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COLUNA

Top Pipoca com Pedroka

Por Pedro Martinez

El Àngel: roubar é uma arte...

Inconsequente

15 ABR 2019
17h27min

O filme de hoje foi visto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro de 2018. Com direção de Luís Ortega, um nome de peso está na produção: Pedro Almodóvar.

Em El Àngel o personagem principal fascina logo de cara: é "ladrão de nascimento", como se auto define. Carlos Robledo Puch (Lorenzo Ferro) foi responsável por cometer quase 40 roubos ou mais e 11 assassinatos; mas nenhum deles por prazer sádico e muito menos pela necessidade de ter o dinheiro. O moleque diz o tempo todo que a família é boa, amorosa e também rígida, como deve ser. Mas para Carlitos esse é um talento; um dom e essa é a razão de fazer o que faz. E o prazer está na ação em si, não na recompensa que divide com seus cúmplices. "O mundo é dos artistas e ladrões" riem ele e outro personagem que se aproximam assim em prol da manipulação, astúcia, criatividade e senso de humor pelo espetáculo.

Mas um grande elemento que se destaca é a qualidade da produção. Conta com vários cenários diferentes, todos muito amplos e vários cômodos cuidadosamente montados com objetos e acessórios dos anos 70. Cada cena é perfeitamente iluminada e enquadrada através de uma câmera que foca um plano simples, discreto e ao mesmo tempo cheio de significados. Já a montagem cria um ritmo intenso mesmo tendo duas horas de duração. E tem um mérito: mesmo rigoroso à época, é acessível para qualquer público.

El Àngel também descreve, e muito bem, o prazer quase que sexual associado ao roubo. Tem certo homoerotismo envolvendo Carlitos e seu parceiro Ramón (Chino Darín), o que nos fornece algumas cenas tensas e muito criativas até. O ato de roubar os confere uma sensação de onipotência e de poder, lhes dando muito mais virilidade e atiçando  sua libido. Carlitos têm ao seu lado uma família de ladrões, com Ramón, a mãe Ana Maria (Mercedes Morán) e José (Daniel Fanego). O jovem meliante com frequência aparece ali de cueca, sem pêlos no corpo e sugerindo um jeito todo infantil e casto; tanto que nunca ninguém o vê como um frio assassino.

Carlos Robledo Puch é um dos maiores criminosos da história da Argentina mas aqui os preconceitos parecem ser desfeitos por esse aparência de cidadão de bem; o que ele definivamente não era. A interpretação de Lorenzo Ferro é digna de perfeita atuação já que ele entrega consciência nos gestos misturada a total impulsividade. Ele é ingênuo mas ao mesmo tempo malicioso. É infantil mas sedutor. Quando dança, literalmente, é tão inconsequente quanto seguro si. E o grande Q a mais do longa é que está  rodeado de personagens também muito complexos. Na maioria das cinebiografias os coadjuvantes são reduzidos a simples órbitas do personagem principal, mas aqui não. A direção e produção, já experiente, encontra espaço igual a todos os indivíduos. São todos autônomos.

El Àngel cria metáforas e mostra poesia aliada a demais elementos para representar a época e os fatos. Essa citada dança de Carlitos, no início e fim, e o revólver e o lança-chamas apontado são para nós, o público e provocam os sentidos para além da linearidade dos fatos e das relações de causa/consequência. É uma história verídica que estabelece uma fábula sem moral e julgamentos da psicologia de um criminoso.

5 pipocas!

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