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COLUNA

Top Pipoca com Pedroka

Pedro Martinez

Dumbo: revisitação primorosa...

Nostalgia

01 abril 2019 - 10h32

Existe alguém melhor que Tim Burton para dirigir uma obra que existe por causa da magia? A Disney acertou em cheio por escolhê-lo. Ele botou o seu toque na história original que nos apresenta um elefantinbo de orelhas grandes e que tenta refletir sobre a aceitação e aplauso ao inusitado com pitadas de estranheza e preconceito escondido: adjetivos que são a cara das obras de Burton.

Ele não se contenta em fazer um simples remake. Ele não se acomoda nas obviedades e harmoniza novos caminhos para uma história já carimbada. Ele expande essa história. Agora a visão é bem mais otimista e digo até mais honesta que o desenho dos anos 40.

Nessa versão você não verá todos aqueles animais falantes. Agora a saga de Dumbo para reencontrar a Sra. Jumbo depende do empenho dos irmãos Farrier, o casal de crianças que vivem com o circo e também enfrentam dores incalculáveis. Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins) não sonham em se exibir no picadeiro; na verdade eles estão lidando com a recente perda da mãe e a volta do seu pai da Guerra mutilado. Porém a identificação com a dor do paquiderme os deixa obcecados por ajudar o bebê e, isso os ajuda a superar os próprios percausos.

O grande acerto no roteiro de Ehren Kruger é esse paralelo criado entre os dramas de Dumbo com o das crianças. Assim a história ganha mais camadas numa trama que pode por vezes ser ácida e determinista, ainda que cheia de fofura. Isso funcionou muito bem nessa versão. Há muito carisma no elenco e é inevitável a torcida pelos Farrier e pelos membros do circo dos Médici. O desenvolvimento dos personagens nos toca. Além de Dumbo e os irmãos, temos o esperançoso pai das crianças, Holt (Colin Farrel) tentando ser um responsável melhor e Collete (Eva Green) se tocando que poderia ser uma pessoa melhor. As dores e as verdadeiras boas intenções são efetivamente mostradas e encaminhadas. Para que nosso contato com os personagens não se torne superficial. E caricatas são as figuras Medici (Danny DeVito) e Vandermere (Michael Keaton), que por vezes roubam a cena.

Toda essa nova configuração da história de Dumbo também trás alguns pontos de vista esquecidos no original: os maus tratos aos animais de circo e a ganância da gerência de um circo. Nisso o roteiro é honesto e mostra a realidade que existia na época em que o longa se passa.

Os toques de Burton à obra original também impressionam. Mesmo que às vezes ele mude um pouco o enfoque aqui ou ali. Ele soube equilibrar muito bem suas convicções pessoais com as referências ao original. Hora cabe humor, hora cabe discrição para representar de alguma forma os momentos emblemáticos do antigo filme.

Lembra da sequência em que embebedavam o pequeno Dumbo na alucinante cena dos elefantes rosas?! Aqui nesse live-action o politicamente correto vence a necessidade de não incluir essa cena e não faz falta.

E o que arremata de vez a qualidade da nova obra é sem dúvida o visual. É um espetáculo a parte. A proposta do circo Medici e o grandioso Dreamland de Vandevere levam nós, expectadores, a embarcar nos bastidores do picadeiro e da hora do show. Criam-se belas ambientações cheias de cores de coreografias dando peso para experiência toda.

Dumbo justifica que era realmente importante revisitar a obra após quase 80 anos. É ótimo embarcar nessa nostalgia. E, num tempo de tanta intolerância, é importante lembrar que ainda existe magia no diferente, e sempre existiu.

5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas.