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COLUNA

Top Pipoca com Pedroka

Pedro Martinez

Era Uma Vez em Hollywood: nostalgia pura...

Uma outra possibilidade para Sharon Tate

21 agosto 2019 - 11h00

Além de todos os combates, derramamento de sangue e frequente violência presente nos filmes de Tarantino, há sempre um impulso emocional fundamental para justificar o enredo. Seja na busca de Django por sua esposa ou na noiva em busca de vingança pela filha não nascida, a emoção sempre está lá.

No entanto, eu nunca vi um filme de Quentin que fosse tão doce e ao mesmo tempo tâo nostálgico quanto esse novo Era Uma Vez em Hollywood.

Estreando no Festival de Cannes desse ano, 25 anos depois de Pulp Fiction, Era Uma Vez... inicia seus causos em um sábado, 8 de Fevereiro de 1969 no coração da Hollywood da época. Lá conhecemos Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator de TV que já fora muito popular, por estrelar a série Bounty Law, mas agora se vê renegado a lugares um tanto quanto ortodoxos. E junto dele constantemente está Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê dos tempos áureos que agora age basicamente como um chofer e babá de luxo.

- E onde está a emoção do filme, Pedroka?! Calma que eu já chego lá.

Nisso, seu produtor Marvin Schwarzs (Al Pacino) tenta convencer Dalton a se mudar para Roma e estrelar bangue-bangues spaghetti. Tudo isso porque, para ele, uma vez interpretando vilões como convidado, a audiência não vai ver você mais como herói e isso diminuirá ainda mais suas chances de ser contratado para outro programa. Então, que mal faria ir para Itália e ainda ganhar algum dinheiro? Para Dalton faria muito mal; tanto que ele sai da reunião horrorizado com sua nova perspectiva, pensando que agora ele chegou no fim da linha. É nessa emoção de fim da linha que Dalton busca redenção.

A única coisa que consola Rick é o fato dele morar em Ceilo Drive, uma rua notória na história de LA. É lá que também moraram Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa Sharon Tate (Margot Robbie). Para quem não se lembra, Tate e o outras 3 pessoas foram mortas em casa por membros da "familia Mason" em um crime que chocou o mundo todo.

Mas em Once Upon a Time estamos a meses do crime.

Temos um filme de Tarantino que flerta com uma história revisionista. Ele pensa aqui em coincidências que poderiam causar uma reviravolta na história verdadeira. O simples fato de Rick Dalton viver ao lado de Sharon Tate revela essa ideia logo de cara. Ao contrário de Bastardos Inglórios e Django, o que acontece aqui não está no contexto de vingança ou justiça moral e sim na memória afetiva. Tarantino nasceu e passou parte da infância em LA, e tinha 6 anos na época do crime de Mason, por isso ele sabe muito bem qual era o clima antes da barbárie. A falsa inocência de segurança na cidade acabou na noite em que Sharon Tate foi morta e o filme tenta lembrar da boa época antes disso; que talvez poderia ter continuado não fosse o acontecimento bizarro.

Antes não haviam desabrigados, não existiam crimes chocantes. Nenhuma loja fechava e nenhum estacionamento estava vazio. Todo esse glamour existia antes de 1969 e é essa a magia que tenta se destacar até o surgimento de Mason e suas garotas demoníacas.

Era Uma Vez em Hollywood é um filme particularmente agradável de se perder na popularidade por mergulhar na cinematografia calorosa dos anos 60/70 e na trilha sonora que explora sucessos pop obscuros, clássicos do rock e trechos de notícias de rádio que interessavam os motoristas da época. As cenas são cheias de vida e energia enquanto nos dão um tour gratuito por LA. São flashbacks e fantasias de uma Hollywood que podia sonhar antes do horror a assolar.

Se esse realmente for o último filme de Tarantino então é uma obra sobre fins. É cheio de sentimentos apaixonados sobre a natureza fugaz da vida e sobre a permanência da magia do cinema. Este é o consolo de uma turnê de despedida bonita, irreverente e tocante.

5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas.