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André Puccinelli continuou recebendo propinas mesmo sem cargo político, diz PF

Segundo os investigadores, as empresas mantinham os repasses através de patrocínios de eventos fictícios, compras de livros e contratação de serviços de consultoria

14 NOV 2017
Diana Christie
11h25min
Foto: André de Abreu

Mesmo sem cargo político há quase três anos, o ex-governador André Puccinelli (PMDB) continuou recebendo propinas da JBS e da Águas Guariroba, conforme a PF (Polícia Federal). Segundo os investigadores, as empresas mantinham os repasses através de patrocínios de eventos fictícios, compras de livros e contratação de serviços de consultoria.

"A Águas Guariroba ainda repassa valores a um escritório de advocacia ao qual o André Puccinelli Junior (filho do ex-governador) é vinculado e não conseguimos descobrir quais os serviços prestados", revela o delegado regional de combate ao crime organizado, Cleo Mazzotti.

De acordo com o delegado, a concessionária teria repassado, pelo menos, R$ 1 milhão por uma consultoria jurídica que não comprovou a prestação do serviço ou a necessidade do apoio terceirizado. Os valores, inclusive, podem ser maiores. "A investigação ainda não chegou a todo esse patrimônio ainda, existe um levantamento em andamento".

O ex-governador é apontado como o chefe do esquema, pois teria negociado isenções fiscais e benefícios que estavam sendo pagos ilicitamente pelas empresas. "A investigação entende que o ex-governador tinha um papel central porque era beneficiário e garantidor de todo esquema", enfatiza Mazzotti.

Como o ex-governador já não tinha cargo, o filho dele foi essencial para manter o esquema em pleno vapor. Entre as formas de lavagem de dinheiro, a Águas Guariroba adquiria livros escritos por André Puccinelli Junior e publicados pela editora Saraiva, o que gerava vultuosos recompensas com direitos autorais.

A PF ressalta que, além dos livros adquiridos pela concessionária destoarem das atividades da empresa e serem distribuídos gratuitamente em congressos, as vendas de exemplares individuais da obra eram ínfimas, ou quase inexistentes, a não ser pela ação de empresas relacionadas com o grupo criminoso.

Patrimônio suspeito

De acordo com o auditor fiscal da Receitas Federal, Henry Tamashiro Oliveira, os envolvidos já prestaram esclarecimentos durante a fase de investigação e, em muitos casos, não conseguiram explicar satisfatoriamente o aumento de patrimônio ou a contraprestação de serviços realizados, sendo autuados administrativamente.

"O papel da Receita Federal nesse trabalho foi de identificar o rastro do dinheiro. Nosso serviço de inteligência conseguiu identificar mecanismos de lavagem de dinheiro e pudemos fazer alguns autos de infração. Cada fase foi abrindo novos horizontes para fiscalização. Foram identificadas mais pessoas físicas e jurídicas de todo esse sistema de circulação de dinheiro", explica.

Segundo ele, as investigações começaram com o aluguel de máquinas e evoluíram para outras formas de lavagem de dinheiro, que ficaram comprovadas como "novos documentos que embasaram e corroboraram as delações apresentadas".

"Essa convergência forma um conjunto de provas que vão clareando todo o funcionamento do esquema. Inicialmente era o aluguel de máquinas efetuadas de forma desproporcional, que era impossível uma empresa alugar tantas máquinas ao mesmo tempo. Foram analisadas diversas distorções e, nesta fase, verificamos aquisição de livros, prestação de serviços jurídicos e de consultoria que não foram efetuados", finaliza. 

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