Detalhes sutis, até mesmo para quem está acostumado a consumir infusões de erva-mate, se tornaram objeto de prazer e estudo do engenheiro agrônomo, Rubens Silvestrini, 51 anos. Em conversa regada com um típico tereré pantaneiro, em que a água é servida em um grande balde de metal com gelo, o colecionador apresentou suas peças mais raras e mostrou um vasto conhecimento histórico sobre o assunto.
Apesar de ser nas cuias, guampas e bombas que fica explícita sua paixão, é na própria erva que começam as curiosidades. "Eu falo que não tomo nem tereré nem mate, mas ka'á, que era como os índios Guaranis se referiam à infusão de ervas que tomavam há 3 mil anos atrás", afirma. A simplicidade que surgiu com os indígenas, pois inicialmente era consumida com bomba feita de bambu ou com o osso das pernas de alguma ave perfurado, contradizem o símbolo de status que ganhou com a chegada dos espanhóis.

Bombas de osso e bambu eram inicialmente utilizadas pelos índios Guaranis. (Foto: Deivid Correia)
De acordo com Silvestrini, a erva-mate se tornou hábito também de estrangeiros há 500 anos com a colonização espanhola. Para demonstrar sua nobreza, a infusão de caá passou a ser tomado em belas cuias de prata, minério de grande valor e principal alvo dos interesses europeus em terras sul-americanas. Apesar disto, a erva não ficava atrás do metal em questão de valores. "Era muito cara. Tinha preço de ouro", explica o engenheiro.

Parte da coleção de cuias utilizadas nas colonias espanholas. (Foto: Deivid Correia)
Foi do contato com estas terras onde o mate, como é chamado na América espanhola, que surgiu com a influência dos estados fronteiriços como Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. É deste trajeto também o batismo das infusões. É chamada Mate em países como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. No sul do Brasil, recebeu a alcunha de Chimarrão e com a água natural da planície pantaneira e do chaco paraguaia se o fez Tereré.
Uma evolução artesanal
Os bons livros sobre o assunto só fizeram com que Rubens direcionasse melhor suas buscas em antiquários e feiras de antiguidades mundo afora atrás de peças que lhe interessam desde os 15 anos de idade. O acervo impressiona e tem entre suas relíquias cuias de prata do século XVII. E não é somente a idade digna de atenção, mas a aparência. Toda trabalhada em prata, com detalhes em ouro, uma delas é acompanhada por uma bomba curiosa, em que o formato imita o de uma gaiola com um pássaro no meio.

Cuia do século XVII e guampa de chifre, em que se costuma tomar o tereré. (Foto: Deivid Correia)
Conforme Silvestrini, detalhes ricos como este acabaram se perdendo com o tempo. A coleção permite ver essa evolução na produção de peças. Com os anos, a ricas cuias de prata foram substituídas por cabaça e até procelana, cristal e vidro, mas tudo sem perder o requinte. “Vemos uma evolução no modo artesanal de cada uma”, analisa.
O mesmo processo é notado entre as bombas, em que o colecionador apresenta desde peças mais primitivas, como as utilizadas pelos índios Guaranis, até peças mais contemporâneas, que na sua maioria são produzidas com aço inoxidável. Durante a evolução, tiveram também como matéria-prima madeira e prata.

Coleção de cuias. (Foto: Deivid Correia)
Entre as Guampas, que costumam ser utilizadas para o consumo de tereré, a variedade é menor. “Não há tantas peças de tereré, pois a cultura de infusões no Brasil é mais recente, de cerca de 200 a 250 anos”, explica. Apesar da pouca variedade foi este item que despertou o interesse do colecionador.

Guampa que deu início a coleção de Silvestrini. (Foto: Deivid Correia)
Tudo começou com uma história digna de faroeste. A peça que encantou tanto era uma guampa com que o avô de Silvestrini foi presenteado no ano de 1949. Conforme o engenheiro, a peça foi agrado de um pistoleiro do antigo Mato Grosso, de nome Waldivino ‘Pau de Fogo’. “A peça traz um auto-retrato dele desenhado no chifre de boi”, explica. Com traços rudes, mas bem feitos podemos ver um cavaleiro de chapéu com um revólver em um das mãos.

Acervo de peças relacionadas ao tereré é menor por ser bebida mais recente. (Foto: Deivid Correia)
Repassado ao neto, a guampa serviu como norte para uma pesquisa aprofundada por toda a cultura envolvendo as infusões de ka'á na América do sul, mas especialmente sobre o Tereré. Percebendo a disparidade entre as publicações sobre chimarrão e mate, Silvestrini, influenciado por amigos, resolveu colocar no papel tudo que sabia sobre a bebida sul-mato-grossense. Sem previsão para o lançamento, o livro segue em produção e conforme o engenheiro aumenta um ponto a cada dia que passa. Coisa típica de quem estuda algo com paixão.







