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Entidade luta para combater vício a drogas e álcool no Nova Lima

Regiões de Campo Grande

16 JAN 2014
Aline Oliveira
19h00min
Fotografia: Geovanni Gomes

 

O bairro Nova Lima enfrenta um grave problema social que é o alto número de famílias que sofrem com o problema de adicção em drogas e álcool. Um levantamento realizado pelos agentes de saúde da região revelou que o vício atinge todas as idades e ocasiona ainda prostituição infantil, homicídios e acidentes.

 

O líder comunitário José Ferreira Rocha Neto, o Zé do Anache, é presidente do Movimento de Apoio Social Campo-grandense e trabalha com uma Ong (Organização Não-Governamental) chamada “Grupo de Prevenção ao Alcoolismo Raio de Luz”. A entidade visa prevenir a utilização das substâncias ilícitas e trabalha com reuniões que promovem a vivencia de apoio às famílias, ouvindo os casos e orientando a busca por ajuda profissional. “Não acredito que a melhor solução seja o trabalho de reabilitação, mas sim, nos grupos terapêuticos e no foco da prevenção, a fim de evitar que jovens sejam influenciados pelos grupos no qual convivem”, analisou.

 

Zé do Anache afirma que a troca de experiências com os profissionais em assistência social e psicologia da rede municipal de saúde foram muito importantes para o trabalho que realiza. “Sou favorável à metodologia dos Alcoólatras Anônimos, a laborterapia e a técnica de Minesota. Não acredito em medicamento, pois quando passa o efeito do remédio a pessoa volta a beber e se drogar”, relatou.

 

Personagens – Duas histórias de moradores são exemplos do sofrimento moral que atinge toda família de adictos. Um deles é Clarindo Chagas da Silva, 34 anos, que mora no Nova Lima desde que nasceu. Filho de pais hansenianos, Clarindo e mais dois irmãos viveram boa parte da vida no educandário do hospital São Julião, em funcionamento desde a década de 70.

 

“Estudei até a quinta série e comecei a beber com 15 anos. Bebia corote mesmo e uso drogas também. É difícil demais, a gente acha que vai conseguir parar e não consegue. Já fui internado duas vezes no Contaps, mas recai. Tive muito apoio e hoje estou com depressão muito grande, além de ser hanseniano”, comentou.

 

Clarindo enfrenta uma situação de miséria extrema já que atualmente não possui emprego, a casa onde mora foi deixada pelos pais e não possui água, luz, tampouco banheiro. “Meu sonho é tomar um banho de chuveiro e acabar com as goteiras da casa. Também quero parar de beber, mas não consigo”, lamentou.

 

O homem que já foi coordenador de um grupo dos Alcóolatras Anônimos hoje está doente e desanimado com relação ao seu futuro. Questionado sobre qual foi a situação mais difícil, Clarindo lembra a morte dos pais. “Depois que meus pais morreram eu relaxei mesmo. Meus irmãos se afastaram e não me ajudam em nada, mas não tenho raiva não. Só fico triste, pois quando peço para tomar um banho na casa deles, tenho que implorar e me dão um balde com água”.

 

Para o adicto, seu maior benfeitor tem sido Zé do Anache que sempre acompanha os problemas e tenta auxiliá-lo no tratamento do vício. “considero o seu Zé como meu pai, já que não os tenho mais. Ele me ajudou muito, com as internações e mesmo me arrumando emprego. Acho que as pessoas só precisam de compaixão para não desistir e este meu grande amigo sempre ajuda”, revelou.

 

A segunda personagem que luta para se livrar do vício é Natally (não quis dar o sobrenome), 21 anos. Ela contou que começou a utilizar drogas com 12 anos e já foi internada duas vezes em decorrência da dependência em cocaína e pasta base. “Comecei usando maconha e logo depois parti para cocaína e pasta base. Quando tentei parar não consegui e fui internada, mas quando sai comecei novamente e me internaram novamente. Hoje estou há um ano e oito meses ‘limpa’, mas ainda é difícil”, desabafou.

 

A jovem aconselhou os jovens que tem curiosidade de experimentar e declarou que é um caminho sem volta. “Olha tem que ter muita opinião para parar, ninguém te leva a usar, mas quando você entra é quase um caminho sem volta. Então eu digo a quem não usou que nem experimente, para não passar pelo sofrimento que eu e minha família passamos”, finalizou.

 

Estigma da região – Zé do Anache comenta que é triste admitir a ‘fama’ do bairro de existir um comércio grande de entorpecentes, mas é preciso lutar pelos jovens que estão viciados, e principalmente, pelos que ainda não se renderam a sedução das drogas. “É uma realidade assustadora, a cada dia aumenta mais o número de usuários e de quem comercia as substâncias ilícitas. Mas, temos que lembrar que o álcool também é uma droga que desestrutura e adoece as famílias. Se não tratarmos toda a família, fica muito difícil curar o viciado”, reforçou.

 

Para o líder comunitário e dirigente da ong, o município ainda é carente de políticas públicas voltadas a prevenção e tratamento de usuários. “Temos na Capital somente um hospital especializado, que é o Nosso Lar com 75 leitos para atender uma grande quantidade pacientes. No Civitox do Hospital regional são mais 20 leitos e na Santa Casa, 15 vagas apenas. Como iremos atender a população de todo Estado? É importante criar projetos consistentes que orientem crianças e jovens, fortalecendo os valores e mostrando os malefícios do vício. Só assim conseguiremos reverter esta doença que hoje é mundial, o vício em drogas”, finalizou.

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