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Delatores dizem não saber sobre suposta vantagem de Lula em tríplex

Alberto Youssef, Fernando Baiano e Milton Pascowitch prestaram depoimento

26 NOV 2016
O Globo
09h11min

Em mais um dia de depoimentos no processo movido contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo Ministério Público Federal (MPF), outros três delatores da Operação Lava Jato afirmaram que não têm conhecimento sobre as supostas vantagens indevidas que Lula teria recebido da OAS. Nesta sexta-feira (25), o juiz Sérgio Moro tomou os depoimentos do doleiro Alberto Youssef e dos lobistas Milton Pascowitch e Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano.

Assim como nas demais audiências, a defesa de Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia interrompeu os depoimentos por diversas vezes. Os advogados reclamavam, entre outras coisas, da postura do procurador do Ministério Público Federal (MPF) e da condução dos trabalhos pelo juiz Sérgio Moro.

O depoimento de Youssef foi o mais demorado. O doleiro, que foi um dos primeiros delatores da Lava Jato, disse que nunca esteve com Lula, mas que, em dado momento, presenciou uma ligação entre o ex-deputado José Janene e o então ministro Aldo Rebelo, na qual o parlamentar reclamava de uma demissão feita pelo ex-presidente. Na ocasião, Lula ouvia a ligação entre os dois pelo viva-voz. Quando Janene soltou um xingamento, Lula teria interrompido e dito que o ex-deputado poderia xingá-lo à vontade, desde que não ofendesse membros da família.

Ainda no depoimento, o doleiro afirmou ao juiz Sérgio Moro que o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, quando era cobrado por não repassar as propinas ao PP, alegava que precisava consultar o Palácio do Planalto.

Youssef - É, porque muitas vezes o Paulo Roberto Costa deixava de passar receita para o  partido e os políticos reclamavam. Aí o PRC dizia: ‘Olha, conversa lá no Planalto. Se eu receber um sinal de fumaça ou qualquer coisa assim nesse sentido, eu faço o que eles me mandarem.

Moro - Ele fazia essa afirmação?

Youssef - Várias vezes.

Moro - Fez ao senhor?

Youssef - Fazia a mim junto com os líderes do partido.

Moro - E antes desse episódio, só o PP que recebia a parte política da Diretoria de Abastecimento?

Youssef - Sim, senhor.

Youssef nega incentivo a delações

A defesa de Lula questionou Youssef sobre os boatos de que ele teria incentivado presos da Operação Lava Jato a fecharem acordos de delação premiada com o MPF. O doleiro negou que tenha agido de alguma forma nesse sentido. "Jamais, os outros presos vinham falar comigo pra saber como era a colaboração e eu explicava", contou.

Logo em seguida, os defensores continuaram no tema "Se comenta no meio forense uma 'delação premiada à la carte', disseram. Nesse momento, foram interrompidos pelo juiz Sèrgio Moro, que questionou as afirmações da defesa.

Moro - Quem comenta isso? É calunioso, inclusive...

Defesa Lula - É um comentário geral, não lembro quem, eu ouvi isso. Existem sites que noticiaram isso... Vossa excelência que tá criando incidente,. Que fique registrado para que a imprensa não publique que a defesa que cria incidentes. Vai indeferir a pergunta?

Moro - Só estou explicando que a afirmação tem um tom calunioso. Eu peço que o doutor decline...

Defesa Lula - Calunioso a quem?

MPF - À Justiça, ao Ministério Publico, porque pressupõe que tem uma outra parte. Também acho ofensiva.

Defesa Lula - O site Consultor Jurídico mencionou esse fato

Moro - A sua fonte de informação é o site Consultor Jurídico?

Defesa Lula - Uma das....  Agora nós vamos ficar discutindo fontes?

Apesar de ter pedido à defesa para declinar dos questionamentos sobre isso, mais tarde, Moro voltou ao assunto. O juiz perguntou ao doleiro se ele havia sido incentivado por algum membro do STF para fechar um acordo de delação ou mesmo se em algum momento lhe foi apresentada alguma lista de pessoas que ele deveria incriminar. Youssef negou que qualquer situação assim tenha acontecido.

Intervenção na TermoRio

O lobista Fernando Baiano, apontado pelas investigações como operador de propina para o PMDB, disse no depoimento que começou a atuar na Petrobras no início dos anos 2000, representando um grupo de empresários espanhóis, que queria fechar um contrato com a Petrobras para a construção da TermoRio.

Segundo o lobista, as negociações duraram cerca de quatro meses e foram abruptamente interrompidas por ordem do então diretor de Gás e Energia da Petrobras, Delcídio do Amaral, que mais tarde viria a ser senador. "Depois ele veio conversar comigo e eu querendo entender e depois de muita pressão que eu fiz, ele disse que ele tinha recebido ordens para não assinar porque eles teriam que assinar com uma outra empresa", afirmou.

Baiano disse que descobriu mais tarde que essa empresa era representada por Paulo Henrique Cardoso, filho do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

Era uma operadora, na época ele não me falou quem eram as empresas. Só me falou que ele teria que assinara com outra empresa e posteriormente eu fiquei sabendo quais eram essas empresas.

Ele ainda disse que nos anos em que atuou junto à Petrobras teve pouco contato com políticos. "Pessoalmente que eu tratei foi o deputado Eduardo Cunha e um pedido de ajuda pra campanha do senador Valdir Raupp, que eu me lembre", afirmou. O lobista disse ainda que, normalmente, preferia enviar as propinas aos políticos com a ajuda de intermediários.

Próximas audiências

O processo contra Lula segue na fase dos depoimentos das testemunhas de acusação. Até o dia 16 de dezembro, estão marcadas mais seis audiências, onde serão ouvidas pelo menos 15 pessoas. Entre elas, está o pecuarista José Carlos Bumlai, que também já foi preso e condenado na Lava Jato, mas que ficou conhecido antes mesmo da operação, pela amizade que mantinha com o ex-presidente Lula.

 

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