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PMCG - Prestação de contas

Pai conta a filhos que é gay e transforma vidas de todos da família

Giro de 360 graus

23 JAN 2014
Renan Gonzaga
06h00min
Júlio e seus dois filhos (Foto: Arquivo pessoal)

Tudo começou quando Júlio Valcanaia, na época com 16 anos, conheceu a mãe de seus dois filhos. Eles namoraram quase quatro anos e então resolveram casar, época em que Breno, o primogênito, estava chegando ao mundo. Em seguida, dois anos depois para ser exato, nasceu Graça, a segunda filha, e última do casal.


Vivenciamos uma relação de total amor, amizade, cumplicidade e fidelidade recíproca”, justifica o advogado Júlio sobre o tempo em que esteve no relacionamento heterossexual. Entretanto, o desejo pelo mesmo sexo falou mais alto e ele se viu obrigado a procurar o que lhe faz feliz.


Tivemos de amadurecer, passamos a conversar e refletir sobre isso. Nos apoiar mutuamente, mesmo sabendo e pressentindo as barreiras e discriminação que enfrentaríamos com nossas famílias, religião, amigos e sociedade. Não foi uma fácil transição.”


Amor e compreensão foram fundamentais na família. (Foto: Arquivo pessoal)


Após entrarem em acordo, Júlio e sua esposa decidiram informar a família para que eles não soubessem da separação por terceiros. “As pessoas consideradas verdadeiramente importantes e dignas do nosso respeito souberam de nossa decisão por nós mesmos”, diz o advogado de sobre o fim do casamento que durou seis anos.


Na época, um familiar chegou a sugerir que eles ficassem casados “de fachada”, tendo relações extraconjugais, como muitos outros casais fazem. Porém, Júlio havia decidido ser verdadeiro com seus sentimentos e com as pessoas estimadas e desconsiderou a proposta de levar uma vida dupla para agradar familiares ou qualquer outra pessoa, como uma encenação para permanecer nos padrões sociais.


O relacionamento acabou, mas a cumplicidade entre os dois era tanta que, mesmo separados, se tornaram grandes amigos. “Hoje ela é minha melhor amiga, uma irmã amada, cujo afeto que temos é indissolúvel. Sou imensamente grato por ter essa pessoa maravilhosa na minha vida e dos meus filhos”, ressalta.


O advogado e sua filha Graça. (Foto: Arquivo pessoal)


RELACIONAMENTO COM OS FILHOS


Depois da separação, Júlio foi se descobrindo um pai extramente dedicado e amável. “A homossexualidade não desqualificou e nem deslegitimou minha vocação paterna”, justifica. Tanto que seus filhos sempre manifestaram desejo de morar com ele, de modo que teve que ajustar  a guarda consensualmente com a mãe das crianças.


Morando com os filhos há 11 anos, o advogado sempre esteve presente no acompanhamento escolar, médicos, dentistas, igreja, viagens, passeios e até em um simples cinema. “Minha dedicação foi integral. Ou estava trabalhando, ou estava com meus filhos. Estabeleci com eles uma relação baseada em diálogo, confiança, carinho, amizade e amor”, diz.


Quando Breno fez 16 anos, o pai sentiu uma abertura de seu filho para conversar sobre sua sexualidade, já que o adolescente havia perguntado quando ele iria 'arrumar alguém'. Decidido a conversar com cada um separado, para respeitar a individualidade e a diferença de idade, resolveu falar primeiro com sua filha.


Breno, Júlio e seu parceiro David. (Foto: Arquivo pessoal)


Ela disse me amar acima de qualquer coisa, e que aquilo não importava. Me abraçara com tamanha força que sinto até hoje seu coração batendo junto ao meu”, relembra o pai. A surpresa ficou por conta de seu filho, que é mais “descolado” e teve uma reação um tanto quanto cômica: “Papai, achei que você ia me contar uma tragédia. Gostar de homem é hoje uma coisa normal. Que susto você me deu!”.


Hoje, seu filho Breno possui 21 anos, enquanto Graça possui 19. E apesar do apoio e compreensão que os dois deram a Júlio durante todos esses anos, o advogado afirma, atualmente com 41 anos, que não foi fácil fazer todos pensarem que são uma família normal.


VIDA AMOROSA


Passada a fase turbulenta que foi a aceitação, a amizade entre o pai e os filhos só aumentou. Eles passaram a conversar mais francamente sobre tudo, até sugerir namorados para Júlio. “Quando eles percebiam alguém me observando num restaurante ou no shopping, ficávamos muito à vontade para falar naturalmente sobre isso”.


O casal aposta na cumplicidade para sucesso no relacionamento. (Foto: Arquivo pessoal)


Júlio divide sua vida e seus problemas com seu companheiro, David, há quatro anos. “Estamos morando juntos, nós quatro”. Além das afinidades necessárias para sucesso numa relação afetiva de qualquer espécie, seu parceiro vem de uma família extremamente unida, o que facilitou o relacionamento. “ Isso foi primordial para mim, e meus filhos o receberam com muito respeito, carinho e amizade”.


Fico imensamente feliz e comovido quando os vejo brincando, fazendo piadas, quando vejo nele a preocupação que demonstra com a proteção de meus filhos, quando ele os adverte sobre os namoros, sobre as tarefas domésticas em que todos se ajudam e colaboram, quando reunimos-nos semanalmente para nosso momento de preces e leitura do Evangelho em família. Enfim, é um relacionamento de fraternidade, amor e respeito.”

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