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Força de vontade: surdez não limitou o sonho de Márcia de ser técnica em enfermagem

Durante dois anos e seis meses de curso, aluna precisou trocar de intérprete sete vezes, mas nem isso fez com que ela desistisse do curso

8 OUT 2018
Kerolyn Araújo
10h44min

O que para muitos poderia ser uma barreira insuperável, para Márcia Martinez da Silva, 50 anos, foi apenas mais um obstáculo vencido. Mesmo sem poder ouvir, ela não desistiu do sonho de ser técnica em enfermagem e, no dia 17 de setembro de 2018, se tornou a primeira surda de Mato Grosso do Sul a concluir o curso. 

Antes de fazer o curso, Márcia trabalhava em uma loja, mas não estava contente com a situação que se encontrava. Incentivada pela mãe, ela decidiu fazer o curso de técnico em enfermagem no Senac. No terceiro mês, ela chegou a pensar em desistir por medo do desafio, mas, como sempre, a mãe estava ao lado, sempre dizendo que ela era capaz e que iria conseguir.

A maior dificuldade de Márcia ao longo de um ano e meio de curso foi a comunicação, principalmente por ter trocado de intérprete sete vezes. Algumas não gostavam do curso, outra não gostou de ficar na Santa Casa durante o estágio, e assim seguiu até que o destino cruzou o caminho da estudante com a intérprete Raquel Alencar Dobler, já no último ano do curso.

Para Márcia, apesar da dificuldade por ser surda, os professores e colegas de turma sempre deram apoio e ajudaram em todos os momentos. Para aprender melhor a matéria, ela participava de dinâmicas com a intérprete no período livre. O resultado de toda a dedicação foram sempre excelentes notas e elogios do corpo docente. ''Não foi fácil. Foi bem difícil, tive que aprender a fazer relatórios, mas eu sempre quis ajudar as pessoas. Para trabalhar em hospital você tem que amar muito", explicou.

Segundo Raquel, Márcia é exemplo de força de vontade de superação e, o fato de ser enfermeira por formação, ajudou na caminhada acadêmica da nova amiga. ''Na enfermagem usamos muitos termos técnicos, então tudo tem que ser muito bem explicado e deu certo trabalhar com ela", contou.

Raquel lembra que, quando começou a trabalhar com Márcia, a aluna havia acabado de perder a mãe e estava sendo um período muito difícil. ''Ela fez estágio no mesmo andar onde a mãe dela morreu na Santa Casa. Ela poderia ter desistido naquele momento, mas provou que era realmente aquilo que ela queria. Me sinto muito realizada em ver a evolução dela. Foi algo surpreendente pra mim, para os professores, alunos e a instituição em si. O Senac veio para somar na vida dela e os professores realmente abraçaram a causa, sempre a motivando".

Para Raquel, se todos se esforçassem para aprender a Língua de Sinais Brasileira, tudo seria bem mais fácil. ''A Márcia me traz muito orgulho. É muito satisfatório ver que o surdo é capaz. A única limitação do surdo é a comunicação. Se todo mundo se empenhasse para aprender, iriam ver o quanto o surdo é capaz de fazer as coisas", ressaltou.

Agora com o diploma em mãos, Márcia quer se registrar no Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso do Sul (Coren-MS) e arrumar um emprego. Com sede de aprendizagem, no próximo mês ela inicia o curso de instrumentação cirúrgica, que é a área que pretende atuar.

Questionada sobre como se sente com o diploma em mãos, Márcia diz que está realizada, mas não pretende parar por aqui. ''Quero muito mais do que isso", finalizou.

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