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Tite critica violência e cobra que dirigentes melhorem atitudes

Técnico da Seleção diz que gostaria de ser um porta-voz pela paz e protesta contra a troca de técnicos no Brasil: ‘Está na hora de os dirigentes serem mais qualificados’

15 JUL 2017
Globo Esporte
10h51min
Foto: Mowa Press

O convidado do quadro "Fala, professor" desta sexta-feira foi o técnico da seleção brasileira, Tite. O treinador respondeu às perguntas de Carlos Cereto e dos internautas sobre a reta final de preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo, a vantagem do Corinthians na Série A. O treinador também protestou contra a violência nos estádios do país e afirmou querer ser um porta-voz pela paz. Além disso, também criticou os dirigentes pelas constantes trocas de técnicos no futebol nacional e cobrou: "Está na hora de os dirigentes melhorarem".

Confira toda a entrevista:

Carlos Cereto: Tem alguém que não gosta de você?

Tite: Tem, e tem gente de quem eu não gosto.

Carlos Cereto: Você vai convocar Sicrano ou Beltrano? Você ouve muito isso?

Tite: Ouço, digo que cada clube que eu vou assistir a um jogo ou vai alguém da comissão, eles saem ecoando no ouvido com algum nome específico.

Bassam Yasim: Você acompanha as críticas que saem nas redes sociais?

Tite: Não, eu acompanho mais vocês, da imprensa.

Carlos Cereto: A imprensa, o que se fala no dia a dia, influencia de alguma maneira o trabalho do técnico da Seleção?

Tite: Sim, tem um grau de influência. Se há, por parte da crítica, grandes pessoas dando a sua avaliação, vai ter um cuidado maior. Vai ser determinante? Não, o que vai ser determinante são os meus olhos.

Carlos Cereto: Mas incomoda a crítica?

Tite: Me incomoda a crítica quando ela tem uma informação errada. Eu fico com a pedra no bolso Até eu ter a oportunidade de falar pessoalmente, eu me sinto incomodado. Quando é das ideias, ela é da vida, é do jogo. Mas quando tem uma informação errada incomoda.

Carlos Cereto: Me-re-ci-men-to. O que significa para você isso?

Tite: Significa que você tem um desempenho técnico, mental e físico de alto nível. É um grande desafio. Ser justo humanamente é muito difícil. Precisamos de todas as possibilidades para fazer uma avaliação correta. Isso, eu me cobro demais, para trazer um atleta e dizer que ele merece a convocação por esses aspectos.

Carlos Cereto: Ainda sobre merecimento, como você avalia ser merecedor de ser técnico da seleção brasileira? Eu imagino que deve ser um sonho, deve ser muito bom.

Tite: Era um sonho até 2012. Quando teve o título mundial, eu fui para casa e me caiu a ficha: "Cara, agora você se credenciou, em função da carreira que você fez, a ser um dos postulantes a ser técnico da seleção brasileira". Eu nunca imaginei ser técnico, nunca escondi isso. Mas agora ser técnico da Seleção, que é o ápice de uma carreira, agora eu tenho essa possibilidade.

Carlos Cereto: No título mundial, você passou a ter currículo para ser técnico da Seleção. Mas quando você percebeu que deu o salto de qualidade? "Agora eu virei um técnico de ponta", se é possível fazer essa avaliação?

Tite: Por que eu falo em 2012? Porque, por vezes, tem grandes trabalhos que não são chancelados por títulos, mas são grandes trabalhos. Eu fui recuperar o São Caetano, 14º. Eu fui reucperar o Corinthians na zona de rebaixamento. Eu fui recuperar o Palmeiras, na zona de rebaixamento. Eu fui recuperar o Atlético-MG, que vinha mal e da zona de rebaixamento. Quando veio a oportunidade de vir para o Corinthians com uma equipe consolidada, forte. No Internacional, tínhamos perdido a Copa do Brasil no enfrentamento com o Corinthians. Era a possibilidade de, em um centro grande, mostrar um outro nível, de fazer bons trabalhos, como eu já tinha executado, mas sem a chancela do título.

