A história de Mariza Castro Andrade e seus ex-alunos é uma daquelas que nos enchem o coração de ternura, e nos mostra que o exercício do magistério, quando combinado com amor e empatia, marca muitas vidas de forma positiva, para todo o sempre. A prova disso é a festa surpresa que os ex-alunos da professora prepararam para ela no último dia 19 de novembro, a fim de celebrar os 70 anos da mestra.
Professora de Geografia na escola Raul Sans de Matos, em Campo Grande, por vários anos e, conforme relatos de seus alunos, Mariza não era apenas uma professora que passava conhecimento, pura e simplesmente.
Mariza exercia seu ofício por meio do amor, conforme nos conta a pedagoga Leda da Fonseca Mantovani Silva, hoje com 57 anos e que foi aluna da professora na adolescência. "A professora Mariza sempre foi muito exigente, mas era muito afetuosa, tinha um carinho especial com os alunos, e ela sempre passou muito além da matéria, ela foi uma professora para a vida. Todos os nossos amigos têm muito carinho por ela, porque ela é muito positiva, sempre tem uma palavra de conforto", conta.
Leda relembra que encontrou a professora em uma missa, na paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Capital, há alguns anos e, durante a conversa, foi dado o "start" para as reuniões. "Reencontrei a professora Mariza em uma missa no meu bairro, foi muito emocionante. Nessa missa, ela me manifestou a vontade de reencontrar os alunos daquela época. Isso foi em 2015, fizemos um encontro e, em 2018, nos encontramos em uma reunião maior."
Sobre a comemoração, Leda é sucinta, mas expressiva: "Agora, para celebrar os 70 anos dela, resolvemos fazer uma festa surpresa. Foi uma noite muito feliz, muito maravilhosa, uma festa surpresa emocionante, um momento único, porque foram com as primeiras amizades que a gente conquista na vida. A gente sempre se reúne para um café, às vezes, nem todo mundo pode ir. Nessa comemoração tinha umas 25 a 30 pessoas".
E Leda ainda relata que uma das coisas mais interessantes dessas reuniões é que o tempo parece não ter passado, mesmo após 44 anos: "É como se a gente não tivesse interrompido aquele tempo de vivência, é uma sensação única", dispara.
A pecuarista Vergilina Maria Faustino de Brito, de 58 anos, conta que a professora Mariza era muito séria. "Fui aluna dela da 5ª à 8ª série, que foi anos anos de 1976 a 1979. Ela era muito séria, porque geralmente professor gosta de brincar, deconstrair com os alunos, mas ela não. E a gente brinca com ela, gosta de fazer piadinhas, porque ela mandava a gente fazer mapas, e ela dava a nota de regular a ótimo. Então a gente sempre brinca com ela sobre as notas, quem tirava ótimo, quem tirava bom... hoje ela tira de letra isso, ela mesma faz gozação disso. Na hora certa, ela foi uma pessoa séria com a gente, e agora, que já estamos em outra fase, ela é uma pessoa extremamente divertida", relata.
Vergilina comenta que seus filhos também foram alunos de Mariza. "Eu vou te contar uma outra coisa, se você quiser colocar, isso me enche de orgulho. Meus filhos estudaram desde o jardim até a 8ª série no Auxiliadora. Eu ia todos os dias buscá-los e, um dia eu estava no corredor, quando meu filho me mostrou a professora de Geografia dele. No que eu olho - foi muito legal - eu falei 'eu não acredito, meu filho, é a professora Mariza'. Ele me disse: 'É, é Mariza', e eu comentei com ele que ela tinha sido minha professora também", conta Vergilina, com um entusiasmo como quem fala sobre a descoberta de uma nova galáxia.
Eva Faustino da Fonseca de Moura Barbosa, tem 55 anos, hoje é professora universitária da UEMS e, curiosamente, também de Geografia, assim como Mariza. Mas a parte interessante é que Eva não foi aluna da geógrafa. Há, aqui, uma inversão de papéis: Eva é que foi professora dos filhos de Mariza. "A Mariza foi professora dos meus dois irmãos mais velhos, que estavam na festa. Eu saí do colégio Raul, não cheguei a ser aluna dela e, um longo tempo depois, quando eu era professora, coincidentemente, de geografia, fui professora dos dois filhos dela no colégio Dom Bosco, e ela também foi professora dos meus dois sobrinhos, ela foi professora de toda a família, de duas gerações".
A professora Mariza
Ao falar com a professora Mariza Castro Andrade ao telefone, não foi difícil entender o encanto e o fascínio de seus alunos por ela: ela deixa transparecer, em poucos minutos de conversa, o amor e carinho, tão comentados pelos ex-pupilos, a alguém com quem ela nunca havia falado antes. E a cada palavra dela, outra coisa que fica bem clara é que Mariza, definitivamente, exercia seu ofício com amor e dedicação.
Mariza entre algumas de suas ex-alunas (Foto: Arquivo pessoal)
"Foi uma coisa muito emocionante, foi muita emoção. Esses meninos foram meus alunos, eles tinham 14, 15 anos, hoje eles estão com 52, 57, e eu fazendo 70. A gente sempre se encontra, a gente nunca perdeu, de todo, o contato. Quando eu fui professora deles, na rede estadual, eles eram adolescentes, e eu sou uma professora realizada e plena na minha profissão, eles sentiram isso, porque a nossa amizade é uma coisa muito especial. Pensa que festa linda! Além deles, do carinho, tinha balões, tinha música, olha... uma coisa muito, muito especial, o que é um pouco inédito nos nossos dias."
Mesmo com o contato, existem muitos profissionais que não são vocacionados, eles não são identificados com a profissão, segundo afirma Mariza. "Sabe por quê? Porque você tem que marcar, é uma marca indelével, eles têm que sentir que você os ama, que você ama o que você faz, é nisso que está o diferencial hoje, sabe? Agora ocasionou a pandemia, as aulas online, mas e quando é presencial, que a gente não percebe que fica esse vínculo afetivo, esse respeito, esse afeto? Eu acho que falta alguma coisinha aí, a empatia, o amor, o carinho pelos alunos..."
"A empatia, a dedicação pelo que se faz, independentemente se a classe é bem remunerada ou não é, é você fazer o que faz 'vestindo a camisa', tendo realmente dedicação, porque eles [alunos] pegam, eles absorvem. Isso foi a absorção do meu profissional afetivo que eles devem ter sentido, eu vejo por aí", dispara a professora.
Ao escrever sobre a história de Mariza, seus ex-alunos e todo o afeto que envolve essas vidas, me veio à mente o famoso ditado: "fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas".







