Lama, água e muita disposição. Os pré-requisitos podem até desanimar, mas o cenário é recompensador e não fica longe, não? Para dar uma boa dica de viagem, de baixo custo e para quem está na correria, a reportagem do Top Mídia News encarou uma aventura sobre duas rodas. Confira nosso diário de bordo.
Distrito de Piraputanga, Aquidauana - MS
19 de agosto de 2015
06h11 - As coordenadas dadas antes do passeio diziam que celular, nem mesmo nos mais remotos sonhos; mas no ponto de encontro, um posto de gasolina na avenida Duque de Caxias, em frente a Base Aérea de Campo Grande, era impossível não registrar toda aquela animação com um selfie. O grupo formado por uma par de 30 pessoas e bicicletas se preparava para participar de uma das trilhas para iniciantes organizadas pela agência de turismo Sopa de Pedra Cicloaventuras.
Desta vez, a aventura seria Piraputanga, distrito do município de Aquidauana, distante 139 quilômetros de Campo Grande. As bicicletas equipadas e de custo no mínimo considerável podem até sugerir um clima de competição, mas a iniciativa surgiu com um objetivo bem diferente. "Comecei a pedalar para ser feliz e agora pedalo para fazer as pessoas felizes", afirma Nilson Young, 43 anos, que administra a empresa, juntamente, com a esposa, Elijane Coelho, 39 anos.
O Sopa de Pedra começou em 2008 como um grupo para reunir ciclistas que queriam fazer passeios. Entretanto, a relação de amor de Nilson com a bicicleta tem quase duas décadas. Natural de Corumbá, distante 420 quilômetros da Capital, ele passou com seus pedais também por São José dos Campos (SP) até escolher Campo Grande como moradia definitiva.

Nil dá as primeiras coordenados da viagem. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Cruzando as ciclovias e carregando os adeptos das duas rodas a tiracolo foi que nasceu também o amor por Elijane, a Lili. "Eu corria, mas acabei me machucando, então experimentei pedalar", explica. O jeito pragmático e empreendedor dela acabou preenchendo o que faltava para que o projeto se tornasse efetivamente estilo de vida.
O resultado foi uma empresa criada por apaixonados por bicicleta. Para participar das aventuras, não precisa ser um atleta e nem ter equipamentos de ponta, pois o objetivo é proporcionar condições e clima favorável para que qualquer pessoa que goste de natureza se sinta amparada e motivada a enfrentar o desafio de realizar uma trilha de mountain bike, ou um passeio urbano, sem a preocupação com o seu desempenho.
Viagens como as para Piraputanga começaram a ser organizadas pelo grupo desde 2008. Os passeios têm número limitado de inscrições e exige que os participantes tenham os apetrechos necessários. Refeições estão inclusas. Além de ser uma oportunidade de se aventurar é uma ótima ocasião para curtir a natureza e ter contato com as comunidades locais.

Paredões são presença constante logo que chegamos no distrito. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
07h01 - Antes que alguém pense nesta hipótese, o caminho da Capital até Piraputanga não é feito sobre duas rodas, mas de carro. As bicicletas são colocadas em suportes e muitos selfies depois a equipe do Top Mídia News pega a estrada rumo a aventura. A carona já rende histórias e o objetivo de conhecer novas pessoas se concretiza logo no início.
No banco do carona, está a contadora Tânia Bakargy, 46 anos. Ela é uma das veteranas nas aventuras do grupo. Encontrou na bicicleta uma alternativa para a correria e o estresse do trabalho e acabou não largando mais. Para ela, o passeio também tem clima de recomeço. "Em 2013, acabei esmagando uma das vértebras e tenho voltado a pedalar aos poucos", explica.

