Campo Grande comemora nesta terça-feira (26) seus 126 anos de fundação. Conhecida hoje como uma capital moderna, cortada por grandes avenidas e rodeada de bairros que não param de crescer, a "Cidade Morena" já foi bem diferente. Entre ruas de chão batido, cinemas que marcaram gerações e a ferrovia que pulsava como o coração da cidade, muito do que existia na paisagem do passado ficou apenas na lembrança dos moradores mais antigos.
É o caso de Silvio Morais, de 76 anos, que vive em Campo Grande há mais de meio século. Ele chegou em 1970, vindo de Três Lagoas, quando a cidade ainda tinha ares de interior.
"Meu primeiro bairro foi o Jockey Club. Ali era só mato, cheio de tanque de óleo e combustível às margens da ferrovia. A gente se locomovia de charrete. O táxi da época era a charrete, que ficava na estação esperando os passageiros que chegavam. A gente chamava de Expresso Beiçuda", recorda.
Na memória de Silvio, bairros hoje consolidados surgiram praticamente do nada. "Depois mudei para o Caiçara, que também era no meio do mato. A única região mais movimentada era o Centro e o Amambai, com os militares. O restante era muito mato mesmo", conta.
O aeroporto, que hoje é porta de entrada para milhares de passageiros, também tinha outra cara. "Era bem pequeno, ficava no meio do mato. A Duque de Caxias era só uma estrada de chão à beira da ferrovia", relembra.
Outro cenário forte na memória de Silvio são os cinemas de rua. O Alhambra, o Santa Helena e, depois, o Acapulco marcaram a vida cultural da cidade. "Assisti muitos filmes no Santa Helena, inclusive com minha esposa. Quando acabou o Santa Helena, veio o Acapulco", diz Silvio.
Ele lembra ainda que, antes de viver em Campo Grande, trabalhou no cinema de Três Lagoas, aos 17 anos. "Os rolos de filmes vinham de Araçatuba, de trem. Passavam primeiro em Três Lagoas, depois Campo Grande e depois Corumbá. Antes de mandarem para outra cidade, era preciso mandar telegrama pelo telégrafo avisando".
Para Silvio, a maior mudança na cidade foi a perda da ferrovia. "Antes tudo acontecia pelo trem. É o que sinto mais falta até hoje", afirma. Os trilhos, que antes cruzavam a cidade e movimentavam o comércio, hoje deram lugar a avenidas e ao crescimento urbano que redesenhou Campo Grande.
Seja o barulho dos trens chegando, o cheiro da terra vermelha das ruas sem asfalto, a emoção de assistir a um filme nas antigas salas de cinema ou até a sensação de atravessar bairros ainda cobertos de mato, a Campo Grande de outrora deixou marcas profundas na memória de quem a viveu. Apesar das grandes mudanças, Silvio afirma a cidade continua gerando boas recordações.
"São mais de 50 anos aqui. A cidade mudou muito, tanto para coisas boas quanto ruins, e continua me trazendo alegrias. Fiz minha vida aqui, então Campo Grande segue sendo parte da minha história", finaliza Silvio.







