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COLUNA

Tema Livre

A vida é um eterno rasgar-se

1 JUL 2019
Kamila de Souza
09h47min

A vida é um eterno rasgar-se e remendar-se, li isso em exposição no Rio de Janeiro, em novembro do ano passado. Viver exige da própria pele um esforço para continuar um percurso incerto, inseguro e duvidoso.

Nascemos como resultante do desejo ou do deslize e alguém. Chegamos ao mundo sem querer e, com o passar do tempo, lutamos com unhas e dentes para permanecemos vivos. Tentamos nos reconhecer no outro e em nós mesmos o tempo todo e, na medida em que vamos avançando, percebemos que a responsabilidade sobre o nosso viver (enquanto verbo  de percurso) é nossa, que ninguém nos deve nada e que, além de tudo isso, nossa vida é um acidente e a nossa sentença é a morte. 

Sim, a vida já é uma sentença de morte. É a única certeza, como todos dizem, que nós temos. Alguns temem por isso, outros querem adiantar esse processo e outros só vivem até morrer. Uma moça diagnosticada com câncer dizia, em certa ocasião, que a doença não era um perigo para ela, uma vez que ela via o perigo em não fazer as pazes consigo, em odiar o seu corpo e em não cativar e cultivar as pessoas que estavam com ela. Sobre a morte ela já sabia. Seu maior desafio era discursar e colorir o seu viver. 

Às vezes, isso pode parecer pessimista, visto que somos ensinados, sob um ponto de vista religioso e tradicional, que a vida é um dom de Deus, é bênção, é necessária para a manutenção da espécie humana, por exemplo. Mas, de que adianta romantizar a vida sendo que seu qualis está para além de qualquer suposição? As revistas estão cheias de dicas sobre como ser feliz, sobre um padrão de corpo, beleza e jeito de ser para que os sujeitos circulem "bem" por ai. As livrarias ganham muito dinheiro com os best books que oferecem 5 Passos para melhorar a eficácia, 10 Passos para deixar de ser trouxa, 50 Passos para emagrecer... Mas o viver, me desculpe, não cabe nisso.

O tempo inteiro tentamos esconder a dor de que a vida é um acidente e cheia de gaps, que não há felicidade plena, pois ser humano dói muito, se reconhecer no próprio corpo é uma tarefa que nunca vamos conseguir terminar e parar de demandar do outro que nos explique a razão de estarmos aqui sempre será um dos maiores furos da nossa existência. 

Em análise ou não, nos rasgamos o tempo todo para lidar com essas e muitas outras questões e, à nossa maneira, vamos construindo da melhor forma possível um modo singular de viver, de ser nesse mundo. Aos poucos, transformamos esse acidente em uma aventura, com altos e baixos, dores e amores, tragédias e conquistas. Penso que a nossa tarefa é escolher as linhas e as agulhas com as quais costuraremos nossas feridas e buracos, todas as vezes que eles forem abertos ou não.  Nossas linhas, nossas marcas, nossos percursos, nossas histórias. Incertos ou não. Até a morte!

* Kamila de Souza é psicóloga e psicanalista em formação. Contato: psi.kamilasouza@gmail.com 

(Foto Arquivo/Kamila de Souza)

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