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COLUNA

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Pedro Martinez

Jojo Rabbit: uma visão crua do ódio infundado...

é melhor rir do que chorar

21 janeiro 2020 - 09h41

Ninguém faz uma comédia sobre um nazista de 10 anos e seu melhor amigo imaginário, Adolf Hitler, e vive sob a ilusão de que eles gostam de passear no bosque. Jojo Rabbit é um risco titânico, igual a andar de jato com os olhos vendados ou balançar os dedos na gaiola de um leão. No entanto, o filme de Taika Waititi é terno, ousado e nítido - com precisão para manter seu caminho estável e suas ambições sob controle. Isso faz com que os fascistas façam palhaçadas enquanto lamentam a facilidade com que suas crenças podem corromper uma nação.

Qualquer um que queira apresentar Jojo Rabbit como uma resposta direta ao esteriótipo traiçoeiro da nacionalidade alemã em todo o mundo ficará extremamente decepcionado. Não fizeram o filme pra ofender ninguém mas para contar o clima da guerra na época.

Situado nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, seguimos Johannes "Jojo Rabbit" Betzler (Roman Griffin Davis), um jovem fanático que se classifica como "massivamente fissurado em suásticas". Desesperado para provar sua masculinidade e ser aceito pelos colegas, ele engole toda propaganda de supremacia branca que lhe é fornecida. Em uma tentativa de substituir seu pai, desaparecido na Frente Italiana, ele também evoca o Führer Adolf Hitler(Waititi) como amigo imaginário, fingido ter conversas diárias com a figura.

Waititi, que é judeu, evita qualquer cheiro de imitação direta a figura de Hitler. Sua versão serve apenas para representar como um menino processaria as mentiras e promessas de um ditador (ou seja, permaneça leal a mim e você será legal). Ele salta pela tela como um palhaço travesso, embora, às vezes, seu rosto endureça e sua voz caia em um rosnado - um lembrete de que sua camaradagem é uma ilusão, facilmente ultrapassada por trejeitos de raiva. Jojo é culpado do mesmo inicialmente. Em uma performance de estréia notável, Davis navega com facilidade as explosões malcriadas de seu personagem e as conseqüências de remorso com facilidade, preservando o clima inquieto de uma criança que ainda vê esse mundo destruído como seu playground.

Jojo Rabbit interpreta fortemente o humor pateta e livre de Waititi, com acenos generosos para as comédias nazistas de Charlie Chaplin. Mas é implantado aqui como uma forma de humanização - não para tornar os personagens mais simpáticos ao público, mas para ilustrar com que facilidade o fascismo se alimenta das falhas humanas banais. Alguns são doutrinados, outros apenas complacentes. Mas todo mundo é inevitavelmente motivado por alguma forma de egoísmo ou auto-ilusão. O capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), que dirige o acampamento local da Juventude Hitlerista, está interessado apenas nas glórias da guerra. Ele pode zombar da ideologia nazista, mas, no final, está claro que não o torna menos cúmplice.

As únicos personagens excluídas desse ódio são Rosie (Scarlett Johansson), mãe secretamente anti-nazista de Jojo, e Elsa (Thomasin McKenzie), a adolescente judia que ela ajudou a esconder no quarto de sua filha falecida. Elas tentam compartilhar suas visões de uma vida melhor, sussurrando uma para a outra durante suas tête-à-têtes na calada da noite. O brilho fraco nos olhos delas é a prova de que elas não vão desistir. Quando Jojo finalmente vê isso também, sabemos que ele tem uma chance de consertar as coisas. O tipo de esperança que o filme de Waititi oferece é frágil, mas preciosa - que o amor é suficiente para abrir um caminho para um futuro melhor.

Jojo Rabbit é um filme inesperado; uma sátira que zomba sem piedade de Hitler e dos nazistas e, ao mesmo tempo, trata o contexto em que a história é realizada com respeito e solenidade. Você nunca sente que Waititi está desrespeitando as vítimas da Segunda Guerra Mundial; ao contrário, o que ele faz é demonstrar o quão errado Hitler estava e usar a comédia para destacar o quão horríveis foram as consequências de suas ações e as maneiras pelas quais muitas pessoas eram vítimas de seus pensamentos. É um filme que acaba cativando o espectador, principalmente emocionalmente.


5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas dia 6 de Fevereiro.