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No mês da consciência negra, porta-voz de comunidade destaca combate ao racismo

Seu Michel acredita que a população vem conseguindo combater o preconceito e relembra casos que marcaram a comunidade

13 NOV 2017
Dany Nascimento
16h01min
Foto: Dany Nascimento

No mês da consciência negra, comemorada no dia 21 de novembro, o 'porta-voz' da comunidade Tia Eva em Campo Grande, Sergio Antônio da Silva, conhecido na região como "Seu Michel”, relembra que os moradores já enfrentaram preconceito enquanto tentavam desenvolver a região, que não tinha energia elétrica e nem água encanada.

Ele relembra que um morador da comunidade, que estava em busca de um emprego, se encaixava em todas as exigências de uma empresa, falava três idiomas, mas o racismo impediu o mesmo de trabalhar no local. “A vaga exigia que o cidadão falasse três idiomas e ele se encaixava nas solicitações para a vaga. Foi até a empresa, passou por uma entrevista de emprego, mas não foi chamado para assumir porque era de cor negra. Lembro como se fosse hoje”.

Seu Michel acredita que atualmente as pessoas conseguiram melhorar quando o assunto é preconceito, mas pontua que ele ainda existe e afeta muita gente. “Claro que em relação a antigamente, o país desenvolveu muito no combate ao preconceito, mas ele ainda existe  na sociedade e acredito que cada vez mais as pessoas tem que levar a bandeira de combate porque todos somos iguais. Falta consciência, falta se colocar no lugar do outro para conseguir vencer totalmente”.

Neto da irmã de tia Eva, Seu Michel explica que os primeiros moradores enfrentavam muitas dificuldades e aos poucos a comunidade foi crescendo. “Daqui só ouvíamos o barulho da rede de energia elétrica da rua 26 de Agosto, durante a noite ninguém enxergava nada. Conseguimos lampiões na época, não tinha água encanada e aos poucos, fomos conseguindo melhorar a situação”.

De acordo com Seu Michel, a criação da associação foi responsável pelo crescimento da comunidade quilombola. “Criei a associação daí consegui muito apoio para ir construindo as coisas. O doutor Aleixo ajudou muito a gente, o Nelson Trad, o advogado José também. Sempre com muita alegria fomos crescendo e hoje a comunidade vive bem. Conseguimos terreno para construir escola, conseguimos com a ajuda do governo na época, a construção de 25 casinhas. Hoje graças a Deus temos luz, temos água encanada, vivemos muito bem sempre relembrando a memória da tia Eva”.

Para Seu Michel, Tia Eva foi um exemplo de fé já que fez uma promessa que se tivesse uma vida bem sucedida na Capital, construiria uma capela para São Benedito. “Ela foi um exemplo para todos nós. Ela é irmã da minha avó e como conseguiu ser bem sucedida aqui, construiu essa capela, comprou essa área e cumpriu sua promessa. Três pessoas administraram a comunidade, a tia Eva, meu avô e agora eu”.

História da comunidade

A história da comunidade se confunde com a própria história de Tia Eva. Escrava nascida em Mineiros, Goiás, Eva Maria de Jesus sempre sonhou um dia poder criar suas filhas com a melhor educação do mundo. Casada por duas vezes, Eva Maria teve três filhas: Joana, Lazara e Sebastiana. Em 1887, aos 49 anos, Eva obteve sua carta de alforria, momento no qual realizaria seu segundo sonho: ir para o Mato Grosso (atualmente, Mato Grosso do Sul) e construir um lugar para seus descendentes. Saiu de Goiás em 1905, chegando em Campos de Vacaria, hoje, Campo Grande, onde trabalhou como lavadeira, parteira, cozinheira, curandeira e benzedeira. Vida nada fácil. Era uma espécie de médica da época. Mais impressionante ainda era que sabia ler e escrever, pra quem havia sido escrava isso era um dom. Procurada por inúmeras pessoas, tornou-se referência na comunidade, o que lhe rendeu alguns benefícios financeiros. Até que em 1910 adquiriu uma terra de oito hectares que lhe custou 85 mil réis, onde atualmente, residem mais de 60 famílias descendentes.

São Benedito

O outro nome da comunidade, São Benedito, deve-se também à Tia Eva e sua fé. Devota do santo, ela fez uma promessa ao padroeiro para que curasse uma ferida que havia há anos em sua perna e que nunca curava. E foi realizada. Ao chegar em Mato Grosso, milagrosamente foi curada.

Para pagar a dádiva ao santo milagreiro, construiu em 1912 uma igreja de pau-a-pique (em 1919, a igreja foi demolida e reerguida em alvenaria), que a partir de então, leva o nome de Igreja de São Benedito. Tia Eva está enterrada dentro desta pequena igreja, a mais antiga da cidade.

Antes de seu falecimento, dia 11 de novembro de 1926, aos 88 anos, Tia Eva fez seu último pedido: que a família nunca deixasse de fazer a festa de São Benedito todos os anos, no mês de maio. A festa em louvor ao santo, realizada desde 1912, dura nove dias e é o maior orgulho da comunidade.

Antigamente, a festa era feita embaixo das mangueiras. Para celebrar as missas os padres chegavam de charretes e cavalos. Ninguém perdia o evento. Hoje em dia também não. A comunidade já conta com clube social, linha de ônibus, ruas asfaltadas, escolas de 1º e 2º graus, creche, linhas telefônicas, além da Associação Beneficente dos Descendentes de Tia Eva.

 

 

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