Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, o escritor Itamar Vieira Junior esbanjou simpatia ao revelar curiosidades sobre seus livros de sucesso, refletir sobre o impacto da inteligência artificial na literatura e dialogar com leitores durante a Bienal Pantanal, realizada nesta terça-feira (6), em Campo Grande.
Conhecido pelos romances Torto Arado e Salvar o Fogo, Itamar abordou temas centrais da chamada Trilogia da Terra: território, ancestralidade e subjetividade. Também adiantou que Coração Sem Medo, com lançamento previsto para a próxima segunda-feira (13), mostrará personagens que deixam o interior em direção à capital baiana em busca de uma vida melhor.
“A escrita ainda é humana”
Ao TopMídiaNews, o autor refletiu sobre o avanço da tecnologia e a presença crescente da inteligência artificial na criação literária. Embora reconheça os benefícios da inovação, ele considera que a escrita continua sendo um ato profundamente humano.
“Eu sei pouca coisa de inteligência artificial. Acho que eu sei o senso comum. Acho que o que ela pode nos fornecer, hoje, não é muito diferente do que a internet tem nos oferecido ao longo do tempo”, afirmou.
Segundo Itamar, a IA pode facilitar o acesso à informação, mas não consegue reproduzir a subjetividade que define a literatura.
“Tudo que a inteligência artificial nos dá precisa ter sido criado pelo ser humano antes. [...] Ela ainda não é capaz de ter uma escrita autoral, ela não é feita de subjetividades. O ser humano é feito de sentimentos. A inteligência artificial, eu acho que não.”
Questionado sobre a possibilidade de uma máquina recriar as realidades que ele retrata, como comunidades rurais, quilombolas e indígenas, o autor foi categórico: “ela tem capacidade de ter todo tipo de informação. Desde que já exista, pré-exista essa informação. Mas daí elaborar isso, dar um sentido literário, um sentido poético... não sei, acho que não”.
Momento de descontração do escritor durante a Bienal (Redes Sociais/Bienal Pantanal)
Referências e personagens
Durante a conversa, Itamar também comentou sobre suas influências literárias. Questionado se Bibiana, personagem de Torto Arado, foi inspirada em Bibiana Terra, do escritor Érico Veríssimo, ele confirmou a admiração pelo autor gaúcho, mas destacou que sua personagem tem múltiplas origens.
“Eu sempre conto que essa Bibiana tem muitas origens. Com certeza, o Érico Veríssimo foi um autor importante na minha vida, na adolescência. E deixou marcas profundas. Acho que, em certa medida, é uma homenagem também à Bibiana do Érico.”
Mais tarde, ao público da Bienal, revelou que escreveu seu primeiro romance sob o pseudônimo Terra, símbolo da ligação profunda que mantém com o chão e as raízes que movem suas narrativas.
Vivência e subjetividade
Ex-servidor do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Itamar contou que o contato direto com o campo foi decisivo para a construção de sua literatura.
“Poder trabalhar como servidor público, poder conhecer o campo em profundidade. Acho que isso me deu um repertório único para que eu pudesse escrever essas histórias a partir deste lugar. Tudo aquilo que vivi e experimentei como servidor foi decisivo para que eu escrevesse a história do jeito que ela foi escrita.”
O autor também refletiu sobre o processo criativo e o lado emocional da escrita, evocando a dor e o prazer que coexistem na arte. “Escrever é um pouco parecido com a vida. A vida não é feita só de prazeres, né? Ela também é feita de certa dose de sofrimento. [...] A dor acontece porque somos humanos e estamos escrevendo sobre a vida humana. Mas ela não é tudo que a escrita pode nos dar.”
Esperança como força de criação
Ao comentar temas recorrentes em sua obra como a luta pela terra, as relações sociais e a resistência dos povos tradicionais, Itamar destacou a importância de manter uma postura otimista.
“Eu preciso ser otimista. Porque eu acho que o pessimismo não vai nos ajudar em nada. Por mais difícil, por mais lento, por mais doloroso que seja, eu preciso conservar uma certa dose de otimismo. Acho que eu escrevo por isso também. [...] A escrita pode nos humanizar.”
Para ele, a literatura tem poder de transformação tanto para quem escreve quanto para quem lê. “Compartilhar meus sentimentos com os leitores pode ser um fator de mudança. [...] Não podemos fantasiar a nossa história, o nosso passado. Ele precisa ser contado exatamente como é o cotidiano hoje, para que, a partir dessa experiência, a gente possa projetar um futuro diferente.”
Primeira visita a Mato Grosso do Sul
Em sua primeira vinda a Campo Grande, Itamar demonstrou interesse em conhecer mais sobre o estado e suas expressões culturais.
“O Brasil é esse continente. Eu vivo a reboque dos convites. [...] Conheço um pouco da literatura do Manoel Barros. Eu conheço a paisagem. Como geógrafo, eu precisei estudar essa diversidade do bioma. Mas para descobrir mais sobre Mato Grosso do Sul, eu acho que eu precisaria ficar um bom tempo aqui, né? E ler mais sobre o estado.”
O escritor ainda revelou seu livro favorito do poeta pantaneiro: 'Livro sobre o Nada', de Manoel de Barros, e fez uma leitura otimista da literatura contemporânea brasileira.
“A literatura brasileira sempre foi orientada pelas reflexões de seus escritores nos diversos tempos. [...] Os autores contemporâneos têm apresentado um país mais diverso. É bonito ver isso na literatura de hoje.”
Quem é Itamar Vieira Junior?
Vencedor dos prêmios LeYa, Oceanos e Montluc, além de duas edições do Prêmio Jabuti, Itamar Vieira Junior foi o primeiro brasileiro a chegar à final do International Booker Prize.
Nascido em Salvador (BA), em 1979, é doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de Doramar ou a Odisseia, Chupim, Torto Arado, Salvar o Fogo e Coração sem Medo.