Tânia já se preparando para o passeio. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Além da conversa boa, o trajeto é acompanhado de belas paisagens, que fazem até esquecer que estamos há quase uma hora de toda aquela correria rotineira. A rota segue próxima aos paredões marcantes do distrito. A diversidade de pássaros e os ipês rosas floridos estão entre principais atrativos que nos acompanhara durante todo o passeio.
08h16 - Quando se trata de um distrito, o ponto de referência costuma se restringir mesmo a uma praça central. É o caso de Piraputanga. A única via da cidade é composta também pela tradicional igreja. Os fiéis até se levantam para ver o movimento dos ciclistas. Talvez, a esperança seja ter mais de três pessoas para a missa de domingo de manhã.
No local, o encontro é rápido. Apenas para dar algumas coordenadas. A breve passagem é suficiente para perceber algumas características como a econômica. A produção de queijo e galinhas semi caipira são anunciados em destaque em um dos postes de luz da rua principal. O embarque de volta para o carro rumo à Furnas do Baianos acaba com a expectativa de quem está na igreja e um corintiano trata de dar o último badalo para dar início a cerimônia religiosa.

Cenas características de vilas. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
08h45 - Depois de abrir e fechar pelo menos umas cinco porteiras, chegamos a uma das propriedades da Furnas dos Baianos II. A comunidade quilombola é datada da década de 50 e é formada por 28 famílias, que sobrevivem basicamente da agricultura familiar com a plantação de milho, feijão e mandioca.
Possuem uma organização social denominada Associação Negra Rural Quilombola Furnas dos Baianos, fundada em 1994, que realizava eleições no dia da nossa visita. A movimentação proporcionou o contato com vários moradores locais durante o passeio. Apesar dos anos de existência, a comunidade só foi reconhecida como quilombola pela Fundação Cultural Palmares, em 2004.

Assembleia da Associação Negra Rural Quilombola Furnas dos Baianos . (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Apesar de cada propriedade chamar a atenção por alguma coisa, seja pela arquitetura antiga ou pelo casal de perus a se paquerar, a intimidade foi mais próxima da Chácara dos Mirantes. A referência para encontrar o local, além da placa, é uma grande pedra solta, que serve como mirante aos paredões da região.
No local, é servido um café da manhã reforçado. Chipa, bolo de mandioca e até fatia húngara. Bastante carboidrato para aquentar a pedalada. Para beber, chá e café, mas é o suco de limão-rosa que desperta boas lembranças em alguns.
A comida e o espaço é de propriedade do casal Maria Lúcia Dias de Moraes e Jamil Albuquerque de Moraes, 53 anos. O tipo de turismo denominado 'Cama e Café' é o que ajudou a movimentar as atividades econômicas da família. "Vendemos queijo, doce de leite e doce de laranja", explica Maria Lúcia. Mesmo as produções têm melhor saída em dias de passeio.

Dona Esmelina com o filho Jamil. Propriedade pertence a família há 40 anos. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Conforme o casal, viver do turismo é instável, mas eles não tem nada a perder em abrir as portas de casa para este tipo de atividade. "Acreditamos no potencial da região", explica Jamil.
Em dias movimentados, como o em questão, o casal conta com a ajuda da mãe de Jamil, Esmelina de Albuquerque de Moraes, que aparenta ter bem menos do que os 85 anos prescritos na identidade. "Aproveito aqui para descansar", avisa ela. A família está no local há 40 anos.
Apesar da opinião da experiente Esmelina, natureza nem sempre é sinônimo de descanso. Para quem vem de fora a região tem muitos locais a percorrer. Conta com quatro mirantes e dois sítios arqueológicos.
09h31 - A rota preestabelecida para o passeio é de cerca de 25 quilômetros. Mas não pense que todo trecho será percorrido sobre o conforto de uma bicicleta. Os primeiros metros se tratam de uma subida em meio a mata fechada. Valas e trechos começam a dar as primeiras impressões do que virá dali para frente.

