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Médicos denunciam fechamento de setor psiquiátrico da Santa Casa

Pacientes e familiares temem ficar sem atendimento; retorno de consulta demora até 2 anos

6 AGO 2017
Liziane Berrocal
09h30min
Local conta atualmente com apenas dez leitos do SUS Foto: Assessoria ABCSC

“Todo mundo tem pelo menos um conhecido que tenha alguma doença mental. Depressão, ansiedade, tabagismo são exemplos. A ideia de um tipo de doença que afete a cabeça, e o próprio comportamento humano, assusta. Imaginar que esse tipo de doente pode não ter onde se tratar, pode ser pior ainda”, assim começa uma carta enviada a reportagem do TopMídiaNews.

A paciente pede para não ser identificada. Teme o preconceito. Mas além disso, seu outro receio sustenta uma matéria. O medo de ficar sem tratamento médico, com a possibilidade de fechamento da ala de psiquiatria da Santa Casa de Campo Grande.

Com apenas dez leitos psiquiátricos para o atendimento SUS (Sistema Único de Saúde), o local corre o risco de deixar de prestar atendimento manicomial, que já é extremamente precário em todo o Estado. Atualmente, a instituição é responsável pelo cuidado de milhares de doentes mentais de Campo Grande e todo o Mato Grosso do Sul. 

O serviço de Psiquiatria contava com ambulatórios para pacientes de todas as idades, hospital-dia, atendimentos psicológico, de assistência social e terapia ocupacional e internação hospitalar para casos graves. “Ao longo dos anos, porém, não se sabe se por má-fé da administração hospitalar ou dos governantes (ou ambos), o serviço tem sido progressivamente diminuído”, denunciou um dos profissionais que trabalha no local e que pede para não ser identificado em hipótese nenhuma.

“Já foram feitas demissões até de médicos, quem fala sobre o assunto é chamado de louco, veja que ironia, e demitido”, denuncia.

Segundo os dados apurados, desde a fundação do Serviço de Psiquiatria, a população do MS aumentou cerca de 10 vezes e o número de usuários de drogas, que também são atendidos por este serviço, aumentou em níveis estratosféricos.

“Na contramão disso, nos últimos 10 anos, a Santa Casa tem encolhido cada vez mais seu serviço de Psiquiatria, reduzindo seu número de leitos em 80%, já que atualmente são 10 leitos SUS para atender toda a população da cidade, fechando o hospital-dia que é um local onde os doentes mentais podiam passar o dia fazendo atividades e acabando com os atendimentos psicológicos e de assistência social”, explica um dos profissionais que trabalha no setor e procurou a reportagem.

Pacientes seriam mandados para o Nosso Lar

Médicos e equipes de saúde estão preocupados porque a demanda seria enviada para o hospital Nosso Lar. “Que não tem estrutura, que não tem como atender. E esse sucateamento vem acontecendo há tempos".

Para se ter uma ideia, uma consulta de retorno com psiquiatra, agora pode demorar até dois anos para ser marcada. “Há uns dois anos, alegando um convênio com o SISREG da prefeitura municipal, para ‘organizar os atendimentos do SUS’, simplesmente reduziram os atendimentos de cerca de 2.000 para 400 pacientes, uma coisa assim. O que eu sei é que os médicos tinham agendas próprias e marcavam os retornos conforme a necessidade, e com o SISREG, os retornos chegam a demorar 2 anos”, lamenta o médico.

Segundo ele, a denúncia é que, agora, a Santa Casa vai fechar “de vez” o atendimento. “Com muita tristeza, soubemos que a Santa Casa pretende encerrar os atendimentos dos doentes mentais este mês. Assim, todos os ambulatórios de Psiquiatria e o setor de internação serão fechados”, afirmou um dos denunciantes.

Familiares de pacientes reclamam de mudança

A informação é que, com isso, os doentes mentais serão transferidos para o Hospital Nosso Lar. “Considerando a função assistencial que um hospital beneficente deveria ter, é estarrecedor o argumento usado pela administração hospitalar: o doente mental não gera lucro. Assim sendo, não é bem-vindo”, denunciou a irmã de um paciente, que também procurou a reportagem.

“Eu mesma já precisei de atendimento na Santa Casa e era considerado o melhor local, é desesperador saber que isso pode acabar”, conta ela que tem um irmão usuário e com quadro grave de esquizofrenia.

Santa Casa não confirma, mas também não nega fechamento

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Santa Casa e a entidade não negou o fechamento, explicando que a cobertura financeira do SUS para o setor é muito aquém do necessário, causando um déficit muito alto na manutenção do serviço. “Todavia ainda não há uma decisão no sentido de fechá-lo”, afirmaram. 

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