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Em quatro anos, PF descobriu R$ 3 bilhões em desvios em MS,MT, GO e TO

Centro-Oeste foi alvo de mais de 50 operações desde 2014

12 OUT 2017
UOL
15h46min
Foto: Divulgação

Simbólica no combate à corrupção no país pelos números que produziu, a Operação Lava Jato tornou-se referência também por ter investigado ramificações em diversas esferas dos Poderes.

O modelo foi adotado em outros casos, como em Mato Grosso do Sul, onde a Operação Lama Asfáltica chegou à sua quinta fase para desmontar um gigantesco esquema de fraudes e corrupção que já desviou mais de R$ 150 milhões dos cofres públicos, segundo a Polícia Federal. Deflagrada em julho de 2015, já levou 15 pessoas para a cadeia --que hoje aguardam o fim das investigações em liberdade.

O Centro-Oeste foi alvo de mais de 50 operações das 370 ações desencadeadas pela PF e os órgãos de fiscalização e controle no mesmo período da Lava Jato, iniciada em março de 2014. Somadas as operações nos quatro Estados e no Distrito Federal, os recursos desviados chegam a cerca de R$ 3 bilhões, maior valor entre todas as regiões do país, no levantamento feito pela reportagem. Foram reunidos dados de 370 operações contra fraudes e corrupção realizadas pela PF (Polícia Federal), pela CGU (Controladoria-Geral da União) e pelo MP (Ministério Público), entre março de 2014 e março de 2017.

Quando realizou a primeira fase da Operação Lama Asfáltica em Mato Grosso do Sul, em 2015, PF (Polícia Federal), CGU (Controladoria-Geral da União) e MP (Ministério Público) não esperavam que o caso se estendesse por mais dois anos. O volume de delitos era tão grande que foi necessário formar uma força-tarefa para avançar nas investigações, que descobriu desvios de pelo menos R$ 150 milhões em atividades que iam de obras de rodovias até compras de livros. Com isso, a operação original desdobrou-se em outras três: Fazendas de Lama, Aviões de Lama e Máquinas de Lama.

Para maquiar a movimentação do dinheiro fraudado, os envolvidos faziam negociações fictícias com aeronaves, propriedades rurais e aluguéis de maquinários. Um dos acusados na Lama Asfáltica era o ex-governador do Estado André Puccinelli (PMDB). Na lista de obras investigadas estão o

Aquário do Pantanal e as rodovias MS-171, MS-228 e MS-187 --todas executadas na administração do peemedebista.

Na época da operação, a assessoria do ex-governador informou que "todas as contratações seguiram rigorosamente a legislação vigente e aplicável ao caso" e "que ele não tem nada a esconder".

Levado coercitivamente para a sede da PF em Campo Grande, saiu de lá usando uma tornozeleira eletrônica e teve os bens bloqueados. Os outros envolvidos eram ex-secretários, empresários e vários servidores públicos. O processo corre em segredo de Justiça.

Em Mato Grosso, a retirada do sigilo da delação premiada do ex-governador Silval da Cunha Barbosa levou o STF (Supremo Tribunal Federal) a determinar, em agosto deste ano, abertura de inquérito para apurar o destino de R$ 310 milhões desviados dos cofres do Estado entre 2004 e 2014.

Na delação, Barbosa acusou políticos com mandato, deputados estaduais, conselheiros do TCE (Tribunal de Contas do Estado), empresários, agiotas, ex-secretários, grandes empresas e o ministro da Agricultura, Blairo Maggi --que negou participação no esquema.

A delação de Barbosa mostrou cenas que os brasileiros já viram antes e têm vergonha de ver de novo: políticos enchendo caixas, mochilas, bolsos e bolsas com dinheiro oriundo de corrupção.

Imagens registradas também em Brasília, em 2015, durante a Operação Caixa de Pandora, a primeira a prender um governador no exercício do mandato. Desencadeada para apurar desvios de dinheiro público, a investigação levou o ex-governador José Roberto Arruda (ex-PSDB, ex-DEM, ex-PR, atualmente sem partido) direto do Palácio do Buriti para a prisão.

Gravado recebendo maços de dinheiro do presidente da Companhia de Desenvolvimento do Planalto, Durval Barbosa, Arruda (então no DEM) alegou que "os recursos eventualmente recebidos foram regularmente registrados ou contabilizados" em sua campanha. Posteriormente, em entrevista, afirmou que recebeu o dinheiro e o devolveu - trecho que teria sido apagado do vídeo, segundo o ex-governador. Em maio deste ano, José Roberto Arruda foi condenado em primeira instância a três anos e dez meses de prisão em regime semiaberto por usar notas falsas de compra de panetones para justificar o que recebeu como caixa dois.

Em alguns casos, grandes golpes contra os cofres públicos se misturaram a delitos de menor porte com grande impacto para a população. Como em quase todas as falcatruas, também envolveram políticos e servidores dos mais diversos escalões.

Abreulândia, no Tocantins, tem apenas 2.500 habitantes. Em dezembro de 2015, os órgãos de fiscalização descobriram o desvio de R$ 2,6 milhões dos cofres municipais destinados ao pagamento de obras que seriam realizadas por empreiteiras. Os serviços, no entanto, foram executados por servidores da prefeitura, segundo a CGU.

Os acusados são o ex-prefeito Elieze Venâncio (PSB), a irmã dele, que era secretária de Administração, o irmão, secretário de Finanças, além de outro servidor da Secretaria Municipal de Educação.

"Gado de papel" e aviões que teriam de ser abastecidos no ar

No Tocantins, a Polícia Federal chegou a três esquemas que totalizaram R$ 600 milhões em desvios. Um deles era uma prática de lavagem de dinheiro público, chamada de "gado de papel", envolvendo a compra e venda fictícia de fazendas e cabeças de gado. A fraude envolvia transações em que a extensão da área negociada não seria suficiente para abrigar a quantidade de gado adquirida Na Operação Reis do Gado, realizada em novembro do ano passado para desbaratar o esquema, a PF informou que a lavagem de dinheiro somou cerca de R$ 200 milhões. Na ação, sete pessoas foram presas, inclusive parentes do governador Marcelo Miranda (PMDB-TO), conduzido coercitivamente para depor.

Ao final de seu mandato, em dezembro de 2016, Miranda disse que os políticos acusados pela PF na operação "sempre serviram ao Estado do Tocantins e não merecem o que estão passando" --referindo-se aos ex-governadores Siqueira Campos (PSDB) e Moisés Avelino (PMDB). "Se houve um acontecimento externo, a intenção dos governantes não é fazer mal a sociedade. Nós queremos sempre o melhor para o Estado", afirmou. Todos os bens de Marcelo Miranda, do pai e de um dos irmãos foram bloqueados.

Um mês antes, a Polícia Federal já tinha encontrado outro esquema no Tocantins para desviar dinheiro público.

Durante uma investigação, que depois gerou a Operação Ápia, desencadeada em quatro etapas, foi identificado o direcionamento de recursos na contratação de 1.500 caminhões de brita. Se enfileirados, os caminhões teriam uma extensão de 27 km, percurso maior do que a rodovia para onde o material era destinado. 

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