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Tema Livre

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Qual a necessidade de “enegrecer” o Feminismo?

25 julho 2019 - 09h46

Menção ao dia 25 de julho: DIA NACIONAL DE TEREZA BENGUELA E DIA DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

                 Na América Latina e em especial no Brasil, ao nos referir ao mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.

                 Ao alternativa de “enegrecer” o movimento feminista brasileiro tem um significado pontual, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas e negras. A feminista negra norte-americana Patrícia Collins argumenta que o pensamento feminista negro seria “ (…) um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de visão de si, da comunidade e da sociedade… que envolve interpretações teóricas da realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem…” A partir dessa visão, Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”. Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”. Uma sociedade onde, “Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. “Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero.              

                 É visível que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política, ergueram as suas vozes, brigaram e estão conquistando o seu espaço e representação e se fazem presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. O que engrena essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta antirracista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos”. Pela construção de uma sociedade igualitária, multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade.     

* Myleide Machado é mestre em História pela Universidade Federal da Grande Dourados (2019). Possui Graduação em História pela Fundaçao Dom André Arco Verde (2008), Especialização em Educação a Distância pela Universidade Católica Dom Bosco (2013). Atua na área de História, com ênfase em História, principalmente nos seguintes temas: feminismo negro, identidade, territorialidade, mulher negra e memória. Membro dos Grupos TEZ (Trabalho Estudos Zumbi), (GMUNE), (GEPPEHER-UEMS) e da Comissão Sul-matogrossense de Folclore.