As minas de trança, os cara de camisa com frases da trilha sonora do gueto. As filas dobravam a esquina em frente ao Jeremias. Há dez anos os caras dos Racionais não tocavam em Campão. Nem dá para chamar Campo Grande assim, se o RAP é a trilha sonora da noite. Em frente ao local, nunca se viu tanta polícia. E também muita gente ansisoa para ouvir os caras.
Marrentos, como sempre, Mano Brow, KL Jay, Ice Blue e Edy Rock não atendem a imprensa. Já era esperado. Mas um show é sempre um monstro, como diz Brown na abertura do CD Racionais Ao Vivo, de 2001. E nada mudou.
O Jeremias ficou pequeno para quem veio assistir e esperava há muito tempo. O caso do vendedor Marcio Silva. Ele que veio do Jardim Imá e não queria perder o “reencontro”. “Quem curte nem precisa usar a roupa ou o cabelo de rapper. É na alma”, filosofa explicando seu estilo mais reservado.
E quem ainda era uma criança quando Racionais esteve pela última vez na Capital, em 1997, também esperava como nunca. “Nem pensei que fosse ver ao vivo. É a trilha sonora da realidade”, conta Amanda, 18 anos, que mora no Buriti. Acompanhada da amiga Rafaela, 18 anos, ela confessa que é um pouco surreal falar assim.
“É uma realidade que a gente não vive, mas é o que eles cantam e a letra dá um choque”, afirma.
Já conhecendo essa realidade, Rodrigo Lobó, morador no Jardim Aero Rancho já conhece melhor. “É o que a gente vive nas periferias e que os playboys querem viver aqui”, afirma efusivo já cantando um trecho do som “que emana de um opala marrom”. Afnal, o mundo é diferente da ponte pra cá!

Funk é Funk e RAP é compromisso
O back 'tá' na mente e não se assuste com a linguagem dessa matéria, porque o sentido é o leitor sentir-se lá dentro. Nada diferente de qualquer balada da noite campo-grandense. Quem confunde o RAP com o Funk pode estar enganado, não só pelas letras também como o estilo. Se no baile funk o público é predominantemente feminino, o cenário em noite de ritmo e poesia é completamente diferente.
As meninas são minoria e os shortinhos curtos com roupas cheia de decotes dão espaço as minas de jeans e tênis. Os cara já usam camiseta com os dizeres homenageando ídolos como Brown e Sabotage. Assim, sem M no final.
“Ah, o RAP você vem pra curtir, não é para rebolar até o chão. Nada contra, mas é um estilo diferente”, conta Adriana Martins, que foi ao show ansiosa para cantar os clássicos.
Brigas? Apenas uma e o espaço inexistente dentro do recinto abre igual quando Moisés bate o cajado no Mar Vermelho.
Os caras ostentam de baldinho a R$ 50 com dez cervejas palito. A Bud é R$ 6 cada. Mais cara, mas não deixa de ser vendida.
Enfrentando o preconceito, eles fazem o RAP pulsar na periferia
LocoLeste foi um dos grupos que fez a galera agitar antes da atração principal entrar no palco. Os meninos com tatuagem literalmente até na sobrancelha mostram que o som “de preto e favela” também faz parte de Campo Grande. As letras recheadas de reclamações políticas e palavrões fazem o público vibrar. A cada "Vão se foder" é um "salve" gritado para os meninos da Zona Leste.
Aos 22 anos, o tatuador Yule e o jovem Paulo, também 22, enfrentam o preconceito diário da população e da polícia para fazer o som que gostam. “Sobrevive, mas temos feito o som. Só não tem incentivo porque muita gente tem preconceito e a polícia bate em cima sempre”, diz Yule que tem o RAP como uma filosofia de vida.
Apesar de cantar as letras que exaltam a maconha – sim, as pessoas fumam e não é só no RAP, ele usa palavras simples para explicar porque ainda canta. “Vivo de ser tatuador, acham legal chamar o grupo de RAP mas não querem pagar, eu ainda assim acredito no som que fazemos”, diz ele que, com os companheiros do LocoLeste, apresentou um trabalho todo autoral.
Paulo também defende o RAP. “É a mesma origem do Funk. Favela, ostentação, crime, mas isso que a favela vive, gente. Não é outra coisa que vivem não. O RAP canta isso, só que sem sexualizar. O mundo tem putaria, então o Funk canta isso. Só que de uma maneira mais escrachada e hoje mais valorizada”, acredita.
Os dois têm a paixão pelo RAP e pelo grupo eternizada no corpo. E não se envergonham disso. “É nois mano, é o RAP representando os excluídos”, assumem.

No palco, Dandara Zumbi empodera as minas com uma voz potente e trabalho autoral. Dandara é encantadora. Preta rara e cheia de poder, quando desce do palco fica mais tímida e agradece quando é cumprimentada pelo trabalho.
E o sempre presente DJ Magão, eterno Falange da Rima, causa arrepio na espinha ao mostrar que o RAP, em Campão, respira e forte. A galera canta a plenos pulmões Circo dos Horrores, trabalho autoral do grupo que nasceu em 1996 e ainda hoje representa a cena.
Racionais MCs
O show do Racionais começou com atraso de quase uma hora, mas nem isso foi o suficiente para tirar o delírio da galera quando Brown, KL Jay, Edy Rock e Ice Blue entraram no palco. Misturando som das antigas com o trabalho do novo lançamento, eles mostraram porque são ainda o maior expoente do estilo no País.
Negro Drama, entre o sucesso e a lama, é o som que arrepia e faz o público ir ao delírio. Clássicos como Diário de um Detento e Jesus Chorou fazem o público cantar e, nos camarotes, até mesmo os já tiozinhos e patricinhas de salto pulam ao som do gueto.
Ali, as patrícias viram “minas” e os mauricinhos viram "manos". Pelo menos por uma hora e meia que passou tão rápido que já deixou saudades e um sentimento que faltou ainda muito som para rolar.
E que não esperem mais dez anos para voltar. Porque aqui em Campão, o RAP ainda faz rima, poesia, e o bagulho fica louco!








