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COLUNA

Tema Livre

Bullying: o não respeito e a violência

5 JUN 2019
Kamila de Souza
10h41min

 “You can post a suicide prevent phone numbers all you want but if you really want to help prevent suicide, depression and self-harm, stop being such asshole to each other online and in real life.”

Essa frase foi postada por uma garota escocesa em seu blog pessoal, onde ela compartilha com o mundo o seu aprendizado após ter sido diagnosticada com agorafobia e panic disorder (algo próximo ao transtorno de pânico), suas experiências com a psicoterapia, com o uso de medicamentos e a sua nova forma de lidar com as próprias emoções, os sentimentos e, principalmente, com o próprio corpo. Tudo isso, segundo ela, decorrente dos anos em que sofreu bullying. “Você pode postar um número de prevenção ao suicídio quantas vezes você quiser, mas se você quer realmente ajudar a prevenir o suicídio, a depressão e a automutilação, pare de ser um babaca online e na vida real.”, diz a frase.

Analisando esse fenômeno crescente, o bullying e/ou cyberbullying (as violências, de modo geral), saltam aos olhos a decadência – vamos usar essa palavra – de um valor essencial para a convivência entre os pares e grupos: o respeito. Ao escutar, principalmente, adolescentes em rodas de conversa e palestras é notável a repulsa, a indiferença ou, até mesmo, a inabilidade para lidar com o “não igual”. Dentre todos os fatores que compõem esses pontos, existe uma dificuldade imensa em lidar consigo mesmo, uma necessidade de ser aceito pelo grupo, de não passar vergonha, ser reconhecido, uma demanda para ser visto e valorizado, CUSTE O QUE CUSTAR.

Os comportamentos hostis, a violência física, o assédio moral e psicológico via ofensas, “tiradinhas”, humilhações e constrangimentos, são formas não saudáveis e socialmente intoleráveis para se fazer presente. Por outro lado, daquele que ocupa o lugar de alvo é cerceado o “direito” de ser visto e a possibilidade de ser aceito também. Esses pagam um preço com o próprio corpo. Paga-se o preço por ser loiro, moreno, magra, gorda, alto, baixa, por uma deficiência, por uma inabilidade, por uma falha, por uma falta, por não pertencer a certo grupo social, enfim.

Sem partidarismo ou divisão de grupos, agressores e vítimas, bom e ruim, talvez seja importante questionar a razão pela qual o sujeito na contemporaneidade vem transitando por esses lugares permeados de um sectarismo, quase religioso, que o autoriza excomungar um diferente ou a ser excomungado por ser diferente. Entende? É como se houvesse (na verdade, para muitos, há) um padrão para poder circular entre os outros e você está fora se não seguir o baile. E ai, é obvio, todas as desordens comportamentais, físicas e psicológicas possíveis se conformam para denunciar um sofrimento.

Em reunião com alguns alunos, certa vez, pedi que eles escrevessem em um papel algo ruim sobre si mesmo para que isso fosse lido, para todos ao final, sem que ninguém fosse identificado. Dentre os papéis lidos (Sim! Muitos tinham conteúdos extremamente peculiares e doloridos), 95% dos escritos eram relacionados ao ódio que tinham do próprio corpo. Todos ficaram em silêncio e extremamente chocados, visto que alguns alunos sofriam algum tipo de chacota por serem de tal jeito/forma, apesar de quase todos sentirem a mesma coisa: “todos nós somos iguais, em alguma medida... estranhos, eu diria!”, “sim, isso nos mostra que não faz sentido te zoar, por exemplo, já que eu também tenho uma questão.”, “acho que todos nós devemos nos resolver para lidar com o outro. Jogamos e deixamos que ele jogue na gente aquilo que tem de mais podre.”.

Diante de tudo isso, que em nada é conclusivo, e nem tinha a intenção de ser, vale trazer para esse texto um posicionamento resultante da conversa com os alunos e que pode ser inferido aos lermos a frase inicial, o de que ninguém precisa gostar de ninguém, ocupar o lugar de ninguém ou fazer coisas circenses para ver ou ser visto, basta respeitar. Basta deixar o outro ser quem ele quiser e, enquanto isso, ser quem você acha que pode ser. “Se enxerga!” e “vai procurar a sua turma” nunca fizeram tanto sentido. A mudança de posição só acontece quando você ingressa em um saber sobre si e procura, ao seu modo, o que mais lhe convém no viver!

* Kamila de Souza é psicóloga e psicanalista. Campo Grande – MS. psi.kamilasouza@gmail.com.

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