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Com déficit de 6 mil vagas, colocar as crianças na creche é como ganhar na loteria

Demanda para 2017 soma 12 mil alunos, segundo a Semed

18 DEZ 2016
Thiago de Souza
07h00min
Foto: André de Abreu

Para muitas famílias em Campo Grande, tão certo quanto a chegada do carnê do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) em suas casas é a falta de vagas na educação infantil. A probabilidade de achar vaga é como ganhar na loteria. Isso por que a demanda para 2017 já alcança 12 mil alunos, mas, segundo a Semed (Secretaria Municipal de Educação), atualmente, só podem ser acomodadas seis mil crianças.

A esperança da atual gestão, segundo a secretária Municipal de Educação, Leila Machado, é que a próxima administração conclua os Ceinfs (Centros de Educação Infantil) que estão em obras. Para o mês de janeiro, relata a dirigente, serão entregues os centros do Jardim Noroeste e Tijuca II, cada um com 180 vagas cada.

A secretária ressalta que esses números podem mudar, pois o período de matrículas não terminou. Enquanto a Semed aguarda o final do período de matrículas, para pelo menos constatar o déficit exato, pais e mães vivem uma incerteza a cada dia. Quem tem menos condições financeiras precisa mais da creche, porém a dificuldade para eles parece ser maior.

A jovem Taís sente na pele uma espera que já dura dois anos. Ela fez o cadastro para o filho, hoje com três anos, ainda em 2015, em uma creche na região do Santo Amaro, mas não conseguiu nada. Em 2016 renovou o cadastro, mas também passou o ano em branco. “Ficou o ano inteiro nessa palhaçada. Se não conseguir agora vou ao conselho tutelar tentar a vaga’’, reclama Taís, que trabalha como serviços gerais. Desde então, o menino fica com a mãe dela, uma senhora com problemas de saúde e que não consegue dispensar a atenção necessária à criança.

Raquel Medina Almiron tem 27 anos e é mãe de três crianças. A menor delas tem um ano e sete meses, mas aguarda uma vaga no Ceinf desde que a família saiu de uma favela no Vespasiano Martins, há cinco meses, e foi morar no Jardim Canguru. Agora, só resta a ela aguardar para ver se consegue uma colocação.

''Deixei o meu nome lá, mas isso não quer dizer que vai conseguir''. Almiron trabalha como serviços gerais e o marido fica com as crianças porque está desempregado. ''Se ele arrumar emprego não sei o que vou fazer. É só eu e ele, não tem jeito de deixar com ninguém'', explica.

Joselin Villarruel, 25 anos, está enfrentando dificuldade ainda maior. Ela é boliviana, e para ao menos tentar uma vaga na educação infantil, ela precisa ter um registro de nascimento de um menino de 3 anos validado pelas autoridades brasileiras. Ela já procurou o serviço de assistência social, e terá de comparecer a unidade no dia 26 de fevereiro de 2017 para tentar a vaga.

O drama de ver o serviço público não fazer aquilo que é essencial revolta Graciele Aparecida Pereira, 19 anos. Assim como a maioria dos moradores que foram transferidos de uma favela para um loteamento no Jardim Canguru, ela está ali há cinco meses e convive desde então com o descaso da prefeitura. Pereira é sozinha, e a filha de 3 anos está sem creche desde que mudaram. Ela precisa trabalhar, mas sem vaga no Ceinf não há como deixar as crianças sozinhas. ''Não tenho como pagar uma menina, vivo do Bolsa Família e os R$ 300 é pouco para pagar água, luz e comida'', lamenta.

Para a moradora, a falta de vagas em creches é considerada 'uma falta de vergonha' dos políticos. ''Eles tiram da gente que precisa para dar para os outros'', critica.

Desde que retornou ao cargo de prefeito, Alcides Bernal (PP) tem atribuído as mazelas da cidade à gestão anterior, de Gilmar Olarte. Ele e seus correligionários fazem discursos inflamados para justificar a paralisação de obras em Ceinfs da Capital. Porém, a secretária Leila Machado também atribuiu parte do problema à taxa de natalidade. ''São 14 mil nascimentos por ano, isso é uma pesquisa da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde)'', explicou. Mas ela também explicou que atual gestão abriu duas mil vagas na educação infantil readequando salas e construindo salas modulares.

Ajuda

Diante da negativa em relação a vagas, pais e mães têm procurado a Defensoria Pública do Estado para tentar solucionar o problema. Só em 2016, o órgão encaminhou 1.860 pedidos para que a Prefeitura consiga alocar a criança em um determinado centro de educação.

A Semed informou que a Prefeitura Municipal fez um convênio com a Defensoria. O órgão emite o ofício e a secretaria, quando não consegue alocar a criança na unidade desejada pelos pais, dá uma opção de vaga em três unidades, para evitar a superlotação.  Porém, em muitos casos não é possível abrir espaço para uma criança e a situação acaba sendo judicializada, ponderou Leila.

Esperado pela população desde 2013, o Ceinf Varandas do Campo, na região do Paulo Coelho Machado, está prestes a ser concluído, garante a Semed. A obra faz parte do pacote de calotes aplicado pela empreiteira Homex, que prometeu fazer essa benfeitoria na região onde conseguiu autorização para construir condomínios. Para março, estão previstos os ceinfs Vespasiano Martins e Anache, no Nova Lima.

Porém, existem quatro unidades de educação infantil que vão permanecer com as obras interrompidas, já que a empreiteira curitibana Casa Alta desistiu do contrato. Sendo assim, as obras do ceinfs do Serraville, Nashville, Jardim Colorado e Moreninha II terão de ser licitadas novamente, o que torna a conclusão imprevisível.

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