segunda, 09 de fevereiro de 2026

Busca

segunda, 09 de fevereiro de 2026

Link WhatsApp

Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Top Mídia News
Meio Ambiente

há 3 meses

Maior do planeta: Bioparque só foi possível pela pureza das nascentes de Campo Grande

Água sem produtos químicos garante reprodução de espécies e transforma visitantes em guardiões da natureza

 

Antes de ganhar paredes de vidro e encantamento turístico, o Bioparque Pantanal nasceu onde ninguém vê: no ventre silencioso das nascentes que alimentam Campo Grande — as mesmas fontes preservadas há 25 anos pela Águas Guariroba.


É dessa proteção constante que nasce a pureza da água que sustenta o maior aquário de água doce do mundo, onde espécies se reproduzem sem produtos químicos e visitantes descobrem o poder invisível da preservação.
A maioria dos turistas chega assombrada pelo tamanho das espécies, pela transparência dos tanques ou pela grandiosidade da arquitetura. Mas o verdadeiro feito do Bioparque está antes da superfície.

 

Vozes que despertam

A arquiteta peruana Erica Salmiento, 46, visitou o complexo para ver de perto a grandiosidade do aquário, mas descobriu outro impacto, ainda mais profundo: a origem da vida que sustenta tudo aquilo.

“Fiquei impressionada… Aqui pude perceber a importância do cuidado com os rios e com a água. A gente entra para ver peixes, mas sai pensando no legado que queremos deixar no mundo. É uma marca que transforma o jeito de olhar para o planeta e como podemos contribuir para a sua existência”, afirma.

A engenheira ambiental campo-grandense Izabella do Carmo, 25, viveu a mesma percepção — mas com um tom revelador.

“Mesmo trabalhando na área, eu não fazia ideia de que a qualidade da água era o fator determinante. Aqui, preservação deixa de ser conceito e vira fundamento. Cada uma das plaquinhas mostram como uma cidade pode proteger aquilo que nasce”, comenta.

Esses relatos confirmam: o aquário não é de concreto — é de nascente. Se a água nascesse ferida, o projeto não existiria no mesmo padrão. Se chegasse contaminada, não haveria equilíbrio, sobrevivência, nem reprodução preservada sob os olhos do público.

Foi essa base escondida que atraiu mais de 1 milhão de visitantes desde a inauguração.

O que poucos percebem é que o espetáculo começa antes do primeiro peixe: o Bioparque só existe porque Campo Grande protegeu, por décadas, o ponto mais frágil da cadeia — o nascimento da água.

 

Foto: Marcos Maluf

“A Águas Guariroba mantém um trabalho permanente de monitoramento e preservação dessas áreas, por meio do Viveiro Isaac de Oliveira, que permite o plantio de mudas nas Áreas de Preservação Ambiental (APAs), além de ações educativas voltadas à conservação dos recursos hídricos. Essa atuação integrada, aliada à riqueza natural do território, explica por que Campo Grande se destaca nacionalmente pela pureza de sua água bruta”, explica Fernando Garayo, gerente de Meio Ambiente da Águas Guariroba.

 

A ciência por trás da pureza

Foto: Marcos Maluf

Segundo o engenheiro ambiental Vinícius de Oliveira Ribeiro, doutor em Saneamento Ambiental e Recursos Hídricos pela UFMS e coordenador do CESAM/UEMS, a água subterrânea utilizada no Bioparque passa por um tratamento natural antes de chegar aos tanques.

“Esse sistema só é possível porque a água subterrânea de Campo Grande apresenta excelente qualidade físico-química e microbiológica — reflexo direto da boa conservação das áreas de recarga dos aquíferos locais”, explica.

As zonas de recarga são áreas onde a chuva infiltra no solo e reabastece os aquíferos. Quando mantêm cobertura vegetal e ausência de contaminação, a infiltração ocorre de forma eficiente, e a água se renova com qualidade.

“No caso de poços profundos como o do Bioparque, com 203 metros, a preservação dessas zonas é vital. Qualquer degradação pode, a médio prazo, comprometer tanto a quantidade quanto a qualidade da água disponível para o bombeamento”, alerta Ribeiro.

 

 Parque que guarda o invisível

Nesse contexto, o Parque Estadual do Prosa cumpre papel essencial. Além de preservar um dos últimos remanescentes de Cerrado nativo dentro da cidade, protege nascentes estratégicas que alimentam os córregos Prosa e Desbarrancado — fundamentais para o sistema hídrico da Capital.

Foto: Marcos Maluf

Um estudo do projeto Água para o Futuro, desenvolvido pelo CESAM/UEMS em parceria com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), identificou seis nascentes em excelente estado de conservação dentro do Prosa.

Essas nascentes funcionam como sentinelas ambientais: revelam o comportamento do sistema subterrâneo e dão o primeiro sinal de desequilíbrio quando algo muda no solo.