Carlos Cereto: Eu lembrei porque estava junto, no avião, quando você era técnico do Palmeiras e voltou de um jogo com o Santa Cruz, no Recife. Na descida, tinha muita torcida, organizada, querendo a sua saída. E você fez questão de sair no meio dos torcedores.

Tite: Lembro exatemente. O pessoal me disse para eu passar pelo lado. Eu não vou passar pelo lado. Eu tenho dignidade de passar pela frente, não devo nada a ninguem. Eu posso olhar para qualquer um e saber do trabalho que eu fiz.

Weslley Luiz: Qual é sua opinião sobre a violência que está acontecendo nos estádios?

Tite: A gente tem que dar um basta. Se não houver punição, vai continuar essa sensação de dizer: "Estou no meio da torcida, no meio do público, vou fazer e não vai acontecer nada". Não dá para pagar o preço de um jogo de futebol com morte! Não dá! Eu quero ouvir, quero cada vez me integrar, ser um porta-voz, para que possa parar de alguma forma.

Bruno Almeida: O que é preciso mais: conhecimento tático ou gestão de pessoas?

Tite: Se não tive uma associada à outra. Você vai vai trabalhar em grupo. Mas, se não tiver conhecimento profundo da tua atividade, não se complementa. Quando eu era atleta, eu ficava cuidando se o meu técnico conversava com o Cereto e se o que ele dizia para o Cereto era o que ele falava no vestiário. Senão era uma brincadeira de faz-de-conta. Ele fala na impresa e lá é bonito, mas aqui, na hora de executar, ele não executa. Isso se chama credibilidade.

Carlos Cereto: Estou entrevistando o vovô Adenor.

Tite: Eu não me imaginava. As pessoas perguntavam a expectativa que eu tinha. Eu não tinha muita expectativa. Aí você a criança pequenininha, uma nova vida. Emociona. Pode me chamar de vovô, porque agora eu sou.

Matheus Menezes: Como é trabalhar com o filho, Matheus?

Tite: Humanamente, as duas coisas se fundem. Eu tenho um grau de exigência muito grande. Às vezes até maior, por ser meu filho. As pessoas próximas me dizem, que eu estava sendo excessivamente exigente com ele, coisas que com os outros não estava sendo.

Carlos Cereto: Já que eu estou na família, e Dona Rose?

Tite: Feliz pelo momento profissional também. Ela aguentou muita barra, muita barra minha, de desemprego, de situações difíceis. Eu sou muito grato a ela, pelo amor, pelo carinho a vida toda. Sou muito grato.

Veronildo Júnior: Por que tantos técnicos gaúchos na seleção brasileira?

Tite: Não vejo estados com escolas diferentes. Se nós pegarmos todos esses técnicos gaúchos, eles têm estilos diferentes, têm modelos de futebol diferentes. Por que vindo do Rio Grande do Sul especificamente, não sei... risos.

Cesar Bocão: O Brasil tem bons goleiros, entre eles Vanderlei e Cássio. Eles serão convocados?

Tite: É lógico, é natural. Vanderlei e Cássio estão (na lista de possíveis convocados). Ainda mais quando os atletas europeus estão retomando uma condição técnica. Aumentam as chances dos jogadores do Brasil, tanto os goleiros que tu citaste, como dos que já foram convocados. Primeiro: ser justo nas convocações, no momento dos atletas. Ter uma convocação racional, justa, ponderada, acompanhada. Consolidar uma forma de jogar, com uma ideia de impor o jogo, de ter a bola, de agredir o adversário. Quero formar um meio de campo forte.

Leow Ique Rodrigues: O que acha dessa fala de sequência que os dirigentes dos times não dão aos técnicos?

TIte: A gente tem que estar sempre melhorando em todas as atividades. A primeira coisa, após o Mundial, caiu um peso, uma responsabilidade em cima dos técnicos, das comissões técnicas, dos auxiliares, para melhorar. O público hoje quer torcer e quer entender futebol. Está na hora de os dirigentes melhorarem. Está na hora de os dirigentes serem mais qualificados. Está na hora de os dirigentes terem coragem e um preparo, para que possam escolher um executivo, que saiba avaliarem que tipo de modelo de futebol você quer. Há necessidade da Lei Caio Júnior, de ter uma regulamentação da nossa atividade. Ela está a esmo.

