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Mãe mantém gestação de gêmeos mesmo após morte de um deles; 'atendimento humanizado', disse

Um casal vive a alegria pela vida de um dos filhos e o luto pela morte do outro; um dos bebês morreu na 34ª semana mas o parto ocorreu duas semanas depois, para preservar o irmão

09 maio 2019 - 15h48Por Da redação/G1

Álvaro e Caio dividiram o útero da mãe por 36 semanas. Cresceram e deixaram os pais muito felizes com a chegada da dupla nesta quarta-feira (8). Mas Caio encerrou sua curta vida na 34ª semana de gestação. Agora, os pais, Patricia e Filipe Abdo, vivem o nascimento dos gêmeos com sentimentos confusos. A alegria pela vida de Álvaro e o luto respeitoso pelo Caio.

Toda esta história de amor e resiliência começou há duas semanas, em Belo Horizonte. Após uma fertilização in vitro, Patricia estava grávida de gêmeos e já se preparava para a chegada da dupla. Na 34ª semana, o coração do Caio parou de bater. Mesmo com a morte do bebê, os pais decidiram manter a gestação para ajudar no desenvolvimento de Álvaro, que seguia forte. “O atendimento humanizado fez toda a diferença”, resumiu a mãe.

Segundo Patrícia, a primeira obstetra não soube lidar com sensibilidade às alterações nos exames do Caio no início da gravidez. O pequeno já apresentava alterações cardíaca e cerebral.

Em busca de um “atendimento humanizado” como ela disse, o casal começou a ser atendido pelo obstetra Hemmerson Magioni. O médico explicou aos pais que, mesmo com a morte de Caio, era possível manter a gestação com monitoramento da saúde de Álvaro e da mãe através de exames. Como os bebês tinham placentas diferentes, o risco de contaminação de Álvaro era pequeno.

“A medicina propõe interromper a gestação nestes casos em que um dos bebês morre antes de nascer. Mas o mais saudável é manter os bebês e fazer o parto”, explicou Magioni. Como Álvaro estava posicionado para o nascimento, os pais, junto com o médico, decidiram manter o parto normal para os dois bebês, caso não houvesse nenhum problema.

E não teve. Álvaro nasceu primeiro, nos primeiros minutos da quarta-feira (8). Saudável e totalmente completo, ele não precisou de nenhum atendimento médico e foi possível ficar o tempo todo com os pais. Caio nasceu empelicado – quando a bolsa não rompe – já que era um bebê muito pequeno, de menos de 1,5 quilo. O nascimento dos gêmeos foi tratado como determina a ciência, segundo o médico. A saúde de Álvaro foi preservada, os desejos da mãe foram respeitados, e o luto de Caio foi honrado.

Com o parto cesárea descartado, o nascimento dos gêmeos foi feito em uma suíte de parto, sem necessidade de cirurgia. Patrícia tomou a anestesia, mas em dose baixa de forma que conseguisse sentir o parto dos meninos. Após o nascimento dos dois, os bebês foram colocados ao lado dos pais. Patrícia e Filipe puderam celebrar a saúde de Álvaro e se despedir de Caio de forma carinhosa. O pequeno Caio foi cremado nesta quinta-feira (9), ainda conforme desejo da família. A mãe, que está internada ainda, não pode ir. Mas ela garante que está tranquila e feliz com a possibilidade de viver e vencer o luto do filho.

“A gente está triste pela situação, mas a forma como foi conduzida foi leve e ter um atendimento humanizado faz toda a diferença”, comentou. Patrícia e Filipe, depois de muita reflexão após a morte de Caio, decidiram manter as lembrancinhas de nascimento com os nomes dos dois e o enfeite de porta também.

“Tudo que tinha os nomes dos dois foi mantido para honrar (...) até porque o Caio chegou, mas ele não ficou. O Caio veio e ele teve uma missão. Ele mudou muita coisa na nossa vida e a gente não queria esconder”, disse. E apesar da perda de Caio, a família segue feliz. Patrícia disse estar se sentindo muito bem e realizada porque ela saiu de um diagnóstico de parto cesárea e chegou ao nascimento dos filhos com parto normal e luto respeitoso.

O que diz a medicina

De acordo com o obstetra Hemmerson Magioni, o caso da Patrícia tem vários elementos que são considerados raridade no contexto obstétrico brasileiro. O Brasil é um dos países com a taxa de cesáreas mais alta do mundo, contrariando orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o último levantamento da OMS, o Brasil – com 55,5% - está atrás apenas da República Dominicana, que apresenta 58,1% dos partos feitos por cesárea. O resultado brasileiro é considerado "alarmante".

Muitos médicos e cientistas, incluindo Magioni, dizem que muitos destes procedimentos realizados no Brasil são injustificados. Segundo o obstetra, o parto normal libera hormônios para o bebê que favorecem a maturação de órgãos como os pulmões. Além disso, a recuperação da gestante após o parto normal é muito mais rápida e saudável, já que a cesárea, por se tratar de uma cirurgia, oferece riscos à saúde da mulher e da criança.

Sobre o parto dos gêmeos, Hemmerson Magioni disse que “se a gente tivesse aqui que ter uma coisa que ligue todos os sentimentos, é o nascimento como um momento de respeito de amor. (...) É uma história de força, resiliência e amor”. A gestação de Patrícia foi acompanhada, principalmente nas duas semanas finais, após a morte de Caio, com exames de sangue e de imagem para garantir a saúde do Álvaro e da mãe. No parto, fragmentos do cordão umbilical de Caio foi recolhido para que exames laboratoriais e de genética possam apontar a causa de sua morte precoce. O resultado deve sair em 40 dias.

O médico alerta principalmente as mulheres sobre a importância de buscar um parto humanizado, que significa que todas as vontades da mãe, respeitando os limites da ciência, devem ser atendidos, como uso ou não de anestesia, ter o filho nos braços logo após o nascimento sem necessidade que o bebê seja lavado primeiro, entre outras escolhas. “A sensibilidade humana não era para ser especial ou raridade. Isso é que o todas as mulheres deveriam receber, no Brasil principalmente”, aconselha o médico.

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