Obstáculos são uma das diversões do passeio. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Os obstáculos são recompensados pela paisagem. A princípio, o difícil é lembrar de tirar os olhos dos pés para contemplar o cenário. Os primeiros trechos seguem com ânimo e com diversos voluntários para levantar as bicicletas em locais mais íngremes. A ajuda é ainda mais bem-vinda diante das possibilidades de tombos.
O primeiro deles vem em forma de escorregão e foi até previsto pelo autor. "Filma meu tombo", foi a frase do funcionário Moacir Vieira Cardoso, 57 anos. Ele só não imaginava que a brincadeira se concretizaria. Junto com a queda, veio, meio a contragosto, a deliciosa sensação proporciona pelo banho de rio.
Moacir é um dos mais velhos do grupo. Começou a pedalar sozinho, com uma bicicleta de supermercado, como ele mesmo define. Ao encontrar no grupo, o esporte, feito por recomendação médica, ganhou áurea mais leve. "Não tenho objetivo de competição. Venho pela saúde, pela amizade e por toda esta confraternização", explica.

Moacir é um dos veteranos do grupo. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Por este motivo, e também devido as delimitações físicas - ele tem uma perna 8 centímetro menor do que outra -, a preferência é participar das atividades para iniciantes. A escolha não dispensa aventuras. Uma das mais marcantes foi a Rota Márcia Prado percorrida pelo grupo em 2012, em uma cicloviagem coletiva de São Paulo a Santos.
Superada a distração, o grupo seguiu na trilha. Aos poucos os obstáculos se tornaram mais planos e o tempo em cima da bike passa a ser maior. O caminho tranquilo, com paradas regulares para admirar a paisagem, permite mais bate-papos. Em meio as conversas e risadas, percebemos um sotaque diferente do habitual.

Paradas para admirar a paisagem também estão no roteiro. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
A animação e a quantidade considerável de registros no celular é do casal de portugueses Mara Vaz, 32 anos, e Ricardo Silva, 37 anos. A empolgação é mesmo digna de turistas, porém, em menos de cinco minutos a dupla conta a trajetória até ter Campo Grande como residência fixa.
Na capital, eles estão desde novembro. Antes passaram por Brasília e Rio de Janeiro. Ela engenheira química e ele engenheiro civil. As graduações não foram poupadas durante a crise que se alastrou em Portugal e o jeito foi deixar o país. "Era Angola ou Brasil", afirma Mara.
O estigma de capital no meio do mato foi sinalizado quando ainda estavam no Rio. Mas ao conhecerem o local ficaram admirados com a qualidade de vida. "A cidade é muito limpa e organizada", elogia Ricardo. A possibilidade de explorar a natureza surgiu em uma das aventuras com o grupo. O primeiro passeio bastou para os deixar apaixonados e adquirirem as bicicletas para passeios regulares. Agora, o casal é presença certa nas cicloaventuras organizadas pelo grupo.

Casal de portugueses na famosa pedra da Chácara dos Mirantes. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
12h34 - O passeio termina mais cedo para alguns. O saldo de duas bicicletas quebradas e irrecuperáveis no meio do mato, além da superlotação do carro de apoio, fazem o grupo cortar caminho. Apesar do trajeto encurtado, há opção para os que querem aproveitar os últimos minutos de aventura. O desvio de cerca de 4 quilômetros é encarado como um obstáculo cujo premio maior é o almoço.

Almoço é feito pela própria comunidade com a finalinadade de movimentar a economia local. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Os mais cansados partem logo para as sombras das mangueiras da chácara de Jamil. Meia hora depois, com a presença de todos, o almoço é posto a mesa. Galinha, salada, feijão, arroz e carne com mandioca. Tudo muito simples, mas digno de ser definido como banquete depois das boas horas de suor. Ao final, a sensação é de que o tempo parou e o dia já valeu a pena. Energia reposta para encarar a semana.
Lili, Nil e Jamil: parceria em prol do turismo local. (Foto: Diogo Gonçalves/Divulgação)
Quer saber qual a sensação? A agência Sopa de Pedra Cicloaventuras organiza passeios como este regularmente. Na maioria das vezes, os destinos são próximos de Campo Grande e são anunciados por meio da página na rede social (acesse aqui). A próxima aventura em Piraputanga está marcada para ocorrer no dia 16/08. Desta vez, a aventura dispensa a bike e será o Trekking rota dos Mirantes. As vagas são limitadas a 15 pessoas.







