Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, o economista Daniel Mata de Albuquerque, 53 anos, hoje vive em Campo Grande e atua como terapeuta veicular, como ele prefere chamar o trabalho que ele realiza diariamente, transportando passageiros por meio de aplicativo. Sua trajetória, marcada por perdas familiares, três infartos e crises emocionais profundas, encontrou novo sentido na pluralidade religiosa e no respeito aos diferentes credos e caminhos espirituais.
Criado em uma família católica "não praticante", mas aberta à espiritualidade, Daniel conta que nunca foi pressionado a seguir uma doutrina específica. A vida seguiu o roteiro esperado: estudos, negócios e família, porém, tudo mudou em 2017, após o primeiro infarto, quando passou dias internado em uma UTI. “Ao meu lado, vi pessoas morrendo e famílias aguardando o último sopro. Foi ali que comecei a me perguntar quem somos de verdade”, relata.
Depois de duas cirurgias, ele lembra de uma frase que marcou sua recuperação, dita por uma fisioterapeuta. “Paredes de hospitais recebem mais fé e resignação do que qualquer templo religioso. Aquilo me deu força para continuar”, afirma. Mesmo seguindo orientações médicas, Daniel enfrentou ansiedade e depressão até encontrar, por acaso, um livro que mudaria sua vida: "Yoga para Nervosos", de José Hermógenes de Andrade Filho, considerado o precursor da yoga no Brasil, além de pioneiro em apresentar a prática como possível terapia para distúrbios e disfunções mentais.
Mesmo vivendo em um país onde a crença é majoritariamente cristã, a prática levou Daniel à yoga como filosofia de vida e à devoção a Shiva, dentro do shivaísmo. O deus Shiva, conhecido como o "Destruidor" ou "Transformador", é uma das principais divindades do hinduísmo, que integra a Trimúrti, ou a trindade divina na crença, ao lado de Brahma, o deus das músicas e das canções, e Vishnu, que simboliza a preservação, a ordem cósmica e a graça divina. No panteão hindu, os três são responsáveis pela criação, manutenção e destruição do mundo.
Assim, com limitações cardíacas, ele deixou as posturas físicas, mas manteve a espiritualidade. “Hoje minha yoga é devoção. Shiva foi o transformador da minha vida”, resume. De volta a Campo Grande no fim de 2020, passou a dirigir como Uber, onde diz ter conhecido histórias que aprofundaram ainda mais seu olhar humano sobre dor e superação.
Entre 2021 e 2022, Daniel sofreu mais dois infartos e enfrentou um período de profunda desesperança. O reencontro com a fé veio por meio de uma casa universalista e do contato com a medicina da floresta. “Ali eu encontrei a minha tribo”, afirma. Em 2025, ele retornou à Casa do Caminho, espaço que reúne pessoas de diferentes crenças em busca de cura interior.
Para Daniel, a convivência entre religiões é essencial. “Umbandistas, espíritas, cristãos, todos juntos. Ainda falta muito respeito ao encontro espiritual de cada ser”, diz. Ele também faz questão de reconhecer a influência da professora Rose Queiroz, com mais de 30 anos de atuação na yoga, a quem chama de Maestra.
A mensagem que ele faz questão de deixar é direta, inclusiva e, principalmente, que inspira respeito às crenças e fé alheias: “A intolerância religiosa tem que acabar”. Para Daniel, a espiritualidade não divide, soma. “Axé pra quem é Axé, amém pra quem é de amém, Inshallah pra quem é de Alá. Om Namah Shivaya”.







