O aplicativo do Facebook sempre sinalizará que ‘não há tradução disponível’ para a maioria das frases postadas pelo poeta Douglas Diegues, 39 anos. Isto por que a maioria é escrita em uma linguagem denomina por ele de Portunhol Selvagem. Uma interlíngua resultante da mistura do português, do castelhano e do guarani. A verdade é que o era para ser apenas objeto de estudo e instrumento de trabalho impregnou tanto sua vida que até mesmo as mais descontraídas conversas são pinceladas de expressões na tal língua, que aos sul-mato-grossenses pode soar bem familiar.
Localizado na fronteira com o Paraguai e lar dos antigos índios guaranis, a cidade sul-mato-grossense de Ponta Porã, distante 324 quilômetros de Campo Grande, é onde esta linguagem de ares rebeldes e primitivos mais se manifesta. De mãe paraguaia e pai carioca, Douglas nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado na cidade fronteiriça onde aprendeu o portunhol selvagem antes de aprender o português-brasileiro e o castellano-paraguayo. Depois se encantou com a língua e a arte da palavra dos guaranis.

(Foto: Arquivo Pessoal)
"Escrevo em portunhol, porque para mim é mais gostoso e divertido escrever com liberdade de linguagem ao invés de escrever como um bom aluno, que sempre está tentando provar às autoridades como escreve bem na língua em que foi ensinado a escrever", explica sobre sua opção.
A liberdade proporcionada pela língua ao escrever seus poemas está relacionada ao conceito de etnopoesia. Um dos estudiosos mais relevantes dentro deste gênero no Brasil, Douglas explica que o conceito foi criado nos Estados Unidos pelo poeta Jerome Rothenberg e tem como base a descoberta de que algumas formas de poesia e de arte das sociedades primeiras, não eram apenas semelhantes à poesia e a arte dos poetas e artistas experimentais modernos. A partir disto, Diegues se especializou nos estudos das poéticas dos povos indígenas do Brasil.
A linguagem buscada por Douglas também pode ser entendida diante da estética dos poemas de outro bicho destes matos. Com sua selva linguística, Manoel de Barros, foi influência para que Douglas persistisse na linguagem rebelde da tríplice fronteira, tão incomum quanto a utilizada pelo mais velho. “O considero ele um ‘abuelo’ selvagem, um ancestral, que me transmitiu a lâmpada selvagem”, afirma com bom humor.
Como forma de popularizar seus livros e outros escritos feitos nesta língua, o poeta criou em 2007, a editora Yiyi Jambo, em Assunção, que publica em edições artesanais autores do Brasil e do Paraguai, além de traduções para o Portunhol Selvagem. O nome quer dizer ‘garota (cor de) jambo e é uma gíria nascida em Cateura, o maior lixão do Paraguai, situado em Assunção. A origem do nome tem a ver com fato de suas capas serem feitas de papelão, recolhidos das ruas paraguaias e vendidos a 1000 guaranis o quilo.
Pintadas a mão com tinta guache e com folhas unidas por costura, a ideia atraiu diversos autores, entre eles, o escritor e jornalista colunista do jornal Folha de São Paulo, Xico Sá, que lançou exclusivamente pela editora o livro ‘La Mujer És un Gluebo da Muerte’. “Um livro cartonero tem a graça selvagem do ‘it yourself’, da estética punk. As capas nunca se repetem. Os livros são vendidos a R$10. Mas os mais elaborados custam R$15. Cada exemplar tem um charme selvagem que seduz leitores de todas as partes do mundo”, explica.

(Foto: arquivo pessoal)
Em 2010 a editora mudou-se para fronteira de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. Conforme o poeta, em breve será inaugurado na cidade o primeiro café literário Yiyi Jambo. “Será o primeiro café literário cartonero do mundo”, afirma. Ali o público poderá ler livros de várias cartoneras do mundo, além de produzí-los.
Para ler poemas em Portunhol Selvagem e saber mais sobre a os livros cartoneras da editora Yiyi Jampo é só acessar o endereço http://yiyijambo.blogspot.com.br/. Em Campo Grande os livros cartoneros podem ser encontrados para venda na loja Subcultura Records, rua Dom Aquino, 694, Térreo (Antiga Rodoviária, ao lado das escadas), na Antiga Rodoviária.







