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sábado, 28 de maio de 2022 Campo Grande/MS
CÂMARA MUNICIPAL MAIO 2/3 ANO
Campo Grande

Pra quem sonhava em comer arroz na infância, vida de lutas diárias é luxo hoje em dia

Com história de muitas batalhas, Nair ensina que é preciso agradecer mais e reclamar menos da vida

21 dezembro 2018 - 07h00Por Dany Nascimento

Quem olha para a alegria e espontaneidade de Nair Sanches Marçal não faz ideia do que ela encarou ao longo dos seus 49 anos de idade. Ela nasceu em Goioerê, no Paraná, morou no Paraguai e hoje toca a vida como mestre de obras em Campo Grande.

Mãe de quatro filhos, sendo um de sangue e um que ela mesmo apelidou de ‘presente’, Nair incentiva as pessoas a serem mais agradecidas, já que enfrentou muitos problemas até se tornar mestre de obras.

“Meu pai plantou café, éramos em 11 irmãos, mas deu uma geada na região na época e ele perdeu toda a plantação e faliu. Quando minha mãe estava grávida de mim, ele queria um menino, mas não veio e então ele falou que me criaria como um menino. Eu sempre ajudei ele nos serviços pesados. Como ele faliu, um amigo dele indicou o Paraguai e nos mudamos para lá", conta.

"Nossa comida era carne de caça e mandioca, era uma época muito difícil. Eu cheguei a ter febre naquela época porque eu tinha muita vontade de comer arroz e não tínhamos condições. Para o Paraguai, fui eu, meu pai, minha mãe e alguns irmãos, um total de cinco meninas e dois homens. O restante ficou com parentes”, relembra Nair.

Nair sonhava em dar uma vida melhor aos pais e aos 17 anos, foi para Ponta Porã. Lá, foi com a venda de espetinhos que ela conseguiu trazer os pais para o Brasil. “Uma senhora chamada Nilda falou porque eu não tentava vender espetinho. Eu comecei a fazer, deu certo e eu consegui trazer meus pais também para Ponta Porã".

"Hoje, as pessoas reclamam de tudo, reclamam se tem arroz, se tem feijão, elas reclamam de tudo que elas tem porque nunca passaram fortes dificuldades. Temos que aprender a agradecer mais, agradecer por tudo que temos na vida”, ensina.

Mãe de João Junior, Érica e Diessica, Nair destaca que ao se casar pela segunda vez ganhou um presente de Deus. “Eu ganhei o Rian, não existe coincidência, existe destino. O nome dele é o meu de trás para frente, é o destino", conta aos risos.

"Eu fui casada com um japonês, pai das minhas três filhas. Ele me ajudou muito na vida, consegui ir para o Japão tentar uma vida melhor, mas não me adaptei a serviços leves. Quando trabalhei com construção lá, eu gostei e fiquei 11 anos trabalhando, enquanto meus filhos eram cuidados pela minha mãe e minha irmã. Como meu esposo estava muito doente, uma das minhas filhas tinha casado e tinha problema com o marido, eu ouvi da minha filha mais nova se eu ia esperar minha filha morrer para voltar, acabei desistindo de tentar a vida no Japão e voltei para Campo Grande. Meu esposo faleceu, um ano depois eu conheci meu segundo esposo, que é o Firmino, ele veio com um presente, que é o Rian. Consegui na Justiça a guarda do Rian, que hoje é meu caçulinha e está com 14 anos”.

Ela destaca que, por se dedicar muito ao trabalho, perdeu um rim devido a um problema de saúde. “Eu não tinha tempo para nada, para nenhum descanso. Durante a semana eu trabalhava na construção e final de semana eu trabalhava nos restaurantes. Não parava. Só que quando eu vim para o Brasil, fui trocar o dinheiro que na época era R$ 2.600, valia muito dinheiro há uns 9 anos atrás, fui roubada. Levaram essa quantia e uns R$ 5 mil em dólar. Eu fiquei sem nada, foi muito triste. Eu pensei em sumir, sair correndo sem rumo, de tão desesperada que fiquei, mas dei a volta por cima”.

Hoje, Nair se dedica a construção civil e, ainda sim, encara novas dificuldades. “Hoje eu luto para vencer o preconceito, as pessoas desvalorizam o meu trabalho porque sou mulher, normalmente o metro da obra custa R$ 780, mas como sou mulher, querem pagar R$ 450. É triste, já pensei em ir embora de Campo Grande porque tem quatro anos que estou aqui e só construí seis casas até hoje. Espero que um dia as pessoas passam a entender que a qualidade do trabalho é o que importa e não se é homem ou mulher”, diz a mestre com lágrimas nos olhos.

Para contratar os serviços da mestre de obras basta ligar para 67 – 999960421.