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Da dura de Tite ao Villarreal: Pato fala de redenção e sonha com a Seleção

Hoje na Espanha, atacante fala da bronca que levou do atual técnico do Brasil nos tempos de Corinthians, do novo clube e do que pretende fazer após encerrar carreira

16 OUT 2016
Globo Esporte
15h55min
Foto: Márcio Iannacca / GloboEsporte.com

Porto Alegre, Milão, São Paulo, Londres... Todas cidades que ultrapassam a marca de milhões de habitantes. E foi nessa ordem que Alexandre Pato escreveu a sua trajetória no futebol. Precocidade no Internacional, gols e fama no Milan, antipatia no Corinthians, volta por cima no São Paulo e esquecimento no Chelsea. Mas para encontrar a redenção no esporte, o atacante, de 27 anos, optou pela Espanha. Escolheu defender as cores do Villarreal, clube que fica na cidade de mesmo nome, com pouco mais de 50 mil moradores.  

- É uma nova vida né? Essa foi minha a primeira mudança de um time que talvez não seja da elite do futebol, mas tem um time que está brigando pra entrar numa Champions League, que luta para talvez não ser o campeão da Champions, mas para ser o campeão da Liga Europa. É um time organizado. É o primeiro clube que não encontro brasileiros - contou o jogador.

E em Bétera, cidade próxima a Villarreal, Pato vive com a cachorrinha Panda, os gatos Dom e Max e com a namorada Fiorella Mattheis. Quando a reportagem do Esporte Espetacular passou pela Espanha, ela estava no Brasil cumprindo compromissos profissionais. Mesmo assim, o atacante, que em oito jogos pelo novo clube marcou três vezes, não esqueceu a amada em nenhum momento e não escondeu a vontade de aumentar a família nos próximos meses. 

- Penso logo em ter uma família porque já tenho experiência com gatos e cachorros e eu acho que está se encaminhando pra isso. Não vejo a hora também.

Mas a conversa não serviu apenas para falar do atual momento no Villarreal e na Espanha. Na entrevista, Pato relembrou os momentos de apreensão que viveu no Corinthians, quando desperdiçou um pênalti contra o Grêmio, em jogo pela Copa do Brasil de 2013. O mundo do jogador desabou.

- Muitas coisas que eu esperava no Corinthians que fossem bacanas acabaram não sendo. Eu também cometi um erro, que foi um pênalti que eu cobrei errado e perdi. Saímos de um campeonato que era importante também pro Corinthians.

O jogador contou como foi a bronca de Tite: 

- Ele foi duro comigo, como os outros, só que o Fábio Santos também exagerou, falou que queria brigar, isso não existiu. Mas a dura em si, a dura direcionada do Tite em mim teve. Eu estava ali, triste, chorando, mas sabia da responsabilidade do que aconteceu naquele momento.

E mesmo sendo comandado por Tite naquela ocasião, no Corinthians, Pato acredita que se conseguir uma boa média de atuações e gols terá oportunidade de retornar à Seleção com o treinador, contratado pela CBF logo após o fiasco de Dunga à frente da equipe canarinho na Copa América Centenário. 

- Tenho meus objetivos, tenho objetivos de fazer muitos gols, meu objetivo máximo é o de voltar à Seleção - disse o jogador, que escolheu a camisa 10 no Villarreal.

No bate-papo, o jogador relembrou o período de lesões, fez questão de rechaçar o rótulo de jogador frio e revelou o que pretende fazer quando encerrar a carreira. 

Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Pato:

Muita gente dizia que você chegaria rapidamente ao topo. O que aconteceu?

A minha primeira estreia foi com 16 e logo em seguida fui pro Milan, primeiros dois, três anos ali super. Estava ótimo e aí começou o período das lesões e... Você volta e aí se machuca de novo, está perdendo tempo do teu trabalho e o tempo é precioso, quanto mais aproveita aquilo é... Não sabe o que vai acontecer no dia de amanhã. Vou lutar pra chegar ainda ao topo, eu cheguei num momento, mas eu cheguei a ser jovem, o melhor da Europa.

E você tem feito trabalhos após os treinos para evitar essas lesões?
Quando a gente treina um período de manhã, eu sei que à tarde eu tenho que fazer alguma coisa. Hoje é muito diferente daquele tempo que eu estava no Milan.

E a sua passagem pelo Chelsea?
Foi um momento... Para mim, posso falar, de um a dez, eu dou cinco. Achei que ia ser uma coisa e foi outra. Aconteceu. Fui lá, cheguei, conversei com o treinador, sentia que eu poderia jogar. O Guus (Hiddink) é super correto, conversamos. Ele disse que ia me dar chances. Mas disse: "quando você veio, tínhamos jogadores lesionados e eles voltaram". Foi ótimo, conheci jogadores, um monte de gente, tive contato com os brasileiros, conheci a cultura do clube. O Chelsea é um grande clube.

O projeto de retorno ao Brasil foi dentro de suas expectativas?
Quando vim para a Europa, não esperava voltar tão cedo ao Brasil. Mas aconteceu. O primeiro ano foi muito difícil. Tive uma adaptação diferente. Muitas coisas que eu esperava no Corinthians que fossem bacanas acabaram não sendo. Eu também cometi um erro, que foi um pênalti que eu cobrei errado e perdi. Saímos de um campeonato que era importante também pro Corinthians. Aí surgiu o São Paulo, conheci o Muricy e tive um ano muito bom. No segundo ano do São Paulo, eu conheci o Osório (Juan Carlos, hoje treinador do México). Foi um trabalho sensacional e eu tive aquele novo ganchinho na Europa. A volta não era esperada, mas como voltei... Dos três anos que eu passei, tirei muitas coisas boas ali. 

