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04/09/2014 07:15

Bem além do sugar, professor faz de mate, tereré e chimarrão tema de coleção

Ka'á

Detalhes sutis, até mesmo para quem está acostumado a consumir infusões de erva-mate, se tornaram objeto de prazer e estudo do engenheiro agrônomo, Rubens Silvestrini, 51 anos. Em conversa regada com um típico tereré pantaneiro, em que a água é servida em um grande balde de metal com gelo, o colecionador apresentou suas peças mais raras e mostrou um vasto conhecimento histórico sobre o assunto.


Apesar de ser nas cuias, guampas e bombas que fica explícita sua paixão, é na própria erva que começam as curiosidades. "Eu falo que não tomo nem tereré nem mate, mas ka'á, que era como os índios Guaranis se referiam à infusão de ervas que tomavam há 3 mil anos atrás", afirma. A simplicidade que surgiu com os indígenas, pois inicialmente era consumida com bomba feita de bambu ou com o osso das pernas de alguma ave perfurado, contradizem o símbolo de status que ganhou com a chegada dos espanhóis.


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Bombas de osso e bambu eram inicialmente utilizadas pelos índios Guaranis. (Foto: Deivid Correia)


De acordo com Silvestrini, a erva-mate se tornou hábito também de estrangeiros há 500 anos com a colonização espanhola. Para demonstrar sua nobreza, a infusão de caá passou a ser tomado em belas cuias de prata, minério de grande valor e principal alvo dos interesses europeus em terras sul-americanas. Apesar disto, a erva não ficava atrás do metal em questão de valores. "Era muito cara. Tinha preço de ouro", explica o engenheiro.


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Parte da coleção de cuias utilizadas nas colonias espanholas. (Foto: Deivid Correia)


Foi do contato com estas terras onde o mate, como é chamado na América espanhola, que surgiu com a influência dos estados fronteiriços como Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. É deste trajeto também o batismo das infusões. É chamada Mate em países como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. No sul do Brasil, recebeu a alcunha de Chimarrão e com a água natural da planície pantaneira e do chaco paraguaia se o fez Tereré.

 

Uma evolução artesanal


Os bons livros sobre o assunto só fizeram com que Rubens direcionasse melhor suas buscas em antiquários e feiras de antiguidades mundo afora atrás de peças que lhe interessam desde os 15 anos de idade. O acervo impressiona e tem entre suas relíquias cuias de prata do século XVII. E não é somente a idade digna de atenção, mas a aparência. Toda trabalhada em prata, com detalhes em ouro, uma delas é acompanhada por uma bomba curiosa, em que o formato imita o de uma gaiola com um pássaro no meio.


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Cuia do século XVII e guampa de chifre, em que se costuma tomar o tereré. (Foto: Deivid Correia)


Conforme Silvestrini, detalhes ricos como este acabaram se perdendo com o tempo. A coleção permite ver essa evolução na produção de peças. Com os anos, a ricas cuias de prata foram substituídas por cabaça e até procelana, cristal e vidro, mas tudo sem perder o requinte. “Vemos uma evolução no modo artesanal de cada uma”, analisa.


O mesmo processo é notado entre as bombas, em que o colecionador apresenta desde peças mais primitivas, como as utilizadas pelos índios Guaranis, até peças mais contemporâneas, que na sua maioria são produzidas com aço inoxidável. Durante a evolução, tiveram também como matéria-prima madeira e prata. 


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Coleção de cuias. (Foto: Deivid Correia)


Entre as Guampas, que costumam ser utilizadas para o consumo de tereré, a variedade é menor. “Não há tantas peças de tereré, pois a cultura de infusões no Brasil é mais recente, de cerca de 200 a 250 anos”, explica. Apesar da pouca variedade foi este item que despertou o interesse do colecionador.


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Guampa que deu início a coleção de Silvestrini. (Foto: Deivid Correia)


Tudo começou com uma história digna de faroeste. A peça que encantou tanto era uma guampa com que o avô de Silvestrini foi presenteado no ano de 1949. Conforme o engenheiro, a peça foi agrado de um pistoleiro do antigo Mato Grosso, de nome Waldivino ‘Pau de Fogo’. “A peça traz um auto-retrato dele desenhado no chifre de boi”, explica. Com traços rudes, mas bem feitos podemos ver um cavaleiro de chapéu com um revólver em um das mãos.


Originalmente, o tereré pantaneiro e tomado diretamente com água do rio. (Foto: Deivid Correia)

Acervo de peças relacionadas ao tereré é menor por ser bebida mais recente. (Foto: Deivid Correia)


Repassado ao neto, a guampa serviu como norte para uma pesquisa aprofundada por toda a cultura envolvendo as infusões de ka'á na América do sul, mas especialmente sobre o Tereré. Percebendo a disparidade entre as publicações sobre chimarrão e mate, Silvestrini, influenciado por amigos, resolveu colocar no papel tudo que sabia sobre a bebida sul-mato-grossense. Sem previsão para o lançamento, o livro segue em produção e conforme o engenheiro aumenta um ponto a cada dia que passa. Coisa típica de quem estuda algo com paixão.


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