O Centro de Convivência do Idoso Edmundo Scheuneman, o CCI Piratininga, em Campo Grande, que deveria ser um espaço de socialização e atividades para a terceira idade, vive uma crise de desorganização e abandono, segundo frequentadores. Em denúncias anônimas encaminhadas à reportagem, usuários relatam falta de professores, ausência de coordenação, interrupção nas atividades e descaso com os idosos.
"Sou frequentadora do CCI Piratininga e está uma bagunça no local. Falta organização. Não tem coordenador. Quem coordena é uma idosa. Os professores faltam muito, não cumprem horário e, quando perguntamos onde estão, dizem que estão de atestado. Pelo jeito, é uma epidemia de doença", desabafa uma idosa.
De acordo com o relato, as aulas e atividades do centro praticamente pararam. Professores não estariam cumprindo carga horária, e alguns sequer comparecem. Quando vão, segundo as idosas, passam o tempo no celular e não dão atenção aos alunos.
"Estamos cansados de reclamar e ninguém faz nada. Antes tinha professores que trabalhavam todos os dias, agora é uma bagunça. O CCI Piratininga já foi muito bom, agora a qualidade está péssima. Não tem coordenador, não tem professores, não tem uso da piscina, não tem nada. Nosso lugar de gente feliz acabou", diz a frequentadora.
O coordenador citado nas denúncias é Douglas Alves, no cargo desde que o antigo coordenador, o pastor Jorge Luís Franco, foi exonerado do cargo em fevereiro, conforme publicação no Diário Oficial de Campo Grande.
As denúncias apontam que o coordenador raramente comparece ao local, deixando o centro "sem comando". A ausência da gestão e dos servidores teria comprometido completamente o atendimento aos idosos, que dependem das atividades oferecidas pela unidade.
A insatisfação entre os idosos é evidente. Nas falas enviadas à reportagem, há críticas diretas à postura dos servidores e à falta de compromisso da gestão.
"Os professores trabalham quando querem, a hora que querem. Recebem sem trabalhar. A desculpa é sempre atestado médico. Quando não é um, é outro. Estão mesmo doentes ou é cabide de emprego? Que falta de respeito é essa com nós, idosos, que pagamos impostos a vida toda?", questiona a idosa.
Ainda segundo as reclamações, não há substituição quando um professor falta, e o cronograma de atividades, antes fixo, teria sido abandonado.
Espaço perdeu essência e vive abandono
A situação de abandono contrasta com o investimento recente feito pela Prefeitura de Campo Grande no CCI Piratininga. Em 2024, o município contratou uma empresa para instalar uma piscina e construir vestiários para hidroginástica, em um projeto que custou quase R$ 400 mil aos cofres públicos.
O contrato foi firmado entre a prefeitura e a empresa Rogol Comércio e Serviços Ltda, e previa a instalação de uma piscina de fibra modelo Bali (4x8m), com casa de máquinas, vestiários masculino e feminino, banheiros adaptados e cobertura metálica. A obra foi anunciada como uma melhoria para ampliar as atividades físicas voltadas aos idosos.
Entretanto, segundo as denúncias, a piscina não está sendo utilizada. "Não tem uso da piscina, não tem nada", diz o relato. A estrutura, que deveria beneficiar centenas de frequentadores, estaria parada junto com as demais atividades.
O CCI Piratininga é vinculado à SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social), responsável pelos Centros de Convivência da capital. O local atende dezenas de idosos com atividades de lazer, convivência e cursos, mas agora enfrenta uma paralisia institucional, segundo as denúncias.
Frequentadores afirmam que, na prática, quem tenta organizar as atividades é uma idosa voluntária, sem função oficial. "Não tem coordenador, quem faz as coisas é uma senhora que tenta ajudar", relatou uma usuária.
O que diz a prefeitura?
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Campo Grande para questionar as denúncias sobre o abandono do CCI Piratininga, que negou todas as acusações.
A SAS informa que as denúncias sobre abandono e desorganização da unidade, incluindo falta de profissionais, não procedem. Ressaltamos que o quadro de servidores está completo e adequado à capacidade da estrutura física do espaço. Atualmente, a execução do serviço de convivência do CCI, conta com dois educadores, um professor de educação física, que atua de segunda a sexta-feira, e um facilitador de violão, com aulas semanais. Todas as atividades estão sendo realizadas conforme planejamento da equipe multiprofissional do CCI, em conjunto com a Superintendência de Proteção Social Especial da SAS.
A informação sobre ausência de coordenação também é inverídica. O coordenador cumpre regularmente sua jornada de 40 horas semanais, ausentando-se apenas quando participa de reuniões institucionais na sede da SAS.
Reforçamos que a unidade recebe visitas frequentes de órgãos de controle, como o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI), que esteve na unidade no mês passado para verificar a metodologia de atendimento e as condições da estrutura física. Importante destacar que nenhuma irregularidade foi identificada após a visita.
Vale lembrar que, no início deste ano, o CCI passou por reformas estruturais para garantir acessibilidade total aos idosos, com destaque para a instalação de rampa de acesso à piscina e vestiários com banheiros adaptados.







