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Campo Grande

Solteiros e casais sem filhos da Cidade de Deus são ameaçados de despejo

05 abril 2016 - 19h02Por Anna Gomes

Moradores da Cidade de Deus que são solteiros e até casais que não possuem filhos estão preocupados com a possibilidade de ficar de fora do loteamento do município nos novos bairros. Eles relatam que a Prefeitura Municipal fez todo o cadastramento necessário, mas os funcionários informam que as pessoas desses dois grupos devem ser excluídas do benefício.

Segundo a denúncia, a prefeitura está mandando os solteiros desocuparem os barracos localizados na Cidade de Deus, mas não oferece uma nova moradia para essa população. Alguns dizem morar na favela há mais de três anos, enquanto muitas pessoas que estavam apenas há alguns meses no local já conseguiram um lugar para morar.

O pedreiro Jorge Ladeira, de 29 anos, relata que mora na Cidade de Deus há cerca de dois anos. Os funcionários da prefeitura fizeram seu cadastro e ele estava bem feliz que conseguiria um terreno próprio, mas agora já foi avisado que precisa abandonar o barraco.

"Não tenho aonde ir, tenho dois filhos, mas ambos moram com a mãe. Tinha a esperança de conseguir um terreno, fazer minha casa aos poucos e levar minhas crianças para morar comigo. Eles só não estão aqui agora, porque não tenho como deixá-los no lugar onde estou vivendo. Só pelo fato da gente ser solteiro não quer dizer que não temos o direito de conseguir ter dignidade?", ressaltou.

 

 Pedreiro diz que queria uma casa para morar com os filhos. Foto: Anna Gomes

Rufino Martinez, de 45 anos, foi um dos primeiros moradores da Cidade de Deus. Ele lembra que, quando chegou na favela, que até há um mês abrigava cerca de 400 famílias, havia apenas alguns barracos.

"Moro aqui há quatro anos, passei fome, chuva, na esperança de conquistar o meu pedaço de chão. Com nosso salário, não temos condições de pagar um aluguel e também não existe a possibilidade de conseguir financiar uma casa. Teve gente que morou apenas dois meses aqui e conseguiu um terreno. Nós que moramos há anos não conseguimos, apenas pelo fato da gente ser solteiro? Isso é um absurdo", disse.

 

Morador da favela há quatro anos, Rufino também não conseguiu um terreno. Foto: Anna Gomes

O também solteiro Tércio Maciel, de 45 anos, morador da favela há dois anos, relata que não tem aonde ir e não sabe o que vai fazer da vida após a desocupação.

"Nunca tive casa da prefeitura no meu nome, ninguém aqui que está reclamando teve. As casas foram pintadas de cores diferentes, para a prefeitura saber onde determinadas famílias iriam. Os barracos do solteiros foram pintados com a cor laranja e, durante o período de mudanças das famílias para outros bairro da cidade, os funcionários do município mudaram as cores de alguns. E só agora eles estão mandando a gente ir embora. Esperaram a favela 'enfraquecer' para não ter confusão, pois agora somos poucos", destacou.

 Tércio diz que famílias moraram meses e conseguiram, quem morou há anos, estão desabrigados. Foto: Anna Gomes

E não são apenas os solteiros que estão com medo de não conseguir uma moradia. O viúvo Nivaldo Pereira da Silva, de 59 anos, já conseguiu um terreno no Bom Retiro, região da Vila Nascer, mas mesmo assim vive o pesadelo de perder o tão sonhado terreno. Nivaldo também explica que a prefeitura foi completamente desorganizada com a retirada dos moradores e ressalta que várias famílias dependem do lixão, mas foram para bairros distantes, sendo que pessoas que não dependiam da reciclagem foram morar em um terreno próximo ao aterro sanitário.

"Trabalho no lixão e me deram o terreno perto da Vila Nasser e fica longe para mim, então normalmente vou trabalhar, almoço na casa da minha filha e meu barraco fica o dia todo sem ter uma pessoa para cuidar. Já ouvi boatos que podem tirar os barracos de quem não é casado e eu fico com medo de pensarem que, porque eu fico o dia todo fora trabalhando, alguém pode invadir, me fazer sair do terreno", lamenta.

  

O casal Emerson Siqueira, 20, e a esposa, Dayara Chaves, 18, também fizeram todo cadastro e, nesta manhã, a prefeitura simplesmente teria os mandado desocuparem o barraco.

"Não temos aonde ir e não sabemos onde vamos conseguir um lugar para morar. Pessoas que vivem de aluguel sabem o quanto pesa no orçamento, ainda mais nos dias de hoje que tudo está muito caro. Quando a gente vai perguntar alguma informação para os funcionários da prefeitura que trabalham aqui, nos tratam mal, sem educação, como se a gente fosse bicho. Tentam fazer tudo escondido da gente e, de repente, chegam e mandam a gente ir embora? Precisam nos avisar com antecedência", explicou Emerson.

 Casal estava sendo despejado nesta manhã. Foto: Anna Gomes

A equipe de reportagem tentou entrar em contato com a Prefeitura Municipal de Campo Grande com a intenção de buscar uma resposta para a população, mas até o fechamento desta matéria ninguém do município se pronunciou sobre o assunto.