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Sem amparo do poder público, comunidade Tia Eva existe e resiste graças à força dos ancestrais

Igreja de São Benedito, símbolo do local, precisa de reforma urgente, mas fé no sagrado permanece firme entre descendentes

16 ABR 2018
Thiago de Souza
12h28min
Comunidade precisa de amparo do poder público Foto: wesley ortiz

Local de cultura negra e fé, a Comunidade Tia Eva chega aos 99 anos com muitos desafios. O maior deles é a falta de apoio do poder público. Mas é a crença em Deus e a força dos ancestrais que fazem perpetuar a festa de São Benedito, pedido de Tia Eva a seus descendentes.

"Tia Eva pediu, antes de morrer, em 11 de novembro de 1926, que a família desse continuidade a essa tradição... que começou com ela, depois com uma das filhas da Tia Eva, minha avó paterna, e depois com meu pai", relembra Eurides da Silva, conhecido como Bolinho, presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva.

Bolinho luta por melhorias na comunidade. (Foto: Wesley Ortiz)

"Para realizar essa festa ainda não temos cartazes... ainda não temos os músicos que vão tocar’’, reclama Bolinho. Para o dirigente, a omissão dos governos municipal e estadual não têm sentido, "até porque esse prédio é da prefeitura praticamente, isso é um patrimônio histórico", observa Eurides.

Na contramão da omissão governamental, o presidente da associação destaca que a comunidade é visitada até por turistas estrangeiros, como alemães e norte-americanos, além da visitação de alunos de escolas de Campo Grande.

"Falta engajamento dos munícipes até porque Tia Eva é co-fundadora da cidade. Isso não está nem nos livros didáticos. Quando José Antônio Pereira chegou a Campo Grande já existia uma comunidade negra...’’, destacou.

Michel segura 1ª imagem de São Benedito trazida por Tia Eva. (Foto: Wesley Ortiz)

Igreja

O símbolo da comunidade, que fica no Jardim Seminário, região norte da cidade, é a Igreja de São Benedito. No espaço pequenino, mas aconchegante, pintado em azul, a fé é exercida também com o terço, rezado às sextas-feiras à noite. No entanto, devido a antiguidade, o prédio precisa de reforma urgentes.

"O forro está caindo", alerta Bolinho. Outro membro da associação, Nilton Ziquinho, diz que o maior sonho da comunidade é a reforma da igreja. "Querendo ou não, é o símbolo da comunidade. Todas nossas ações esportivas, a gente coloca a imagem da igreja", ressalta.

Igreja, símbolo da comunidade, precisa de reforma. (Foto:Wesley Ortiz)

Sérgio Antônio da Silva, conhecido como Michel, ex-presidente da Associação dos Descendentes da Tia Eva, tem 83 anos e aponta que essa foi a segunda igreja a ser construída em Campo Grande. "A primeira foi a Matriz de Santo Antônio", assinala.

"Isso aqui [igreja] é a minha vida. Para arrumar isso aqui não leva nem vinte mil reais. Nunca deixamos de fazer essa festa", diz Michel, que se engajou nos trabalhos da comunidade aos 12 ou 13 anos. Ele destaca que em outros tempos a comunidade tinha mais atenção da prefeitura.

"Com a modernidade, as coisas estão mais difíceis, em vez de ficarem mais fáceis"’, pontua. O ancião recorda quando o avô costumeiramente pedia ajuda para fazer a festa ao então prefeito, Ari Coelho.

"Um ano meu vô não apareceu lá para pedir patrola para a festa, mas o prefeito veio aqui e disse: 'Ô veio, não sair a festa de São Benedito esse ano?' E mandou a patrola", relembra orgulhoso, Michel.

Por causa da história da Tia Eva, Michel diz que já sentou na cadeira do Senado Federal, representando todas as comunidades negras do país, em um evento internacional com 15 nações, chamado Raça do Escravo, em 1998.  

"Isso pra você ver, lá em Brasília. E nós estamos aqui, dentro da cidade, e parece que o pessoal 'tá' dormindo...", reclama a antiga liderança.

Ações

A comunidade também promove e recebe ações sociais, culturais e esportivas, sendo que um dos destaques são os campeonatos de futebol, de salão e de campo. Competições como Torneio Tia Eva, campeonato da Região do Segredo, Copa de Base, fruto do projeto Jovens Promessas, já estão consolidadas no calendário desportivo da vila.

O trabalho, diz Ziquinho, de uma ação  de inserção social na comunidade. "Tentamos trazer o máximo de gente para a comunidade", relata.

Apesar das dificuldades, Michel acredita que, pessoas que alcançaram graças de São Benedito, assim como ocorreu com Tia Eva, vão amparar a igreja e ajudar a promover a festança.    

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