“Preservar nascentes e zonas de recarga não é apenas ação ambiental — é uma política de infraestrutura e segurança hídrica. Sem infiltração, não há recarga; sem recarga, não há aquífero; e sem aquífero, falta água — para as pessoas, para a ciência e para o futuro”, resume Ribeiro.

Foto: Marcos Maluf

 

O ventre subterrâneo da cidade

Nos bastidores do Bioparque, longe do olhar do visitante, a água flui como sangue em veias subterrâneas. É um sistema que depende da fidelidade entre origem e destino — entre nascente e tanque.

Foto: Marcos Maluf

A engenheira civil Estela Dejane, responsável pelo manejo hídrico do complexo, explica que o segredo está na pureza de um poço de 203 metros de profundidade e no sistema automatizado que monitora cada parâmetro com precisão.

“A preservação das nascentes interfere diretamente na qualidade da água que a gente retira do subsolo, influenciando parâmetros como pH, alcalinidade e até temperatura”, afirma.

Antes de dar vida aos peixes, a água é filtrada por carvão, areia e luz ultravioleta. Nenhum produto químico é necessário para mantê-la equilibrada.

“É essa pureza que permite que espécies sensíveis consigam se reproduzir em cativeiro. É sinal de que a água tem vida própria. Se a nascente fosse outra — ferida, saturada, sem proteção — o tratamento teria de ser muito maior, e o Bioparque também seria outro”, completa.

 

Berçário urbano

O complexo funciona como um berçário urbano, onde a cidade devolve à natureza aquilo que protege nas profundezas: a possibilidade de nascer.

Há peixes que se reproduzem ali dentro como só fariam no ambiente natural. A reprodução, nesse caso, não é técnica — é confiança.

Foto: Marcos Maluf

Bioparque Pantanal tem conseguido oferecer condições muito próximas às encontradas nos habitats originais dessas espécies, seja pelo robusto sistema de suporte à vida que possui, pelo trabalho voltado ao bem-estar dos animais e a nutrição dos mesmos. É por isso que, nele, já foram reproduzidas 93 espécies de peixes de água doce, sendo 15 registros inéditos no Brasil, 28 inéditos no mundo e 4 espécies ameaçadas de extinção. 

O biólogo curador Heriberto Gimênes Junior, responsável pelo manejo das espécies, explica que o complexo possui um robusto sistema de suporte à vida que garante os Parâmetros adequados para as faixas ideais de cada espécie, como temperatura, pH, oxigênio dissolvido, condutividade, transparência e composição química.

Alterações nesses parâmetros podem gerar estresse fisiológico, e interrupção dos comportamentos reprodutivos naturais. Já em condições ideais, os peixes apresentam respostas hormonais e comportamentais positivas, como formação de casais, construção de ninhos e por fim a reprodução.

“A reprodução espontânea em ambiente controlado demonstra que o empreendimento oferece condições adequadas para o desenvolvimento das espécies. O ambiente apresenta equilíbrio físico, químico e biológico — funcionando como ecossistemas saudáveis e autorregulados. Isso reforça o papel do Bioparque Pantanal como modelo de conservação ex-situ eficiente e de referência científica.”

De acordo com o biólogo, o sistema de abastecimento é calibrado para atender às necessidades específicas de cada espécie. É isso que permite que peixes de água doce convivam lado a lado — e ambos encontrem condições de gerar vida.

 Foto: Marcos Maluf

Guardiões em formação

Nos corredores que abrigam espécies do Pantanal e de várias regiões do país, o visitante é tomado por encantamento — mas sai tocado por algo mais profundo.

Ele entende que o aquário não começa nos tanques, mas nas nascentes. Ali, a contemplação vira pertencimento. O visitante que chega curioso sai convocado — guardião em formação, cúmplice da natureza que agora reconhece como sua.

Foto: Marcos Maluf

A diretora-geral do Bioparque Pantanal, Maria Fernanda Balestieri, resume: “Cada tanque, cada explicação e cada detalhe da ambientação foi pensado para despertar a consciência sobre a interdependência entre os seres vivos e os ecossistemas aquáticos. Sem perceber, o visitante faz conexões entre o que vê e o que vive: entende que conservar os rios é proteger as espécies, e cuidar da água é cuidar de si mesmo.”

Foto: Marcos Maluf

No fim, o que o visitante encontra diante do vidro não é apenas fauna preservada, mas o princípio da água devolvido à cidade.

O Bioparque é o testemunho de que a vida começa antes dos olhos — começa onde a nascente ainda é ventre, intacta, inaugurando o mundo que depois emerge em forma de peixe. 

Siga o TopMídiaNews no , e e fique por dentro do que acontece em Mato Grosso do Sul.
Loading

Carregando Comentários...

Veja também

Ver Mais notícias