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Na hora da eleição, grupos religiosos se dividem entre indicar candidatos ou ‘liberar’ fieis

Líderes são unânimes sobre formação de consciência política, mas divergem sobre indicar candidatos e fazer campanha nas eleições

14 MAI 2018
Diana Christie
13h35min
Foto: Deivid Correia/Arquivo

Enquanto parcela da comunidade evangélica deseja ampliar a representatividade no Congresso Nacional com indicação de candidatos que representem os valores cristãos, outros líderes religiosos apostam na formação política cidadã dos fieis sem a conotação partidária, para que o eleitor faça a própria escolha de forma consciente, mesmo que sejam candidatos de outras crenças religiosas.

“Sou contra a entrega de cajado. A igreja não deve apresentar candidatos porque a fala dele é muito forte, tem impacto emocional muito forte. Agora é verdade que podemos dar alguns critérios para escolher quais serão seus candidatos, é importante discutir política, mostrarmos alguns tipos de características, para que os fieis possam fazer suas análises com mais propriedade”, explica o pastor Joaze Barbosa de Lima, da Igreja Batista Nova Esperança.

Para Joaze, ser evangélico não deveria ser critério para escolha de representantes políticos. “Não sou a favor de falar esse é nosso candidato, não é o papel da igreja formar candidatos e sim cidadãos. Inclusive candidato que talvez não seja da igreja pode ser um bom gestor, não é porque é evangélico que vai ser bom”, resume.

O pastor destaca o papel social da igreja na formação política e cidadã dos fieis, que deve ainda presar por nomes que estejam preparados para a função. Segundo ele, um bom líder religioso pode não ser adequado para representar a coletividade, considerando todos os requisitos que um bom político precisa ter.

“Eu acho importante o envolvimento mais consciente dos evangélicos. Normalmente as igrejas colocam as pessoas lá pelo dom, carisma, porque são conhecidas e não pela capacidade, formação. Precisamos escolher pessoas com condições de fazer algo social, com empatia. Não é diferente do que acontece no Brasil, mas se conseguisse mudar essa forma de pensar do evangélico seria um grande avanço”, pontua.

Pastores são contrários a indicar candidatos para os fieis - Foto: Google Street View

Contra 'voto de cabresto'

As palavras de Joaze estão em consonância com o que acredita o pastor Marcelo Moura da Silva, da Quarta Igreja Batista de Campo Grande. “Não sou contra a participação de evangélicos na política, mas sou contra o voto de cabresto que se pratica nas igrejas evangélicas, não concordo. Não tenho nada contra evangélico ser candidato e ser político, pelo contrário devem ser, mas precisam ser comprometidos”.

Ele toca em um ponto muito explorado por candidatos e detentores de mandato: o uso de cargo pastoral no nome de urna. “Tenho uma opinião, muito particular, que não se deve utilizar título sacerdotal para fazer campanha e para se manter no cargo. Pastor, padre, bispo, são todos títulos internos da igreja. Acredito que é uma utilização indevida, todavia os médicos, os advogados usam seus títulos, mas eu não concordo”.

Marcelo acredita que a participação política é indissociável da igreja, que tem papel fundamental na formação dos fieis, mas ela deve ser apartidária e discutida de forma ampla, de forma a prezar pelo bem-estar da sociedade. Assim, ele sugere, inclusive, abrir o espaço para debate político, desde que candidatos de todas as matrizes partidárias possam participar. Nunca, por outro lado, fazer campanha no templo religioso.

Respeito à diversidade

Márcio José de Oliveira Rocha, da igreja Batista Memorial em Dourados, enfatiza que ser evangélico é um conceito muito plural, que engloba diversos pensamentos e leituras da bíblia, muitas vezes conflitantes. Por isso, ele aposta na escolha de candidatos que priorizem pautas sociais, ao invés de definir o voto por afinidades religiosas.

“Eu, particularmente, quando olho para um candidato, eu quero saber se ele é democrático, se respeita a diversidade religiosa e cultural do Brasil. Eu quero ver se a sua plataforma de trabalho, de interesses, está voltada para cuidado com os mais pobres, marginalizados, se ele tem uma perspectiva mais social. Então essa é a minha leitura. Não busco um candidato pastor ou evangélico, eu Busco um candidato que represente, na sua luta de interesses, uma sociedade democrática, social, solidária”, relata.

Rocha destaca que, por razões óbvias, não vai escolher um candidato que “passe um trator por cima” dos valores dele, mas também não quer alguém que seja o trator que esmaga nenhuma minoria. “O respeito à democracia vale tanto para mim como para o meu vizinho, o que eu busco é isso”.

Contrastes de pensamento

O posicionamento desses líderes religiosos contrasta com o conselho de pastores, por exemplo, que faz reuniões frequentes para definir quais candidatos vai apoiar durante as eleições. O grupo é famoso por ajudar a eleger, por exemplo, o deputado federal Elizeu Dionízio (PSB), além de diversos vereadores em Campo Grande.

Neste ano, o grupo quer ampliar a participação dos evangélicos no Congresso Nacional e quer lançar um candidato ao Senado por Mato Grosso do Sul. Segundo Elizeu Dionízio, hoje a bancada possui três senadores evangélicos, sendo que o projeto é ter de 15 a 20 em 2018, isso nacionalmente.

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