Bruno Olivetti de Mattos: A situação política do Brasil influencia de alguma maneira a seleção brasileira?

Tite: Talvez aqueles atletas que não vivem no dia a dia aqui, que estejam no exterior, não com tanta profundidade. Mas o atleta tem sim, o técnico tem, a comissão técnica tem. A gente tem a prioridade, que é fazer a nossa atividade. Mas nós acompanhamos e temos uma opinião clara a respeito.

Bruno Olivetti de Mattos: Como manejar os diferentes costumes e religiões dos jogadores convocados?

Tite: Fazer o bem. A religiosidade, espiritualidade, crença, para mim se resume a fazer o bem. O predisposto a fazer o bem. Gosto muito mais de quem fica mais distante e é leal do que da brincadeira de faz-de-conta. A nossa classe é muito competitiva, por vezes atritos acontecem e distanciamentos acontecem. Fica distante. É muito melhor que simular uma outra situação.

Golçalina Ribeiro: Você ainda sente frio na barriga na hora de uma partida?

Tite: No último jogo, contra a Austrália, eu pensei : "Cara, até que ponto você está sendo justo, modificando uma equipe toda, fazer três trabalhos táticos, e vai enfrentar a Austrália sem o mínimo entrosamento?" Eu falava comigo mesmo: "Que chance é essa que você está dando para os atletas? Que oportunidade é essa?". Eu tinha que encontrar uma forma de deixá-los coordenados, vai no trabalho tático. Aí começa o jogo, a coisa não engrena, o frio na barriga bate. É o fascínio da bola.

Carlos Cereto: Já imaginou como vai estar esse friozinho na barriga na Copa do Mundo, na estreia da Copa do Mundo?

Tite: O primeiro jogo, de estreia, vai mexer muito emocionalmente. Quero estar preparado e preparar os atletas, porque não tive essa experiência. Tive no Mundial, mas não tive na Copa do Mundo.

Carlos Cereto: Você falou sobre isso: a Seleção está classificada, mas ainda está seguindo etapas do processo. Ainda tem vaga aberta, a Seleção está fechada, você já tem um grupo na cabeça?

Tite: Por que eu falo sobre os atletas competirem entre eles? Porque, quanto mais tu fomentar a competição leal entre eles, o nível técnico vai se elevar. Quanto mais em alto nível estiverem jogando, mais a possibilidade de disputa, de colocar pressão. Alto nível é o nível de exigência que a gente quer. Tem que manter a regularidade em alto nível. Senão a cada 15 dias eu tenho que convocar um atleta, porque ele despontou. Então isso vai abalizando, vai dando mais consistência. A avaliação tem que ser mais ampla.

Armando Serpa: Quais os jogadores que estão te chamando a atenção no Campeonato Brasileiro?

Tite: Talvez os dois mais jovens que me chamaram a atenção: o Douglas e o Arthur. Eles têm sido bem notórios e são jovens, de seleção de base. Pelo aproveitamento nas equipes, você já percebe que ali tem algo diferente.

Marcelo Reis: Suas convocações são planejadas a partir de um esquema tático ou o esquema tático define a lista?

Tite: Hoje, o esquema tático define a convocação. Ele vai estar inserido dentro de uma ideia de futebol. Há um modelo, uma forma, uma ideia de futebol. Dentro dessa ideia, os atletas são convocados.

Carlos Cereto: Tite, quem vai ser o campeão brasileiro? Uma pergunta fácil para você.

Tite: O Corinthians está com um passo dado. É um terço do campeonato, isso é extremamente significativo, com a vantagem que tem. Mas está aberto o campeonato.

Carlos Cereto: Quando você olha para o Corinthians, você se enxerga? Como se estivesse olhando para o espelho? Ou não?

Tite: Depende do Corinthians que você fala... (risos). Na minha fase, foram três Corinthians, com três caras diferentes. Ele tem a cara do Carille.

 

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