Salto alto, vestido e um capacete de melancia para completar. O trajeto percorrido pela psicóloga, Patrícia da Cunha Montaño, 35 anos, sobre uma bicicleta estampada de onça-pintada, é tão cheio de características inusitadas que é incapaz de colocar tudo em um título de apenas 72 caracteres. Com jeito único de pedalar, a campo-grandese é uma das precursoras do uso da bicicleta como transporte em João Pessoa (PB) e se tornou atração na cidade desde que se mudou para lá, há cinco anos.
Como ter uma bicicleta é quase regra na infância, o primeiro contato não foi muito diferente para Patrícia. Passada a fase da brincadeira, o meio de locomoção se tornou necessidade. Aos 15 anos, ela começou os trajetos curtos por Campo Grande. As boas horas passadas sobre rodas, fez com que seu olhar diante da cidade fosse diferente. "Comecei a perceber que as cidades estavam cheias de carros. Vi que o uso excessivo deste transporte individual era ruim para a vida orgânica e saúde do meio urbano", explica.
Desde então, a psicóloga veio desafiando o asfalto. Se tornou uma verdadeira militante da causa e ganhou ainda mais destaque quando se mudou para João Pessoa. Na capital do Pantanal, a parceira era um MTB (mountain Bike) adaptada com bagageiro para uso urbano, mas, na nova cidade, a praia e o casario histórico eram um convite irrecusável para a aquisição da primeira bicicleta urbana.
O hábito contínuo da recém-chegada apresentou uma alternativa à população da capital paraibana. "Antes quem usava mesmo era a população mais pobre, que não tinha outro meio de transporte. Já eu, mulher, pós-graduada, classe média, branca, tendo carro, escolhendo a bicicleta como meu principal meio de transporte, é a prova viva que é possível fazer diferente", explica.
A causa ganhou ainda mais visibilidade, quando a bicicleta de cor preta recebeu a primeira reforma e se tornou uma homenagem a terra natal de Patrícia. A estampa de onça-pintada foi uma forma de lembrar as raízes enaltecendo um dos animais símbolos do Pantanal.
Somado a causa, veio também um capacete bem diferente. A escolha é intencional, afinal, que nunca ouviu que quem quiser aparecer é só por uma melancia na cabeça? E essa é justamente a intenção. Marginalizados no trânsito, os ciclistas podem recorrer a artifícios como estes para serem vistos pelos condutores de carros, ônibus e motocicletas.

Patrícia desafiando os carros. (Foto arquivo pessoal)
Nas mãos da psicóloga, o grito de "olha eu aqui" em meio a uma verdadeira "carrocracia", como ela mesma define, ganhou traços de vaidade. Para provar que quase nada justifica a dispensa da bicicleta, o salto alto e o vestido também estão presentes no trajeto. "Considero que ao sair arrumadinha, maquiada, perfumada, numa bicicleta, estou levando mais delicadeza e humanidade à cidade", afirma.

Capacetes descolados são alternativa para chamar atenção no trânsito. (Foto: arquivo pessoal)
João Pessoa X Campo Grande
Apesar de se considerar paraibana de coração, Patrícia admite que a cidade ainda tem muito a melhorar em relação a mobilidade urbana. Para ela, Campo Grande teve mais incentivo, como, restringir o estacionamento na maior avenida da capital, a Afonso Penna. "Foi um passo importante para voltar a cidade para o bem-estar das pessoas", afirma.
De acordo com a psicóloga, a situação se agrava por João Pessoa ser muito antiga, ter ruas estreitas, que, em sua maioria, são de mão dupla, possibilitando que carros estacionam de ambos lados da via. "O nosso país é atrasado em urbanicidade e, também, na maneira que as pessoas pensam os espaços públicos".







