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Tema Livre

Autolesão: o que precisamos saber?

8 JUL 2019
Edinelson Queiroz
12h35min

A Autolesão é um fenômeno descrito de longa data, porém tem se constituído como um grande sintoma da sociedade atual, ganhando adeptos principalmente na população adolescente e jovem, especialmente pela propagação no ambiente virtual e maior exposição nos veículos de mídia, tendo seu ápice no primeiro semestre de 2016, com as notícias sobre o jogo Baleia Azul.

Por ser uma fonte constante de preocupação, sobretudo, no contexto familiar e escolar, a autolesão tem sido considerada um problema de saúde pública. Assim, comportamento bastante presente entre o público mais jovem na atualidade, esse texto visa abordar o assunto de forma objetiva e informativa, tendo como finalidade servir de referência para pais/familiares e demais educadores.

Cabe ressaltar que o comportamento autolesivo ocorre em diversas faixas etárias, sendo predominante no sexo feminino. Vários são os fatores de riscos, como, características da personalidade, transtornos psiquiátricos, uso de substâncias psicoativas, problemas familiares, problemas sociais, bullying, autoestima e autoimagem fragilizadas, conflitos na sexualidade, histórico de abusos físicos, verbais, psicológicos, sexuais, crises existenciais etc. Apesar de funcionalmente não ser acompanhada da intenção de autoextermínio, a autolesão aparece como um fato preditor para o comportamento suicida. Ou seja, ainda assim, é preciso considerar que pessoas com histórico de autolesão compõem um grupo de risco de particular importância para a prevenção do suicídio, estando o comportamento autolesivo presente em pelo menos 40% dos suicídios.

1 - O que é Autolesão Sem Intenção Suicida (ASIS)?

  • É um comportamento de alguém que está em sofrimento e tem como principal objetivo o alívio da dor emocional.

Apesar de muitas vezes o comportamento suicida e a autolesão sem intenção suicida estarem associados, não são a mesma coisa. Na autolesão sem intenção  suicida (ASIS), a pessoa não tem intenção de interromper a própria vida, tem sim a intenção de lidar com o sofrimento psíquico, produzindo lesões em seu corpo. Devemos ressaltar que tanto a autolesão quanto o comportamento suicida devem ser abordados com cuidado, avaliados e tratadas adequadamente.

2 - As pessoas se lesionam (ferem) de uma única maneira?

  • Há uma grande variedade de métodos que as pessoas em sofrimento usam para a autolesão, sendo o corte numa parte do próprio corpo a maneira mais frequentemente usada.

O corte em alguma parte do corpo é o método usado por 90% das pessoas que se lesionam. No entanto, outras formas são usadas, como queimar-se, morder-se, bater-se e mesmo amputar um membro (automutilação). Geralmente usam partes do corpo pouco visíveis, ou passam a adotar peças de roupas pouco usuais para o período do ano, no intuito de esconder essas partes do corpo. Um exemplo típico é o uso de casacos, mesmo nos dias de calor.

3 - As pessoas que se lesionam têm um único objetivo?

  • Existem vários objetivos alegados por quem pratica a autolesão, sendo os dois mais prevalentes o alívio da dor emocional e a autopunição.

Muitos motivos podem levar uma pessoa à autolesão. Uma pesquisa listou 13 motivos ou funções citados pelos jovens que a praticavam. Entre eles, o alívio da dor emocional, a autopunição, o desejo de vingança, querer pertencer a um grupo, de provar que aguenta a dor, de procurar ter alguma sensação, de sentir algo.

4 - As pessoas que se lesionam querem chamar a atenção?

  • Quem chega ao ponto de ferir a si mesmo pode até estar querendo chamar a atenção de alguém. Assim como pode querer conseguir outro objetivo que não seja chamar a atenção.

Chamar a atenção de alguém pode ser um dos motivos que levam uma pessoa à autolesão, porém devemos lembrar que essa hipótese também demonstra um grau de sofrimento e adoecimento, então não se deve minimizá-la, muito pelo contrário, a pessoa deve ser ajudada a buscar um tratamento.

5 - O que devem fazer os pais que descobrem seus filhos se lesionando?

  • Acolher o filho e conversar sobre o que está acontecendo, sem julgamentos.

Os pais devem sempre acolher, conversar, buscar o entendimento do que está se passando com o seu filho. Nunca minimizar as queixas ou motivos de sofrimento. Brigar, reprovar, punir criará um afastamento entre as pessoas e a tendência é agravar-se a situação.

Provavelmente, é hora de buscar atendimento com profissionais de saúde mental (especialmente psicólogo e psiquiatra). É importante vencer o estigma e a resistência a buscar ajuda especializada.

6 - Quando professores ou gestores de escolas descobrem estudantes se lesionando, o que devem fazer?

  • Devem buscar o diálogo com esses estudantes e com os pais ou responsáveis.

Assim como no ambiente familiar, a escola deve ouvir, acolher e ajudar a encontrar alternativas e a melhor estratégia para lidar com a situação. Temos também que lembrar da característica de contágio (propagação) do comportamento de autolesão, o que torna o contexto escolar de particular importância. Expor, humilhar ou punir o estudante que se lesiona não o ajuda a superar seus conflitos e dificulta o pedido de ajuda dos demais.

7 - A autolesão é um comportamento motivado por:

  • Sofrimento grave, com o qual alguém não consegue lidar de outra forma naquele momento.

Ninguém recorre a comportamentos autolesivos sem estar sofrendo. Precisamos acolher esse indivíduo e ajudá-lo a buscar tratamento, que nesses casos deve ser com psiquiatra e psicólogo, preferencialmente. A rede de apoio social também é de suma importância: família, amigos, grupos (escola, trabalho, igreja, associações etc.).

8 - Pessoas que se lesionam são loucas?

  • Não. São pessoas que estão em sofrimento grave.

Não se deve rotular e estigmatizar as pessoas. A autolesão indica um sofrimento, mas é uma condição que deve ser diagnosticada e tratada.

9 - As pessoas que se lesionam sempre terão esse comportamento?

  • Não. É possível reduzir ou cessar os episódios de autolesão.

É um engano achar que uma pessoa que uma vez se lesiona sempre repetirá esse comportamento. Com um bom tratamento psicológico e psiquiátrico, além do apoio de seu círculo de convivência social, em especial da família e da escola, essas pessoas podem passar por um amadurecimento psíquico e aprender a lidar com o sofrimento sem precisar ferir a si mesmas.

10 - Quando descubro que alguém está se lesionando, devo guardar segredo?

  • Depende.

É importante preservar a privacidade da pessoa, mas, em situações de risco, devemos revelar o comportamento de risco a pessoas que possam ajudar a garantir a segurança. Mesmo os profissionais de saúde que prezam pela confidencialidade, em caso de risco de morte do paciente, devem por obrigação acionar a rede de apoio necessária para que isso não aconteça.

Concluindo, o ideal é que tanto a família quanto a escola possam oferecer condições necessárias ao desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais nas crianças e adolescentes para aprenderem a lidar melhor com as suas próprias emoções e com as emoções dos outros de maneira positiva, saudável e feliz.

Fonte: texto baseado na CPI DOS MAUS-TRATOS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES do Sena Federal - Vamos conversar sobre Prevenção da Autolesão? 2017/2018.

Texto adaptado e escrito pelo Psicólogo Edinelson Queiroz - CRP/14 04840-8

Contato: 67 99944-0757 (Cel e Whats)

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