O luto pelo suicídio do então presidente Getúlio Vargas ainda pairava sobre todo o território nacional, quando o Hotel Gaspar, localizado na esquina da Rua Calógeras com a Avenida Mato Grosso, na região central de Campo Grande, foi inaugurado. Apesar de haver motivo para uma festa em dobro, pois, além do primeiro dia de funcionamento do local, também se comemorava o aniversário de Campo Grande, sequer uma nota de música ou resquício de baile ecoou naquele 26 de agosto de 1954, nos quatro andares do estabelecimento.
As lembranças daquele dia não foram presenciadas por Chris Gaspar Melin, 45 anos, neta de Antônio Gaspar, responsável pela criação do hotel, mas lhe foram repassadas pela genética lusitana, bem como o gosto pelo local, que preserva há 15 anos, com o cunhado, César Augusto. Conforme Cris, antes do avô se aventurar pelo ramo hoteleiro, mantinha uma bar na Rua 14 de Julho. “Com o tempo e a chegada do 'trem', ele achou que a cidade carecia de hotéis e, então, começou a construção em 1950”, relembra.

A charmosa equina ajuda a atrair clientes. (Foto: Geovanni Gomes)
O espaço não foi apenas um ganha-pão da família Gaspar, mas o lar do avó português, até dezembro de 1988, quando faleceu. Sua esposa, Mariana Gaspar, continuou no local, até 1999, quando os netos assumiram a administração, depois de um arrendamento de 10 anos. Apesar de preservar a aparência antiga, o hotel passou por diversas mudanças até chegar às mãos da terceira geração.

Antônio e Mariana Gaspar. (Foto: Geovanni Gomes)
Conforme Chris, as modificações ocorreram principalmente, para atender à extensa demanda exigida pela localização do hotel. Em frente à Estação Ferroviária, o local era disputadíssimo entre os passageiros que desembarcavam na Capital. “O pessoal nem passava pelo portão de desembarque. Pulavam direto o muro, para chegar aqui primeiro e não ficar sem vaga”, explica.

Apaixonada por coisas antigas Chris tenta ao máximo preservar a história do local. (Foto: Geovanni Gomes)
A primeira reforma ocorreu no final da década de 1960, com a construção do quarto andar, onde, antes, funcionava uma espécie de terraço. Já na década de 70, os quartos de frente para rua, que contavam apenas com banheiros coletivos, transformaram-se em apartamentos. Além disto, os extensos corredores que compunham todos os andares foram transformados em quartos sem janelas, para atender a demanda de hóspedes. Eram 20 dos 80 quartos de todo o hotel. Atualmente, o estabelecimento opera com apenas 60 apartamentos.
Não eram apenas os passageiros do trem que tinham preferência pelo hotel. Acompanhando os anos de maior desenvolvimento da principal cidade do sul de Mato Grosso, o Hotel Gaspar acabou abrigando, ainda em seus primeiros anos de funcionamento, o guichê de embarque de ônibus intermunicipais e interestaduais.

O quartos sem janela, são utilizados atualmente como almoxarifado. (Foto: Geovanni Gomes)
Hóspedes ilustres
De acordo com Chris, a localização do estabelecimento não era apenas motivo de elogio. “Os hóspedes que pediam quartos virados para rua brincavam e diziam: Quero um de frente para o mar. Mardito trem”, relembra com bom-humor. Mas, nem mesmo o incômodo barulho era capaz de abalar o prestígio do local.
Nomes ilustres, na época, como do ex-presidente Emílio Médici, Jânio Quadros e o ex-senador Filinto Müller figuraram no registro do local. Artistas como o cantor Cauby Peixoto e a atriz e cantora Ângela Maria também têm registro entre os hóspedes.

Registros históricos do local são preservados. (Foto: Geovanni Gomes)
Apesar dos renomados brasileiros, o mais ilustre hóspede do hotel teria sido um misterioso estrangeiro. Há boatos de que o revolucionário comunista Ernesto Guevara, o Che, teria se hospedado no hotel, na década de 60, poucos anos antes de seu assassinato na Bolívia, em 8 de outubro de 1967. Chris não confirma a história, que se tornou uma verdadeira lenda. “Pode até ter se hospedado, mas não com este nome”, afirma. Mesmo com o passar dos anos, o hotel conseguiu manter o número de hóspedes. De acordo com Chris, de 35 a 40 pessoas passam pelo local, diariamente.
Mobílias antigas e locação de cinema
O ar histórico acabou se tornando o maior diferencial do hotel. Para manter a atmosfera ímpar, Chris preserva boa parte dos móveis da época do avô. Até mesmo, as máquinas da lavanderia são da década de 50 e ainda funcionam, deixando lençóis e toalhas branquinhos. “Eu gosto muito de coisas antigas. Acredito que a essência da cidade está no antigo”, explica.

Máquina PADX utilizada por telefonista. (Foto: Geovanni Gomes)
O ar sóbrio, mas charmoso, chama a atenção de diversos produtores culturais, que acabam utilizando o local como cenário. Conforme Chris, cenas do filme ‘Cabeça a Prêmio’ (2009), dirigido por Marco Ricca, chegaram ser gravadas no hotel, além de inúmeros editoriais de moda.







