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Camara Maio

Ativista da década de 60 vira escritora e eterniza o passado em poemas

Uma vida dedicada bem

15 FEV 2014
Renan Gonzaga
06h00min
(Foto: Renan Gonzaga)

Nadir Brandão nasceu em Ribas do Rio Pardo, interior do Estado e hoje tem 74 anos bem vividos. Quando jovem, na década de 60, foi uma brava ativista social em Campo Grande, daquelas que levava desconhecidos da rua, vítimas do sistema, para se alimentar e dormir em sua própria casa. Também perdeu as contas de quantos ex-detentos ajudou a reinserir no mercado de trabalho.


“A pessoa quanto mais pobre, mais desprezada é. Então, para defender aquele que não tem voz e nem vez, eu quis fazer a minha voz valer alguma coisa”, explica a mulher que trabalhou durante décadas como funcionária pública em Campo Grande, época em que se considerava polêmica pelo fato de lutar pelas injustiças sociais.


Um dos casos mais marcantes aconteceu na década de 70 quando ela trabalhava no Mercadão Municipal e viu uma menina de 10 anos sendo espancada por jovens do antigo projeto “polícia mirim”, após ser pega roubando. “Eu desci feito uma ventania, cheguei lá e falei para não encostarem mais o cassetete na guria”, afirma.


De lá as duas foram para a delegacia. A intenção de Nadir garantir que a menor não sofresse nenhum abuso por parte dos presidiários, tanto que conseguiu autorização para levar a pequena para dormir em sua casa e no outro dia ajudou os policiais a procurar a mãe dela. “Ela era danada e mentiu onde morava porque não queria ficar com a mãe que batia demais nela”, conta.


"Baladas de um Amor Eterno" é o seu primeiro livro. (Foto: Renan Gonzaga)


No final, depois de muito andar pela cidade, a menina revelou que possuía um tio que servia no exército e então decidiram entregar a guarda para ele. Apesar de ser confirmada a existência do homem no batalhão, ele não foi encontrado no local. Então, depois um tempo localizaram a mãe e finalmente a menina foi entregue.


Outro caso memorável foi no ano de 1975 quando seu sobrinho encontrou um menino na rua que foi acolhido pela família. “De repente eles vieram com um menino com cabelo grande, todo sujinho. A gente arrumou uma cama e a minha mãe deu uma sopa que ele comeu, depois deitou e dormiu. Quando acordou, ele falou que não queria ir para dele para não apanhar da mãe”.


“No outro dia meu sobrinho levou ele para cortar o cabelo, e como estava cheio de piolho, rasparam a cabecinha dele. Ele ficou quatro meses com a gente, depois a mãe apareceu e levou. Eu ia registra-lo com meu filho, mas o Joãozinho quis ir embora. Passado muito tempo um colega de trabalho 0 encontrou na rua, pedindo dinheiro na rodoviária”, relembra.


Na época em que não existia o “Serviço Social”, se dedicou também a inserir ex-presidiários no mercado de trabalho. Ela levava os detentos de carro até os locais para entrevista e também conversava com os contratantes. “Nesse tempo eu estava na Agência de Emprego, era um trabalho muito bonito”, reconhece. Porém, ressalta alguns davam certo e outros não.


Orgulhosa, Nadir exibe suas pinturas feitas em cadernos. (Foto: Renan Gonzaga)

Depois de aposentada, na década de 90, decidiu virar artista enquanto cuidava de sua mãe. Começou a pintar cartões, antes mesmo de fazer cursos de pintura. E em 2001 lançou seu primeiro livro, chamado “Baladas de um Amor Eterno”, que é uma coletânea de mensagens, pensamentos, cartas e poemas sobre tudo que presenciou durante sua vida.



Mas a ideia de publicar o material surgiu bem antes, na época em que trabalhava na Secretaria de Promoção Social da Capital e foi incentivada pelos colegas de trabalho. “Esse livro tem escritas minhas de muito anos atrás, de quando eu nem sonhava em lançar um livro, eu apenas ia guardando muitas coisas escritas”, comenta.


Hoje busca apoio para publicar sua segunda obra, com orações, poesias, sonhos e mensagens. “Ainda vou ter que fazer toda a revisão, mas eu gostaria que alguém me ajudasse a lançar esse outro livro, se não puder neste ano, pelo menos no começo do ano que vem”, explica a sul-mato-grossense que começou a escrever em agendas que recebia de presente nos serviços.


Depois de tanto tempo e tantas histórias de luta pela justiça ela reconhece que seu grande exemplo foi seu pai, um delegado de Ribas do Rio Pardo que passou valores que ela carrega até hoje. "Somos de uma família muito grande, de 15 irmãos e meu pai era muito bravo, mas também era muito justo. Tudo o que eu aprendi com ele foi muito bom", finaliza. 

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