médios estão crescendo e, se nada for feito, vão se juntar e formar uma cratera única, não dando mais condições dos motoristas de desviarem e caírem no buraco. A água da chuva fica empoçada e solta lama na via, que fica escorregadia e pode dificultar a frenagem dos veículos.

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