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terça, 22 de setembro de 2020
Cidade Morena

Amor além da vida: cartas trouxeram respostas para pais recomeçarem após morte de Luiz

Caminhada de fé os levou ao espiritismo para suportarem a saudade do filho, assassinado aos 20 anos na Orla Morena

25 março 2019 - 11h00Por Amanda Amaral

Palavras escritas de caneta azul em páginas e mais páginas de sulfite branco. Na assinatura, o nome de Luiz Henrique de Souza Barbarotti, que havia falecido em 2018, aos 20 anos de idade. Estava ali no papel a paz que seus pais conseguissem retomar suas vidas em meio a tanta angústia.

O filho de José Nilton Gaioso, 53 anos, e Rosenilda de Souza Gaioso, 41, foi assassinado com três tiros nas costas na Orla Morena, quando passeava com o cachorro e amigos. Quando passavam em frente a uma casa, um pitbull escapou e os atacou. Eles tentavam se defender e afastar o cão, mas o dono do animal iniciou briga ao ver a cena e um homem mais velho se envolveu e disparou os tiros.  

“É difícil quando a dor bate na sua porta. Fomos acordados com a notícia de que nosso filho havia sido baleado, nem sabíamos pra que lado correr. Não havia nada o que fazer, ele já havia partido. Naquele momento, na nossa crença, coube fazer o sepultamento, buscar dentro da nossa doutrina cristã as respostas”, lembra José.

A partida repentina e pelo motivo descabido devastou o casal de evangélicos, que não conseguia mais enxergar qualquer entendimento e se afundava em tristeza. Nada os confortava e a dor era tamanha que o comércio que tocavam há anos fechou as portas.

“Minha ira era imensa, não aceitava, não entendia. Só escutava dos pastores que nosso filho dormia. Fui da igreja evangélica ao catolicismo, não fiquei satisfeito. Fomos em todas e era sempre a mesma resposta”, diz o pai.

Assinado, Luiz

Foi quando José Nilton lembrou de um amigo e foi visitá-lo que o caminho para o entendimento se desvencilhava. No espiritismo, encontraram nas cartas psicografadas um desconhecido elemento que resolveram apostar para se comunicar com o filho.

José conta que começou um trabalho investigativo no Brasil para saber como ter contato com Luiz e foi até Neves Paulista, interior de São Paulo, tentar qualquer fio de esperança que chegava através do médium Nilton Stuqui. Teria ido até a China se preciso, ele ressalta, mesmo sem nenhuma garantia.  

“A noite, chegou correspondência do nosso filho. E eu era desconfiado, mas chegou tão rica de detalhes que nos assustou. Em uma parte, falava sobre ele tirar a roupa suja de barro antes de entrar em casa, e comer as comidas da geladeira antes do jantar, brincar com os cachorros. No final ele assina, sou teimoso, conferi o RG dele e pasmem, era igual. Nós voltamos vivos”, conta.

O casal voltou outras vezes e a cada ida novas cartas chegavam com mais detalhes, como o pedido para a mãe descansar e parar de esperá-lo no portão. “Ele nos fala que a vida continua, ele tem os afazeres, a vida é parecida como na Terra e que ele está bem e feliz”, diz Rosenilda, que lembra que o filho desenhou um coração no dia em que ela também fez um desenho do rosto dele.

Recomeço

Apesar de reconfortados, José e Rosenilda contam que pessoas próximas os chamavam de loucos e diziam que ambos deveriam ser internados em hospital psiquiátrico. Amigos da igreja evangélica também se afastaram devido a aproximação com o espiritismo.

O casal considerou vender o comércio e ir embora, mas conheceram e se encontraram no Centro Espírita Irmão Marcos. Criaram um grupo de pais e torcem uns pelos outros, mesmo que não haja mais nenhuma carta de Luiz, que em abril completaria 22 anos. 

“Ele pediu pra gente pensar que é como se ele estivesse no campo, mexendo com gado, ocupado. É como um filho fora do Brasil estudando, comunica quando dá. Hoje nós sentimos a presença dele em tudo, já provou isso”, diz o pai, que se orgulha de ter conseguido junto a esposa retomar os negócios da família.

“Eu respeito e tenho fé em Deus, as cartas que nós temos já bastam, mesmo se a gente não receber mais nenhuma. Vou seguindo cada dia, quando vem a saudade, peço ajuda a Deus e choro, vai passando, tem que se acostumar com a saudade”, finaliza a mãe.

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