Você é um cara que transcende o futebol, namora pessoas conhecidas. Muita gente diz que o Pato não tem o foco completo no futebol. Teve mesmo o desvio ou é uma leitura equivocada?
Quando você começa a aparece na TV, jogar bem, a ter uma exposição que foge um pouco das pessoas vem aquela curiosidade. As pessoas querem saber com quem ele sai, com quem ele namora, se ele vai para a balada. Eu me acostumei com essas cobranças, com essa pressão, com essa vida. Milão em si era a cidade da moda. Se você for numa rua, a pessoa te vê, já era. Você vai ter o seu carro perseguido por toda a Milão, ter o carro perseguido até sua casa. Muitas pessoas influentes falaram coisas que eram verdadeiras. Eu não era um cara que saia para falar, não era um cara que respondia. Passei um período muito tranquilo, não queria expor, comentar e responder algumas coisas. Talvez eu tenha errado nesse período. Poderia ter falado, cortado. Sou um cara que não gosto de beber. A balada? A primeira vez que eu cheguei no Corinthians, eu era solteiro. E eu pensei: "vou conhecer os lugares em São Paulo para saber como eles são". Eu saí cedo do Brasil, não conhecia nada. Queria conhecer, mas não dava. As pessoas queriam te agarrar. Não sou de balada. Em Milão, eu saí quando fomos campeões do Campeonato Italiano. Sempre fui de namorar, já casei e hoje estou namorando. Penso logo em ter uma família porque já tenho experiência com gatos e cachorros e eu acho que está se encaminhando pra isso. Não vejo a hora também.

Sou um cara super profissional. Se chegar em qualquer clube, Corinthians ou São Paulo, e perguntar para as pessoas que trabalham ali, as pessoas que têm esse ambiente, que convive e vive, você pode perguntar. Se chegar e perguntar: "quem era o primeiro que chegava e o último que saía, as pessoas vão dizer que era eu". No São Paulo, eu só brigava com o Rogério (Ceni) porque era uma competição. Talvez, às vezes, eu não me expressar, ir para a frente da câmera falar... Isso acontece. Só eu sei o quanto batalhei, o quanto batalho, para viver uma vida boa. Eu batalhei muito, já chorei muito, já chorei quando perdi gol, quando meu time perde. Mas já sorri bastante. Não ver o seu nome na lista da Seleção, por exemplo, é triste. Não vou fazer um live para da minha vida para mostrar o que estou sentindo.

Você se sente no melhor momento da carreira?
Estou muito... É normal. Você cresce, aprende. Vão falar, hoje você está falando diferente de um tempo atrás. Você cresce. É um momento ótimo para eu buscar os meus objetivos. Na minha página da rede social, eu até coloco lá: "acredite nos sonhos". Tenho muitos sonhos. Aos poucos, alguns sonhos, eu não consegui realizar. Tive lesões, pausas. O sonho era voltar a Europa, voltei. Tenho outros sonhos. Vinte e sete anos, você olha... Já são dez anos. Hoje em dia, você tem muitas máquinas e se sente como se tivesse 19 anos.

Sua posição é carente, não é? Atacante de área não temos tantos.
A Seleção tem muitos jogadores. Tem jogadores ótimos. Trabalhei com o Tite no Corinthians, foi um cara sensacional, me ensinou muitas coisas. Quando fui para o Corinthians, nos falávamos por telefone, conversávamos, trocávamos ideia. Mas é normal acontecerem algumas coisas. É com um casamento, pai e mãe, amigos, não é sempre um mar de rosas. Tem o xingamento, tem hora que ele vai te xingar. É um cara que briga com você. Ele foi duro comigo, como os outros, só que o Fábio Santos também exagerou, falou que queria brigar, isso não existiu. Mas a dura em si, a dura direcionada do Tite em mim teve. Eu estava ali, triste, chorando, mas sabia da responsabilidade do que aconteceu naquele momento. O Tite é um cara profissional. É o treinador certo para esse momento do Brasil, para o futuro. Tenho certeza que vou trabalhar muito, me doar ao máximo, para fazer o possível para voltar a trabalhar com ele na Seleção. (NR: Pato marcou dez gols em 27 jogos pela seleção brasileira).

Tem alguma história bacana para contar dessa sua trajetória até aqui?
A minha estreia. Eu faço gol. Uma outra situação foi que discuti com o Maldini em campo. Tinha 18 ou 19 anos, mas era normal. Hoje falamos no telefone. Lembro até hoje o Ronaldo. Ele me deu uma assistência, eu chutei e errei. Aí ele disse: "Pato, você não vai me consagrar não?"

O que você pensa em fazer quando parar de jogar?
Se eu não fosse jogador, eu ia fazer fisioterapia. Sempre fui dessa parte de querer ajudar. Depois que voltei ao Brasil, aprendi muitas coisas dessa parte. Da parte da fisiologia. Está cedo para pensar nisso, mas lá na frente, esse vai ser o meu objetivo. De querer ajudar, de mostrar para aquelas pessoas, para aquele jogadores, as coisas que eu passei para que eles não possam passar. Hoje, eu pensaria nisso, mas o futuro não sabemos o que pode acontecer. 

 

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