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Oito celulares entram por dia em presídios e regalia pode ser 'acordo velado'

Aparelhos entrariam nas cadeias e, em troca, os encarcerados suavizariam atos de rebeldia, como a rebelião

16 MAI 2018
Celso Bejarano
07h00min
Agepen apreendeu 24 celulares e 142 chips na PED em Janeiro Foto: Agepen

Em 2016, último levantamento oficial divulgado pela Agepen (Agência Estadual do Sistema Penitenciário) indicava que naquele ano quase três mil telefones celulares foram apreendidos dentro dos presídios de Mato Grosso do Sul. A conta remete a uma estatística intimidante: todo o dia oito aparelhos são apanhados com os encarcerados.

Por que e como essas ferramentas caem nas mãos dos detentos que as usam para a prática de crimes como sequestros, assassinatos ou golpes de estelionato?

São diversas as hipóteses que justificariam a entrada de celulares nos presídios, uma delas a corrupção.

Mas há uma suspeita, embora o assunto seja rejeitado entre as autoridades que comandam o sistema correcional.

São os acordos firmados com os chefes de organização criminosa. A base do conchavo seria essa: os telefones entram e os presos abolem a ideia de uma rebelião, por exemplo.

HIPÓTESES

André Luiz Garcia Santiago, presidente do Sinsap-MS (Sindicato dos Servidores Penitenciários do Estado de Mato Grosso do Sul), disse ao TopMídiaNews que já houve denúncias de supostos acordos envolvendo a coordenação de presídios com os chefes do crime, mas, segundo ele, “sem embasamento”.

“Nunca chegou (denúncia) com provas, jamais. E eu não tenho como comentar esse assunto dessa forma”, esquivou-se o sindicalista.

Contudo, Santiago sinalizou com quatro pontos os motivos que levaram à suspeita de entrada frequente de aparelhos celulares. E, em todos os tópicos mencionados, nota-se que os detidos ganham poder a cada negociação com os chefes do sistema correcional.

Televisores dentro de celas, é uma delas.

“É uma regalia desnecessária, mas uma conquista irreversível, difícil de tirá-la dos presos”, afirmou Santiago.

De acordo com o sindicalista, televisores são instalados dentro de celas graças ao que chamou de “flexibilização”.

No caso, o privilégio só é permitido depois dos presos convencerem a direção do presídio da necessidade do aparelho dentro do cárcere.

Para o sindicalista, é temerária a ideia de os presos terem acesso a “informações externas” pela televisão. Ele disse que a regalia pode ser um meio de os presos “articularem” manobras criminosas.

SOL

Outra vantagem dada aos presidiários, segundo Santiago tem a ver com o conhecido “banho de sol”, que é o período que o detento fica fora da cela.

Por regra, disse o sindicalista, o prisioneiro deveria ficar no banho de sol por apenas duas hora, segundo a norma. Mas isso não é cumprido.

“Cada unidade prisional adota sua norma, tem seu comportamento. Há casos que todos os detidos são liberados das celas ao mesmo tempo e o número de agentes penitenciários não é suficiente para vigiá-los”, contou Santiago.

JUMBADA

Mais uma queixa do sindicalista: acesso a jumbada, linguajar criado pelos encarcerados cujo significado é a autorização para a entrada de pertences, como roupas, nos presídios na terça-feira – a visita permitida ocorre aos domingos. Nesse dia, os presídios do Estado recebem, em média, quatro mil pessoas parentes dos detentos.

A entrada extra de alimentos nos presídios já causou revolta entre os agentes penitenciários, segundo o sindicalista. Houve casos de presos que receberam de seus familiares exageradas quantias de alimentos para negociarem entre os detentos.

A reportagem apurou que presos recebiam, por exemplo, 100 coxinhas para vender para os colegas. E tudo isso autorizado por meio de circular interna (ordem da direção dos presídios).

No quarto tópico que esclareceria a entrada de celulares nos presídios, o sindicalista citou o efetivo reduzido de agentes penitenciários.

“Somos favoráveis, sim, a segurança. É preciso mudar a rotina dentro dos presídios”, completou o sindicalista.

NÚMEROS

Dados da Agepen indicam que em 2014, 1,474 aparelhos de celulares foram apreendidos nos presídios de MS. Já em 2015, o total de aparelhos somou 2.473 e, em 2016, 2.916 telefones.

E quem leva os artefatos para os detentos abusam da criatividade. O telefone é misturado a comida, roupa e vira até recheio de chinelo.

Matéria editada para acréscimo de informação às 12h15

 

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